A cibercultura e seu espelho
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A cibercultura e seu espelho


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Internet. De maneira geral, podemos imaginar esse 
nível como o da \u201cdemocratização pela Internet\u201d4. 
Evidentemente, a não ser em casos extremados de fetichismo, em que a posse do objeto 
é seu próprio valor, a democratização da rede não pode ser reduzida sem ressalvas à simples 
universalização do acesso. O que, na verdade, está sendo democratizado? Sérgio Amadeu da 
Silveira (2003, p. 44), sociólogo e ativista do software livre, resume a opinião corrente sobre o 
tema ao afirmar que \u201csomos uma sociedade tecnodependente. O controle da tecnologia torna-se 
vital e dita as possibilidades de desenvolvimento e de inclusão social\u201d.
Há, portanto, dois elementos que parecem convergir como pano de fundo na noção de 
democratização: 
\u2022 a ideia de \u201cdesenvolvimento\u201d;
\u2022 a distribuição de oportunidades, sob a senha da \u201cinclusão social\u201d; 
A noção de desenvolvimento (e seus conexos, como o \u201cprogresso\u201d), já foi alvo de 
inúmeras críticas, principalmente de autores identificados com a chamada pós-modernidade. 
Não é mais novidade o fato de que a essa noção, gestada e desenvolvida a partir do Iluminismo, 
 4 No desenvolvimento deste artigo, não trabalharemos esse nível. A tarefa, necessária, será empreendida em 
momento posterior, visto implicar a mobilização de outro repertório, oriundo, basicamente, da esfera política. 
Como indicação, uma das principais tendências contemporâneas a relacionar telemática e democracia reside nos 
estudos sobre a \u201cdemocracia deliberativa\u201d (MAIA, 2008).
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nada tem de universal ou neutra, mas, antes, oculta um projeto de europeização (e, depois, de 
americanização). 
Os europeus não apenas entendiam sua cultura como superior às outras, e 
essas outras, estranhas, como inferior a eles. Também achavam que a 
\u201cverdade\u201d da cultura européia é na mesma medida a verdade (e o telos) ainda 
oculta de outras culturas, mas que ainda não chegara a hora de as últimas 
compreenderem isso. (HELLER, 2002, p. 12-13).
Aceitar a noção de desenvolvimento é aceitar o padrão imposto pelo ocidente iluminista, 
uma vez que essa ideia implica uma teleologia própria. O \u201cdesenvolvimento\u201d só pode ocorrer 
tendo em vista um objetivo que se almeja alcançar. O status de \u201cdesenvolvido\u201d implica juízo de 
valor e, no fundo, uma mitologia que justifica as desigualdades, acenando com a possibilidade, 
nunca plenamente realizável, do desenvolvimento (KAPLÚN, 2007, p. 167-173). 
Quanto à distribuição de oportunidades, o ideal ético democrático é convocado para 
equiparar inclusão digital e inclusão social. Porém, as \u201coportunidades\u201d (sociais, econômicas, 
culturais) não são dadas exclusivamente pelo acesso à tecnologia, mas por uma complexa 
articulação de elementos, como o acesso à educação e as condições socioeconômicas, por 
exemplo. Nessa perspectiva, a ideia de democratização da Internet, legitimada por um princípio 
ético de igualdade de oportunidades, mascara diferenças abissais nas condições prévias que 
influenciam largamente o uso concreto que se fará das máquinas. Está em jogo aqui uma forma 
de reificação: a máquina é vista como coisa, objeto \u201cneutro\u201d e puro potencial técnico, sem levar 
em conta o conjunto das relações sociais em que o computador se insere e que, em grande 
medida, criam as possibilidades reais de apropriação. Mesmo um entusiasta da \u201csociedade em 
rede\u201d como Manuel Castells (2003, p. 203) não pode evitar se fazer algumas questões 
incômodas: 
É realmente verdade que pessoas e países tornam-se excluídos por estarem 
desconectados de redes baseadas na Internet? Ou, ao contrário, é por estarem 
conectados que se tornam dependentes de economias e culturas, numa relação 
em que têm pouca chance de encontrar seu próprio caminho de bem-estar 
material e identidade cultural? Sob que condições, e para que objetivos, a 
inclusão/exclusão em/de redes baseadas na Internet se traduz em melhores 
oportunidades ou em maior desigualdade? E quais são os fatores subjacentes 
ao rito diferencial do acesso à Internet e à diversidade de seus usos?
VI \u2013 CONCLUSÕES
Podemos voltar agora à noção de \u201csignificante vazio\u201d. Um olhar mais atento ao 
conteúdo do que se tem chamado de \u201cdemocratização da Internet\u201d revela o esvaziamento 
operado no ideal ético democrático, reduzindo-o a uma dimensão técnica (implícita na ênfase à 
\u201cdistribuição de oportunidades\u201d) e a serviço de uma noção hegemônica de \u201cdesenvolvimento\u201d. 
Em ambos os casos, o que se percebe é o avesso da democracia: os discursos e práticas de 
\u201cdemocratização\u201d ocultariam um caráter fortemente conservador e autoritário. Conservador 
porque tomam como \u201cnatural\u201d e \u201cnecessário\u201d o conjunto de valores típicos das sociedades 
capitalistas contemporâneas; e autoritário porque constroem esses mesmos valores como 
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verdade paradigmática, excluindo qualquer alternativa que não seja a integração ao mundo da 
cibercultura. 
Qualquer prática política que tome como inspiração o ideal ético democrático tem 
razões suficientes para suspeitar que a noção de democracia, no contexto da comunicação 
digital, nada mais é que um discurso publicitário, uma forma de legitimar a cibercultura e criar 
um consenso social sobre suas supostas benesses universais. 
O fato de amplos setores considerados contra-hegemônicos, como as organizações 
reunidas em torno do Fórum Social Mundial, reiterarem essa perspectiva da democracia apenas 
atesta a profundidade do fechamento discursivo realizado. Antes de ser motivo de celebração, a 
ideia de \u201cdemocratização da Internet\u201d deveria ser objeto de crítica por parte das instituições que 
realmente prezam a democracia.
Referências
CASTELLS, Manuel. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a 
sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
CAZELOTO, Edilson. A ideia de democracia nas políticas de disseminação da Internet: 
uma análise do \u201cLivro Verde da Sociedade da Informação no Brasil\u201d. Dissertação (Mestrado 
em Comunicação e Semiótica). Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e 
Semiótica, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2003.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 2000.
HELLER, Agnes; FEHÉR, Ferenc. A condição política pós-moderna. Rio de Janeiro: 
Civilização Brasileira, 2002. 
KAPLÚN, Gabriel. Entre mitos e desejos: desconstruir e reconstruir o desenvolvimento, a 
sociedade civil e a comunicação comunitária. In: PAIVA, Raquel (Org.). O retorno da 
comunidade: os novos caminhos do social. Rio de Janeiro: Mauad X, 2007. 
LACLAU, Ernesto. Emancipación y diferencia. Buenos Aires: Ariel, 1996.
LÉVY, Pierre. Ciberdémocratie: essai de philosophie politique. Paris: Odile Jacob, 2002.
LIJPHART, Arend. Modelos de democracia: desempenho e padrões de governo em 36 países. 
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. 
MAIA, Rousiley C. M. (Coord.). Mídia e deliberação. Rio de Janeiro: FGV, 2008.
SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. Inclusão digital, software livre e globalização contra-
hegemônica. In: ------; CASSINO, João. Software livre e inclusão digital. São Paulo: Conrad, 
2003.
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PARTE II
NOVOS SABERES E VIVÊNCIAS
NA CULTURA PÓS-MASSIVA
CIBERCULTURA COMO 
TERRITÓRIO RECOMBINANTE1 
André Lemos
I \u2013 AVANT PROPOS
Para melhor compreensão da forma como opera hoje a recombinação dos diversos ele-
mentos em jogo na cultura contemporânea \u2013 que alguns vão chamar de sociedade da informa-
ção, sociedade pós-industrial, cibercultura ou sociedade do conhecimento \u2013, estabelecerei três 
princípios básicos, ou três leis dessa sociedade da informação, principalmente em relação às 
práticas culturais que serão retomadas no fim dessa conferência. Esses três princípios norteado-
res permitem, de forma geral, compreender a emergência