Autor e autoria no cinema e na televisão
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Autor e autoria no cinema e na televisão


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gem de um \u201ccanto novo\u201d que recria a memória e reinventa o mundo. Ou,
simplesmente, como queria Glauber, proporcionar \u201cestados cinemato-
gráficos\u201d para serem gozados enquanto se fizesse amor, numa greve ou
numa revolução (MOTA, 2001).
Na trajetória cinematográfica e no pensamento de Glauber Rocha
não é possível separá-lo das contradições e conflitos imaginados e
registrados na sua obra. Mais do que um autor, foi um personagem trá-
gico como aquele matador de cangaceiros, Antônio das Mortes, o
contrariador de mitos, que lutava sem dar explicações porque cumpria
o seu destino ou, como Paulo Martins, cuja morte em Terra em Transe
confirmava que a política e a poesia eram demais para um só homem.
Referências
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Autoria no campo das telenovelas
brasileiras: a política em
Duas caras e em A favorita
Prof. Dra. Maria Carmem Jacob de Souza1
Prof. Dra. Maria Helena Weber2
Introdução
No debate sobre a autoria nas telenovelas brasileiras, três tendên-
cias chamam a atenção. A primeira considera que as condições de pro-
dução das telenovelas tendem cada vez mais a diminuir a autonomia
necessária para o exercício da função de \u201ccontrole da obra\u201d pelos
roteiristas chamados de autores3. A segunda perspectiva prevê o con-
trole relativo do autor de telenovelas e o poder de influenciar as deci-
sões durante a condução da estória. Nesses dois casos, o pressuposto
comum aposta na existência de autores de telenovelas, ou seja, na
1 Maria Carmen Jacob de Souza é professora do Curso de Comunicação \u2013 graduação e pós-graduação
da Universidade Federal da Bahia. Pesquisadora do CNPq. mcsjacob@uol.com.br
2Maria Helena Weber é professora do Curso de Comunicação \u2013 graduação e pós-graduação da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora do CNPq. maria.weber@ufrgs.br
3 Perspectiva emblemática observada em Nogueira (2002).
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existência de roteiristas reconhecidos como autores num contexto de
elaboração que reúne diversos especialistas da produção e criação
audiovisual.
As concepções de autoria nas telenovelas dessas duas tendências
expressam definições usuais dos profissionais e das instâncias de con-
sagração que avaliam e adensam capital simbólico ás telenovelas, aos
roteiristas-autores e aos demais especialistas envolvidos (diretores,
figurinistas e outros). O reconhecimento dessa posição de autor do
roteirista titular4 tem sido um pressuposto inquestionável.
A terceira tendência admite também que o roteirista titular é o au-
tor nas telenovelas brasileiras. A diferença com as outras duas tendên-
cias encontra-se na preocupação de investigar a história da construção
social das lutas classificatórias que sustentam essa definição de auto-
ria. Preocupação que tem gerado análises das relações das dimensões
contextuais com as textuais das telenovelas para evidenciar traços
estilísticos dos roteiristas autores.
A reflexão sobre autoria nas telenovelas explorada neste artigo filia-
se mais fortemente a esta última tendência que considera as funções e
posições dos roteiristas historicamente reconhecidas como autores, se-
gundo as particularidades do contexto de produção, criação, difusão,
comercialização e fruição das telenovelas. Interessa, sobremaneira, am-
pliar o conhecimento sobre as relações entre as condições sociais e his-
tóricas que propiciaram o reconhecimento dos roteiristas como autores
de telenovelas no Brasil e os graus de poder de decisão que eles têm
num sistema coletivo de criação audiovisual5 para escolherem e defini-
4 Roteirista titular refere-se ao roteirista responsável pela telenovela, que pode trabalhar com ou
sem colaboradores. Em poucos casos, nas ultimas décadas, tivemos mais de um roteirista titular
na TV Globo no horário das 21 horas.
5 Cabe aqui esclarecer que não se esta examinando as tendências de não reconhecer a possibilidade
da autoria dos roteiristas em telenovelas. A tendência de não reconhecer a autoria dos roteiristas
na ficção para TV, seriada ou não, também não está sendo explorada. De qualquer modo, vale tecer
alguns comentários. A indicação dos títulos representativos da ficção televisiva de qualidade
elaborada por Machado (2001) curiosamente não indicava os roteiristas e sim os diretores. Postura
que parece levar para a TV com muita facilidade a tradição do cinema. A Associação Brasileira de
roteiristas profissionais de TV (artv.art.br) foi criada em 2000, mostrando como o reconhecimento
do roteirista como autor exige mobilizações intensas dos interessados. Por fim, ressalto trecho da
declaração mundial de autores-roteiristas: \u201cReivindicamos o direito dos autores-roteiristas de
todos os lugares de serem reconhecidos como autores da obra audiovisual que escreveram e de
serem justamente recompensados cada vez que seu trabalho for usado\u201d, assinada em 2009, em
Atenas, na conclusão da primeira Conferência Mundial dos Autores-Roteiristas.
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rem as estratégias de composição dos programas de efeitos previstos
nas historias que criaram6.
A pretensão de evitar o tom de defesa reificadora do autor roteirista7
exige um exercício mais arguto da crítica das operações de um dos con-
ceitos-chave empregado na análise da construção social da autoria: cam-
po da telenovela brasileira8. Este conceito nasceu de teorias, métodos e
hipóteses gestados por Bourdieu ao investigar bens simbólicos e pela
repercussão das críticas que essa abordagem teórica fomentou.