Autor e autoria no cinema e na televisão
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Guma (Marcos Palmeira),
ganha vida fora de Porto dos Milagres, com a veiculação nos intervalos
comerciais da emissora de uma fictícia propaganda eleitoral dos perso-
nagens, segundo os moldes da propaganda eleitoral da realidade políti-
ca brasileira, veiculada também naquela ocasião pela Televisão.
Em 2004, Senhora do Destino trouxe, mais uma vez, o sotaque da
região nordeste para as 21h, assim como as tramas urbanas. É a vez da
história de Maria do Carmo (Suzana Vieira), mulher, mãe, chefe de fa-
mília, miserável, pernambucana que decide mudar a vida no Rio de
Janeiro com seus cinco filhos, um deles com meses de vida. O primeiro
capitulo é memorável pelo modo como reconstrói os confrontos da po-
licia com a rebelião popular nas ruas do centro do Rio de Janeiro, du-
rante os primeiros dias do golpe militar de 1964. O contexto que muda
os rumos do país mudará a vida da personagem principal, a filha é se-
qüestrada, e conhece na prisão o jornalista de esquerda que acolherá
sua dor e a acompanhará na batalhas que travará para reaver sua filha e
mudar para melhor, pelo trabalho honesto, a qualidade de vida de seus
filhos e amigos. Erguerá um empreendimento e será uma liderança no
bairro que ajudou a fundar. Tem-se, como em Duas Caras, a telenovela
seguinte, a representação de duas faces da política. Por um lado, perso-
nagens que vivem a política partidária e a política dos movimentos so-
ciais \u2013 com a corrupção e o combate a ela associados \u2013 e, por outro,
personagens que atuam na política do cotidiano e parecem desconhecer
ou não necessitar do apoio do outro modo de atuação política.
Invariavelmente, há um político como Thomas Jefferson (Mário
Frias) e Naldo (Eduardo Moscovis) em Senhora do Destino \u2013 este últi-
mo, corrupto \u2013 e Narciso Tellerman (Marcos Winter) de Duas Caras.
Nessa novela há, ainda, os personagens que cresceram e acabaram se
candidatando a cargos públicos, como Gioconda (Marília Pêra) e Evilásio
(Lázaro Ramos), também em Duas Caras.
As peculiaridades das cidades em que os personagens circulam
nas telenovelas rurais, como Greenville (A Indomada) e Tubiaganca (Fera
Ferida, 1993-1994), também são observadas nas tramas urbanas. Os
personagens de Senhora do Destino e Duas Caras podem até trafegar
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entre o subúrbio e outras regiões do Rio de Janeiro, mas é por Vila de
São Miguel e pela Favela da Portelinha, respectivamente, que a ação
obrigatoriamente passava.
Aguinaldo Silva representa pobres trabalhadores que \u201cvencem na
vida\u201d de forma honesta através de seu trabalho. As personagens femini-
nas devem ser fortes e preparadas para assumir a responsabilidade com
a família e as adversidades, sem perder a sensualidade. As telenovelas
têm lugares de tratamento das prostitutas \u2013 Boate Sexus (Roque Santeiro,
1984), Casa da Luz Vermelha (Tieta, 1989-1990) e Casa do Campo (A
Indomada) \u2013 e as personagens Nazaré Tedesco em Senhora do Destino
e Bárbara em Duas Caras.
Os vilões devem ser canastrões, fazer maldades enquanto fazem o
público dar risadas. O destaque fica por conta de vilãs como Perpétua
(Joana Fomm, Tieta), Altiva (Eva Wilma, A Indomada) e Nazaré Tedesco
(Renata Sorrah). Os mocinhos costumam ser movidos pela vingança \u2013
Flamel (Esdon Celulari) e Helena (Adriana Esteves) pela morte de seus
pais em Fera Ferida e A Indomada, Tieta pela família que a escorraçou,
Maria Paula por ter sido enganada em Duas Caras. De maneira geral, a
vingança acaba sendo deixada de lado, geralmente por amor. A exceção
é Rosa Palmeirão (Luiza Tomé), que mata o homem amado, Félix (Antô-
nio Fagundes) em Porto dos Milagres (2001).
O homossexualismo é uma temática constante. A dupla de
exotéricos Políbio (Guilherme Karam) e Raposo (Guaracy Valente) em
Partido Alto (1984), repetida em 1999, com a dupla também exotérica
Uálber (Diogo Vilela) e Edilberto (Luis Carlos Tourinho) em Suave Ve-
neno. Temos o trio amoroso agredido pelos conservadores religiosos da
Portelinha em Duas Caras, formado por Bernardinho (Thiago Mendon-
ça), Dália (Leona Cavalli) e Heraldo (Alexandre Slavieiro). Alguns des-
ses personagens conquistaram a simpatia do público pelo humor advindo
da forma irônica de construí-los, como Ubiracy (Luiz Henrique Nogueira)
de Senhora do Destino. Outros fazem pensar que a relação entre pesso-
as do mesmo sexo não é algo que deva ser desprezado, como demonstra
na seqüência de cenas de Senhora do Destino em que casais heterosse-
xuais são mostrados em momento de intimidade violenta enquanto há
ternura e carinho e cumplicidade entre o casal de mulheres: Jenifer (Bár-
bara Borges) e Eleonora (Mylla Christie).
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Momentos da política em Duas caras
A trama central de Duas Caras gira em torno da história de amor/
vingança entre Maria Paula (Marjorie Estiano) e Adalberto Rangel/
Marconi Ferraço (Dalton Vigh). Ele aplica um golpe depois de testemu-
nhar a morte de seus pais, deixando Maria Paula grávida e sem dinhei-
ro. Dez anos se passam até que ela possa ter a chance de se vingar do
homem que a enganou. Neste período Ferraço usa nome falso e fez uma
cirurgia plástica que lhe possibilitou recomeçar a vida com uma nova
identidade. Aguinaldo Silva diz que se inspirou na história de um polí-
tico de esquerda brasileiro em evidência na época.
A fundação da Favela da Portelinha e o acompanhamento de seu
dia a dia merece destaque, pois é por onde passa a maioria das tramas.
Trabalhadores migrantes que trabalhavam na obra da empresa da cons-
trução civil GPM iniciam uma rebelião no canteiro de obra quando des-
cobrem que ficariam sem salários diante da falência da empresa. Juvenal
Antena (Antônio Fagundes), chefe de segurança da obra, se solidariza
com os trabalhadores e assume a liderança do movimento que terá como
desfecho a invasão de terras dos empresários da falida GPM para cons-
truir a comunidade da Portelinha. Ao assumir a identidade de Marconi
Ferraço, Adalberto compra a GPM para poder se apresentar à sociedade
como um respeitável empresário do ramo da construção civil, tornan-
do-se inimigo de Juvenal.
A passagem de tempo de uma década, no décimo capítulo, aconte-
ce exatamente na Portelinha, mostrando o seu crescimento e expansão
enquanto a câmera gira ao redor de Juvenal (recurso semelhante foi usa-
do para a passagem de tempo da personagem Maria do Carmo em Se-
nhora do Destino).
Os mundos dos personagens ricos e pobres, \u201cbrancos e negros\u201d, se
misturam em Duas Caras. O racismo e a política residem no núcleo dra-
mático que envolve a família dos Barreto. Um dos integrantes deste nú-
cleo é Barretão (Stênio Garcia), irmão da outra personagem central Branca
(Suzana Vieira). Ele é veemente contra a relação amorosa de sua filha
Júlia (Débora Falabella) com Evilásio (Lázaro Ramos), negro, pobre e mo-
rador de favela. Grávida, ela é expulsa de casa pelo pai e vai viver na
Portelinha. Gioconda (Marília Pêra), esposa de Barretão, é apresentada
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como uma perua que vive a base de calmantes e rende boas risadas em
situações como quando vai à Portelinha usando vestidos caros para visi-
tar a filha e o neto. Aos poucos muda de posição, deixa de ser a esposa
submissa para aquela que dá voz as criticas à violência do Rio de Janeiro.
A aristocrática personagem Gioconda (Marília Pêra) anda à noite
pela beira do mar em área nobre do Rio de Janeiro, coberta de jóias, e
sofre um assalto. Começa a gritar Chega... e esse grito ecoa pela cidade.
Alusão direta ao Movimento Cansei 21 que contou com a participação de
celebridades televisivas. É esta personagem que é eleita senadora.
Duas Caras dramatiza a disputa do poder econômico e político na
favela Portelinha e nas empresas de um rico