Autor e autoria no cinema e na televisão
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Autor e autoria no cinema e na televisão


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Compreender a posição de autor nessa perspectiva implica em se
apropriar dos estudos sobre a natureza da autonomia imaginativa num
sistema de produção e circulação comercial instituído por uma concor-
rência desigual. Implica em estar atento a história das práticas e repre-
sentações de agentes, grupos e instituições que configuram os parâmetros
de avaliação que indicam a qualidade associada a marcas estilísticas
autorais nas telenovelas.
Num primeiro momento apresentamos os pressupostos centrais
que estabelecem as bases do argumento que sustentam a análise das
marcas de autoria no campo das telenovelas brasileiras.
Para ilustrar o fenômeno vamos tratar de um dos aspectos que cola-
bora no contexto que fomenta a autoria nas telenovelas brasileiras. O
papel dos gestores da emissora de televisão responsável pela produção
e pela difusão de telenovelas. Eles lançam mão de mecanismos que põem
em operação dispositivos facilitadores da posição de autor das teleno-
velas. Dispositivos que podem agregar maior ou menor capital simbóli-
co para a própria emissora e para os profissionais envolvidos. Não se
quer com esta afirmação reforçar a premissa equivocada que pensa as
emissoras como onipresentes e capazes de controlar todo o sistema de
produção, criação, difusão e apreciação de telenovelas. O que se deseja
observar é o papel dos gestores das emissoras no contexto de elaboração
6 Nessa medida, a definição de autor na ficção seriada telenovela no Brasil pode ser a mesma em
minisséries e ser diferente no caso de comédias de situação. Assim como a definição de autor de
ficção seriada telenovela pode ser diferente a depender do país do sistema comunicacional de
produção.
7 Não podemos esquecer que além do reconhecimento autoral do roteirista, tem-se a presença da
\u201cescrita particular e autoral\u201d de diretores que demarcam parcerias, autorias compartilhadas com os
roteiristas (SOUZA, 2002; ORTIZ et al., 1989; OROFINO, 2006; FECHINE; FIGUEIROA, 2008).
8 Consultar Ortiz e Ramos (1989), Souza (2004) e Souza (2005)
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do programa que precisa levar em consideração tanto as características
que o constituem quanto as disposições, modos de pensar e agir, que
faz do roteirista o autor das telenovelas.
Examinamos, num viés exploratório, as relações entre a posição de
autor de telenovelas em uma dada circunstancia histórica e as estratégi-
as textuais estilísticas associadas a temas recorrentes que demarcam o
reconhecimento autoral de roteiristas-autores da maior produtora e dis-
tribuidora desse programa de televisão dos últimos trinta anos: TV Glo-
bo.
Segundo o sistema de produção da emissora, temos autores-
roteiristas associados a temas e faixas de horário distribuídos, entre
outros motivos, segundo características da audiência. Selecionamos o
horário das 21 horas, a telenovela exibida após o Jornal Nacional. Ela
tende a apresentar um dos maiores índices de audiência da emissora e
a conferir alto grau de reconhecimento e consagração para a emissora e
para os autores-roteiristas envolvidos há muitos anos.
Escolher uma das faixas de horário significa que os autores-
roteiristas, juntamente com a equipe de produção e criação, possuem
habilidades necessárias e adequadas para enfrentar os desafios, pres-
sões próprias do programa de dramaturgia exibido neste momento.
As telenovelas produzidas pela TV Globo têm em média hoje mais
de 150 capítulos exibidos de segunda a sábado durante mais de seis
meses, tanto no horário das 18h, das 19h quanto no das 20 ou 21 horas.
Para se ter uma idéia, imaginemos que cada capítulo tivesse 30 minutos
de duração (retiremos o intervalo comercial). Uma telenovela do horá-
rio das 21 horas de 150 capítulos teria 75 horas de material original
produzido e exibido em caráter fabril, sendo reconhecidamente fruto
de esquemas e repetições que, de modo geral, é apreciado uma única
vez numa circunstância de atenção flutuante do telespectador, durante
313 dias do ano, aproximadamente.
Examinar marcas de autoria dos roteiristas-autores neste produto
implica, pois, em formular parâmetros comparativos de extensos mate-
riais audiovisuais para observar tanto as poéticas usadas para a repeti-
ção, a regularidade e os modos de enredar a historia, quanto às usadas
para criar os efeitos de originalidade e inovação.
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Decorrem destas condições de pesquisa outros desafios. De qual-
quer modo, um deles não se pode escapar: a seleção do material que
permitirá observar marcas de autoria dos roteiristas-autores. Quais te-
lenovelas, quais capítulos, quais momentos deste texto audiovisual se-
riam mais apropriados?
Estabelecemos dois momentos, segundo a pretensão de comparar
modos de criar o primeiro ato das telenovelas. No primeiro caracteriza-
mos os temas, motivações, personagens que vivem nos mundos ficcionais
de mais de um roteirista-autor. Selecionamos os mais freqüentes de uma
determinada faixa horária. Localizamos a telenovela selecionada nesta
cartografia de mundos construídos pelos autores-roteiristas. Esta etapa
estimulou comparações entre a telenovela selecionada e as outras tele-
novelas criadas por cada um deles, mostrando recorrências, diferenças,
mudanças de rumo.
Depois, a atenção é voltada para as telenovelas selecionadas e des-
tacamos as linhas gerais da trama central (ou tramas centrais, quando
for o caso), tendo como pontos-limite a formulação do \u201cponto de ata-
que\u201d ou \u201cponto de virada\u201d (CAMPOS, 2007, p. 387), que em geral repre-
senta uma terça parte da telenovela, o primeiro ato.
Com o trecho de análise estabelecido elaboramos um estudo
exploratório das estratégias deflagradas pelos recursos narrativos ob-
servados no roteiro encenado, visível na observação de cada capitulo e
na leitura de cada uma de suas sinopses.
Este artigo apresenta resultados parciais desta pesquisa recente9
promovida pelo Observatório de Ficção-televisiva Ibero-americana/Nú-
cleo Brasil10 que analisou os mundos ficcionais de Manoel Carlos (Pá-
ginas da Vida, 2006/2007), Gilberto Braga (Paraíso Tropical, 2007),
Aguinaldo Silva (Duas Caras, 2007/2008) e João Emanuel Carneiro (A
Favorita, 2008/2009).
9 Colaboraram neste trabalho participantes do Grupo de Pesquisa A-tevê.CNPq/PosCom/UFBa:
Amanda Aouad, Larissa Ribeiro e Luis Fernando Lisboa.
10 Observatório Ibero-americano de ficção televisiva (Obitel), criada em 2005, articulava uma rede
internacional de pesquisadores em 2009 que examina ficções televisivas de cada país participante:
Argentina, Brasil, Chile, Espanha, estados Unidos (de língua hispanica). México, Portugal e Uruguai.
Os pesquisadores da Rede Obitel Brasil, sob a coordenação geral de Maria Immacolata V. de Lopes,
contam com o apoio da CETVN/ECA/USP e da Globo Universidade.
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Para facilitar a seleção da apresentação dos resultados, respeitando
as fronteiras demarcadas por este artigo, tratamos das relações entre a
posição de dois destes autores consagrados na historia do campo da
telenovela no Brasil, Aguinaldo Silva e João Emanuel Carneiro, e as
poéticas que demarcaram o reconhecimento autoral de ambos. O trata-
mento da política é o tema escolhido11.
Criação, gestão e temas das telenovelas
Os conceitos elaborados por Pierre Bourdieu: espaço das obras,
tomadas de posição dos realizadores, neste caso os autores-roteiristas
titulares e o campo de produção das telenovelas engendraram a premis-
sa que nos orienta12.
O espaço das telenovelas explora as relações intertextuais entre
ficções seriadas. O analista precisa ter um repertorio sobre este assunto
para que saiba localizar e comparar as telenovelas entre si. Repertorio
sobre as obras e sobre os modos