Capítulo 8 - Dispepsia e Helicobacter Pilory
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Capítulo 8 - Dispepsia e Helicobacter Pilory


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monstraram que pacientes com dispepsia funcional podem
apresentar alterações da atividade mioelétrica gástrica, redu-
ção da contratilidade do antro, incoordenação antro-piloro-
duodenal e anormalidades da atividade motora duodenoje-
junal. Essas alterações resultam em retardo do esvaziamento
Medcel
- -
DISPEPSIA E HELlCOBACTER PYLORI
gástrico, presente em 30% dos casos de dispepsia funcional
em um estudo recente e em cerca de metade dos pacientes
em estudos mais antigos.
A diminuição da capacidade de acomodação do estôma-
go também tem sido demonstrada de modo consistente em
pacientes com dispepsia funcional, sobretudo naqueles em
que predominam a saciedade precoce e o desconforto epi-
gástrico pós-prandial. Estudos demonstram que, em 40% dos
pacientes, ocorrem alterações da acomodação gástrica, com
melhora dessa acomodação e do sintoma de saciedade pre-
coce com o uso do sumatriptano.
Embora a complacência gástrica não esteja particular-
mente alterada quando os pacientes são estudados em je-
jum, após refeições, muitos são incapazes de conseguir um
relaxamento significativo da porção proximal do estômago,
que é a principal porção envolvida em efetuar a acomodação
do alimento ingerido. Nesses casos, o alimento fica acomo-
dado principalmente nas porções distais do estômago, com
distensão acentuada de suas paredes, estimulando 2 recep-
tores específicos no fundo gástrico: os receptores de pressão
e os sensíveis à distensão. Essas alterações são variáveis para
cada indivíduo, mas justificam os sintomas. Um grande nú-
mero de pacientes apresenta melhora com o uso de medica-
ções pro-cinéticas, sugerindo que esses mecanismos de fato
têm um papel importante na fisiopatologia dessa síndrome.
Alterações de motilidade parecem ainda estar associadas à
síndrome do cólon irritável.
B - Hipersensibilidade visceral
A diminuição do limiar para o aparecimento de dor ou au-
mento de sensibilidade a certos estímulos têm sido demons-
trados em pacientes com dispepsia funcional. Uma das cons-
tatações é que os dispépticos funcionais podem apresentar
sintomas desencadeados pela distensão do estômago com
volumes bem menores do que os que seriam necessários
para causar qualquer tipo de sensação desagradável em pes-
soas sem dispepsia. Com o enchimento isobárico do estôma-
go, ocorrem de 3 a 4 vezes mais sintomas nos pacientes dis-
pépticos. É importante notar que essa anormalidade não está
associada a alterações em testes psicométricos específicos e
parece restringir-se às vias sensoriais viscerais, uma vez que
medidas de tolerância a estímulos aplicados em órgãos de
inervação do tipo somático, como a pele ou a musculatura es-
quelética, não revelam anormalidades. Um estudo mostrou,
ainda, sensibilidade também aumentada à infusão de ácido
no duodeno. Essa anormalidade, por sua vez, é associada à
alteração da rnotilidade duodenal, que resulta em deficiência
da remoção do ácido infundido, o que mantém o estímulo
para a ocorrência de sintomas.
c -Alterações psicológicas
Entre os pacientes com dispepsia funcional, há indicati-
vos de maior prevalência de antecedentes de dificuldades
emocionais na infância ou na adolescência, história prévia de
abuso físico ou sexual e anormalidades como ansiedade, de-
pressão, hipocondria e neuroses. Ao comparar pacientes com
dispepsia funcional e outros com úlcera péptica, verificamos
maior número de eventos estressantes e maior intensidade
de estresse nos dispépticos funcionais. Relaciona-se a dispep-
sia funcional com maiores níveis de ansiedade, depressão e
outras psicopatias. Os pacientes com dispepsia funcional,
apesar da associação com vários transtornos psíquicos, não
parecem apresentar perfil psicológico característico, poden-
do apresentar perfil depressivo, ansioso ou neurótico. Assim,
há grande dificuldade em caracterizar se essas alterações são
causa ou conseqüência da dispepsia. Por outro lado, história
de abuso sexual na infância parece relacionar-se com apare-
cimento de afecções funcionais do trato digestivo.
D - Hipersecreção gástrica
A presença de sintomas, muitas vezes similares aos da do-
ença ulcerosa péptica, levanta a possibilidade de fisiopatolo-
gia semelhante, partícularmente em relação à hipersecreção '
de ácido e à maior ativação de pepsina. Porém, diversos tra-
balhos mostraram que não há correlação entre hipersecre-
ção ácida e dispepsia funcional. Além disso, diferentemente
da úlcera péptica, a maioria dos dispépticos funcionais não
melhora com a supressão ácida. Portanto, embora os sinto-
mas sejam semelhantes, a fisiopatologia é diferente, e, con-
seqüentemente, o tratamento.
E - Infecção pelo Helicobacter py/ori
A associação da bactéria com a doença ulcerosa péptica é
inequívoca, o que levanta a hipótese de sua partícipação na
dispepsia funcional. Devemos acrescentar, ainda, que a infec-
ção pelo H. py/ori está invariavelmente associada a quadros
de gastrite. Vários estudos foram realizados para demonstrar
a associação do H. py/ori com a dispepsia funcional, porém os
resultados ainda são conflitantes. Os estudos que avaliaram
a erradicação da bactéria demonstraram pouco benefício,
mas, ainda assim, o Consenso Americano propõe esse proce-
dimento como terapia. A dificuldade da erradicação deve ser
levada em conta em países subdesenvolvidos. O Consenso
Europeu para manejo e tratamento da úlcera péptica admite
a erradicação em pacientes jovens sem sinais de alarme, em
que a bactéria tenha sido detectada por processos não-inva-
sivos, antes mesmo de realizar endoscopia digestiva, devido
ao potencial de cura de 15 a 30% de dispépticos que são, na
verdade, ulcerosos, associado a um percentual de dispépticos
funcionais que também apresentariam melhora com a erradi-
)ação, evitando outros exames na investigação.
No Brasil, várias dificuldades limitam essa prática: não há,
em nossa saúde pública, disponibilidade fácil dos métodos
não-invasivos de detecção; o custo e a complexidade do trata-
mento são altos; e as cepas da bactéria apresentam alta taxa
de resistência antimicrobiana. O Consenso Brasileiro sobre H.
py/ori não chegou a concordância quanto à realização ou não
de pesquisa da bactéria em pacientes dispépticos, com 40%
dos participantes favoráveis a sua pesquisa e 60% contrários;
quanto à erradicação do H. py/ori na dispepsia funciona" 48%
foram favoráveis e 52% contrários; portanto, um assunto ain-
da de grande controvérsia.
Outro fato importante a ser considerado é que a maior
parte dos pacientes infectados pelo He/icobacter py/ori é
assintomática e, mesmo em países subdesenvolvidos, onde
essa infecção tem maior prevalência, não se observa maior
prevalência de dispepsia. Alguns quadros infecciosos não H.
py/ori na infância têm maior associação com aparecimento de
síndrome dispéptica posteriormente.
F -Irritantes da mucosa gastrintestinal
Tabagismo, álcool, café e condimentos têm relação com
dispepsia. Alguns trabalhos demonstram que o tabagismo
propicia resistência à cicatrização de úlceras e está associa-
do a maior recidiva. Alterações do fluxo sangüíneo mucoso
podem explicar essas observações. O uso de condimentos,
como pimenta, parece apresentar ação similar aos antiinfla-
matórios, com potencial de lesar a mucosa gastrintestinal.
Poucos trabalhos documentaram uma relação causal isolada
entre álcool, fumo, cafeína e dispepsia. Conceitualmente, a
dispepsia associada aos antiinflamatórios é considerada or-
gânica. A 1ª conduta em pacientes com sintomas dispépticos
em uso de tais medicações é a retirada da medicação, antes
de procedimentos diagnósticos ou de outras intervenções te-
rapêuticas (medicamentosas ou não).
5. Quadro clínico
História, exame físico e uso criterioso e apropriado dos
exames complementares levam ao diagnóstico correto da