Autor e autoria no cinema e na televisão
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\u201c uma imagem do autor.\u201d (p. 41). Um dos discursos que com-
põem a função autor diz respeito aos modos de formular o \u201cnome do
autor\u201d de uma obra numa determinada cultura. O nome enuncia e clas-
sifica a natureza da obra, ou melhor, \u201cestabelece ligações\u201d do nome de
quem faz com aquilo que foi feito, ou seja, com o tipo de obra, os gêne-
ros narrativos, os temas tratados e o modo de organização poética dos
textos e da linguagem. Como lembra Foucault \u201co nome do autor\u201d ao de-
limitar e reagrupar fomenta sistemas de oposição e comparação de tex-
tos (p. 45).
Dos aspectos apontados por Foucault (1992, p. 47-48) para exami-
nar os discursos do nome do autor depreendemos como centrais: o re-
gime de propriedade das obras ou textos; a possibilidade do autor ser
punido ou recompensado segundo um regime de propriedade \u201cdireitos
de autor, direitos de reprodução e tantos outros\u201d; a possibilidade do ato
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de elaborar uma obra que represente a transgressão a esse regime de
propriedade sem perder, contudo, os benefícios da propriedade; d) o
tempo e o lugar dos discursos.
Bourdieu, segundo nossa percepção, sistematizou em 1992, em As
regras da Arte, um método de análise histórico-sociológica da \u201cfunção
autor\u201d a partir do conceito de campo particular de produção de obras e
autores. Conceito formulado para explorar e compreender as relações
entre os modos de construção social da crença na existência do autor e
das obras e as práticas de criação de obras que expressam estilos reco-
nhecidos e consagrados de autores. Espaços sociais que permitem ob-
servar a operação de sistemas de representações e disposições que
remetem à \u201cindividualização do \u2018personagem autor\u2019\u201d e aos sistemas de
classificação e valorização de obras autorais. Remetem as relações entre
as histórias dos processos sociais, políticos e econômicos de
individualização do autor e os movimentos de entrelaçamento e dife-
renciação dos mercados de produção ampliada e restrita das obras que,
segundo sistemas de reconhecimento e valorização julgam a autentici-
dade dos autores e das obras. Reconhecemos, pois, que o exame dos
campos de produção e dos discursos que passam \u201ca contar a vida dos
autores de preferência à dos heróis\u201d colabora na compreensão da \u201ccate-
goria fundamental da crítica que é \u2018o-homem-e-a-obra\u2019\u201d (FOUCAULT,
1992, p. 34).
Em boa medida, variações desta perspectiva de análise têm sido
desenvolvidas por inúmeros pesquisadores que investigam autores e
obras associados ao mercado ampliado de produção e circulação. Mais
recentemente, os estudos que invocam a figura do autor e de obras no
espaço social de produção dos meios de comunicação se multiplicam.
Quatro áreas têm sido objeto de atenção quando se examina a auto-
ria na televisão para identificar e caracterizar tipos de especialistas en-
volvidos, funções e alterações na dinâmica coletiva da produção para
este meio de comunicação (THOMPSON; BURNS, 1990). A primeira
delas trata do processo de feitura de cada programa. No caso das fic-
ções, em particular as seriadas, destaca-se o papel do produtor ou dos
profissionais que atuam na captação dos recursos que viabilizam os
produtos e na gestão das empresas produtoras. Temos o papel do pro-
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dutor no sistema de rede das organizações industriais e temos o produ-
tor que atua no sistema mais restrito da rede que orquestra a colabora-
ção dos profissionais que elaboram o produto.
Com a complexidade que se pode ter num sistema de produção de
ficção seriada como a telenovela, tem-se o desafio de investigar cada
etapa de produção/criação, os profissionais envolvidos e a relação que
estabelecem com aqueles que tomam as decisões econômicas, técnicas,
estéticas etc.
A segunda área preocupa-se com a dinâmica de funcionamento do
controle criativo que favorece o cumprimento dos objetivos estabeleci-
dos do ponto de vista econômico até a fruição esperada pela audiência.
A terceira observa as marcas deixadas nos produtos pelos especialistas
envolvidos: roteiristas, diretores, figurinistas, músicos, atores, produ-
tores, outros. Roteiristas, diretores, produtores (em conjunto ou sepa-
radamente) tendem a ficar com a designação da autoria que supostamente
depende do modo como se fomenta a colaboração, a cooperação criativa
que orquestra idéias, procedimentos e estilos diversos, muitas vezes
em circunstancias competitivas e estafantes.
Estas áreas de pesquisa tratam de vários aspectos do processo de
conformação da figura do autor de modo complementar: as condições
que viabilizam o produto, as condições de trabalho que promovem de-
mandas específicas de criação e colaboração que promovem as interfaces
da regularidade e do particular e os sistemas de produção discursiva,
de representações e disposições que estabelecem o reconhecimento au-
toral das instituições, grupos e profissionais especialistas envolvidos.
As disputas pela manutenção ou aumento deste poder de ingerên-
cia, poder de decisão no processo complexo e multifacetado da criação
coletiva em empresas de comunicação são acentuadas quando vultosos
recursos econômicos e financeiros estão em jogo. Neste contexto atua
os realizadores consagrados ou em processo de consagração, cientes que
quanto maior o poder de negociar e interferir sobre o processo, melhor
as condições de escolha dos recursos e das estratégias empregadas que
podem estabelecer o reconhecimento de poéticas autorais.
Redimensionando esse fenômeno no contexto atual do mercado das
indústrias de comunicação voltadas para o audiovisual (do cinema às
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outras telas do momento \u2013 das emissoras de TV, do computador, dos
games aos celulares), é candente o papel das empresas envolvidas que
desejam o reconhecimento autoral de seus produtos. Nesta esfera, re-
fletir sobre as ações que desenvolvem favorece a compreensão dos es-
forços que tecem para enfrentar a concorrência e mobilizar tendências
num mercado transnacional cada vez mais desigual (URICCHIO, 2004).
Pensar o papel do gerenciamento da TV Globo na construção social
do autor de telenovelas colabora na avaliação da repercussão dos movi-
mentos das empresas de entretenimento e comunicação mundiais que
lutam para manter e conquistar padrões de reconhecimento e consagra-
ção que viabilizam a presença e a ampliação delas neste mercado. Esta é
mais uma linha de pesquisa que não cabe aqui esmiuçar.
O pressuposto guia da análise, neste caso, exige que a emissora e
seus gestores sejam pensados enquanto participantes privilegiados na
orquestração do trabalho coletivo, amplo e complexo. No caso da TV
Globo existe desde profissionais que atuam como diretor geral da emis-
sora, diretor geral da área de entretenimento (criada em 2008, reúne as
áreas de criação, produção, recursos artísticos e controle de qualidade)
até os diretores de núcleo das telenovelas. Das muitas variáveis exis-
tentes, este artigo mencionará uma delas, a capacidade destes gestores
de, por um lado, alinhar uma dinâmica de funcionamento caracterizada
pela regularidade e, por outro, inserir novidades segundo princípios de
funcionamento em disputa no sistema mais amplo do mercado
audiovisual do entretenimento, num período de médio e longo prazo.
O projeto Memória Globo das Organizações Globo é um bom exem-
plo. A reformulação, em 2006, do Globo Universidade, setor que esta-
belece parcerias com Universidades sem deixar de pensar o labor criativo
especializado da emissora também é um bom exemplo. As duas ações
chamam para si a escritura da historia dos profissionais e dos progra-
mas produzidos pela emissora exercendo o poder de enunciar o que se
deve lembrar com depoimentos, imagens, publicações para