A cibercultura e seu espelho
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A cibercultura e seu espelho


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época, passou a remeter as cores 
exclusivamente à fisiologia do corpo humano.
A partir do momento em que a visão passa a ser ancorada na corporeidade, o próprio 
objeto do conhecimento e da percepção (o \u201cmundo\u201d) perde seu caráter assegurado, previamente 
dado, e novos fenômenos \u2013 pós-imagem, persistência retiniana, paralaxe, disparidade binocular 
\u2013 passam a ser considerados como mediações incontornáveis em todo perceber. Nessa 
condição, esses fenômenos se tornam objeto de intensa investigação no âmbito das novas 
ciências em expansão entre as décadas de 20 e 40 do século XIX (fisiologia óptica e 
psicofisiologia). Posteriormente, são investigados nas experiências laboratoriais da psicologia 
científica \u2013 com Wundt, por exemplo, que funda um laboratório em Leipzig em 1879 \u2013 e ainda 
na neurologia nascente, já no limiar do século XX, com Charles Sherrington.
O processo de modernização da percepção corresponde a um segundo movimento da 
Modernidade, tal como proposto por Hans Ulrich Gumbrecht (1998). Esse segundo movimento 
é caracterizado por um observador de segundo grau, que volta sua observação sobre si próprio, 
sobre o corpo e sua surpreendente e complexa fisiologia.
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Ora, segundo Crary, foi no âmbito dessa ampla mutação de cunho epistemológico que se 
desenvolveram novos dispositivos ópticos, que migraram dos laboratórios tanto para as feiras 
populares quanto para as casas burguesas (taumatrópios, estereoscópios etc). Esses dispositivos 
e brinquedos ópticos foram rapidamente inseridos na nascente cultura do espetáculo e 
vinculados a um novo regime de atenção, funcionando em um continuum com formas variadas 
de desatenção, devaneio, transe e sonambulismo.
O processo de modernização remete a uma percepção inexoravelmente atrelada à 
dinâmica de um corpo em movimento. A imagem passa a ser produto de um corpo vivo, com 
seu modo de funcionamento específico e facilmente afetável. Para Goethe e para os cientistas 
mais influentes do século XIX \u2013 como Johannes Müller e o já mencionado Helmholtz \u2013, pós-
imagens e cores fisiológicas podem ser produzidas por socos em um olho ou pela ingestão de 
substâncias alucinógenas. Como mostram claramente as experimentações em torno da pós-
imagem ou da imagem entóptica, aquilo que se vê pode ser desrreferencializado com relação a 
algo realmente existente fora do sujeito. O visível pode estar única e exclusivamente vinculado 
a um corpo afetado por estímulos internos ou externos.
Da transparência de um olho que capta um mundo externo prévio, do olho transparente 
\u2013 olho-lente \u2013 passa-se, no novo regime, a um olho apto a produzir imagens, reagindo orgânica 
e temporalmente a determinados estímulos internos ou externos. Assim, no século XIX, a 
ênfase na espacialidade claramente expressa no exemplo clássico da cegueira se esvazia, em 
favor do vetor da temporalidade. Não em função de um suposto avanço das ciências, mas por 
conta de uma alteração radical dos modelos de percepção e de conhecimento, no contexto de 
profundas transformações históricas. O fenômeno da persistência retiniana torna-se então objeto 
de numerosos estudos e experiências, com vistas à sua quantificação e controle. Essas 
experiências e novos saberes contribuíram para adequar os corpos modernos a novos regimes 
perceptivos, vinculados à mecanização crescente da produção e à lógica do consumo. Cabe 
lembrar que a duração das imagens na retina e o aspecto necessariamente cinético da percepção 
são elementos inerentes à invenção de uma das mais bem sucedidas tecnologias de produção de 
imagens surgida no final do século XIX: o cinema. 
Quando a percepção passa a ser remetida a um organismo vivo, com sua fisiologia 
específica, torna-se inevitavelmente defectível, variável e \u2013 sobretudo \u2013 duracional. Ou seja: a 
modernização da percepção, caracterizada por uma incorporação (no sentido literal) da visão, 
parece ter tornado científica e filosoficamente incontornável repensar a temporalidade. 
Apreender imagens, perceber, conhecer passam a ser encarados como processos dinâmicos, que 
duram, instalando-se em uma temporalidade que se escoa ininterruptamente. Intervém assim 
necessariamente na percepção o aspecto dinâmico, processual. Desse modo, como mostrou 
Bergson no livro Matéria e memória (1896), percepção e memória passam a se entrelaçar.
Ao longo do século XIX, portanto, mutações históricas favoreceram a alteração do 
sujeito da percepção e do conhecimento, com amplas implicações na ordem dos saberes e da 
própria experiência corporal. A intensificação de estímulos sensoriais, atrelada a uma crescente 
imersão tecnológica, ameaçava transformar o homem moderno ocidental em um simples 
autômato e em um sonâmbulo social. Como salientou Jonathan Crary (2000), certos teóricos do 
final do século XIX equipararam as novas formas de industrialização da contemplação a 
estados relativos de hipnose e de sonambulismo.4 Como se sabe, a hipnose era então 
amplamente utilizada em experimentos científicos, em práticas terapêuticas (por Charcot e 
Janet, por exemplo) e ainda não ficara relegada ao charlatanismo dos music hall. Crary enfatiza 
de que modo a extensão desses estados hipnóticos mais ou menos intensos a toda a vida social 
frequentava as preocupações da sociologia nascente, em especial as reflexões de Gabriel Tarde 
 4 Acerca da hipnose, em um recorte historicizante e crítico, cf. Chertok e Stengers (1990).
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e de Gustave Le Bon. Ambos os autores foram eclipsados, ao longo de várias décadas, em favor 
da sociologia prevalecente, de base durkheimeana. Eis o que ressalta Crary:
Tarde equacionou, decididamente, existência social e sonambulismo, ou 
seja, um estado caracterizado por uma elevada receptividade à sugestão. 
Le Bon e outros ressaltaram aspectos hipnóticos da vida das multidões, 
mas Tarde foi mais longe: \u201cNão devo parecer fantasioso ao pensar o 
homem social como um verdadeiro sonâmbulo... O estado social, como 
o hipnótico, é apenas uma forma de sonho\u201d. (CRARY, 2000, p. 242).
O pintor norueguês Edvard Munch também nos legou imagens inquietantes desse grito 
oco e mudo, sem rosto, misto de desespero e de sonambulismo em que, em sua visão, os ho-
mens modernos estavam se transformando. O progressivo declínio da prática e do tema da hip-
nose ao longo do século XX pode, entretanto, nada ter de assegurador. Talvez apenas exprima o 
grau de naturalização dessas formas mais ou menos intensas de sonambulismo e de hipnose que 
permeiam hábitos da vida contemporânea. Afinal, a absorção no ciberespaço, diante das telas 
luminosas dos computadores, produz em geral efeitos evidentes de anestesia com relação a sons 
e a contatos com o ambiente, bem como um esquecimento do estado do próprio corpo, da colu-
na vertebral, do pescoço, das mãos. Ao mesmo tempo, propicia intensas experiências de imer-
são sensorial, convocando não apenas a visão e a audição, mas o próprio tato, uma tangibilidade 
ubíqua do mundo ambiente. O recuo ao século XIX nos permite repensar certos temas recalca-
dos, além de suscitar novas questões. Por exemplo, o vínculo entre imersão tecnológica e novas 
formas de sonambulismo e hipnose, pesquisa que resta a se fazer. 
 
 
Referências 
BERGSON, Henri. Mémoire et vie: textes choisis. Paris: PUF, 1975.
CHERTOK, Léon; STENGERS, Isabelle. O coração e a razão: a hipnose de Lavoisier a La-
can. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.
CRARY, Jonathan. Suspensions of perception: attention, spectacle and modern culture. 
Massachusetts: MIT Press, 2000.
_______. Techniques of observer: on vision and modernity in the XIXth century. 
Massachusetts: MIT Press, 1992.
_______. A visão que se desprende: Manet e o observador atento no fim do século XIX. In: