A cibercultura e seu espelho
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A cibercultura e seu espelho


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O ESPAÇO LÍQUIDO* 
 
Lucrécia D\u2019Alessio Ferrara
I \u2013 O TEMPO E O ESPAÇO
Os conceitos de tempo e de espaço foram estudados por distintas correntes filosóficas 
desde a antiguidade pré-socrática, entretanto os comentadores do tema são unânimes em 
afirmar que é impossível reconhecer uma concepção unificada (FERRATER MORA, 2001, p. 
685), mas enfatizam que tais conceitos ocupam posição central na construção do conhecimento 
ocidental.
Os conceitos de tempo e de espaço surgem intimamente relacionados, não só pelo papel 
que desempenham em relação ao conhecimento, mas por uma questão de natureza 
eminentemente epistemológica. Ou seja, dependendo do modo como conceituamos espaço e 
tempo, temos distintas características cognitivas. Se considerarmos espaço e tempo tomados em 
si mesmos, evidenciamos serem eles atingidos por inabalável lógica de identidade de raiz 
aristotélica; se os considerarmos em suas dimensões funcionais, é necessário perceber, entre 
ambos, um vínculo relacional, como postula a física da relatividade de Einstein.
Porém, ao lado dessa identidade absoluta ou dessa funcionalidade relacional que poderia 
unificar duas concepções, é possível estudar esses conceitos em relação às propriedades que os 
identificam e distinguem e, sobretudo, que os representam social e comunicativamente, 
qualificando-os como signos e linguagens que atendem às especificidades daquela 
representação. No desenho dessas propriedades, o tempo e o espaço são apreensíveis através 
das suas estratégias representativas e semióticas e das respectivas lógicas da comunicação que 
anunciam. Espaço e tempo são, como representação, espacialidades e temporalidades distintas e 
diferenciam os dois fenômenos no curso de uma experiência cognitiva e comunicativa.
A percepção de temporalidades e espacialidades corresponde a dimensões cognitivas de 
síntese que, se não nos leva a definir a natureza essencial do tempo e do espaço, nos permite 
precisar o desenho de temporalidades e de espacialidades na discriminação da experiência e no 
modo pelo qual, como signos, são representados e substituem unidades fenomênicas. 
Temporalidades e espacialidades correspondem às manifestações do tempo e do espaço como 
linguagens que os tornam perceptíveis no plano da cultura.
II \u2013 O ESPAÇO DO TEMPO HISTÓRICO
No âmbito científico da História, a Escola dos Anais (1929) colocou em evidência o 
conceito de tempo histórico e, ao transformá-lo em elemento chave para definir sua 
 * Uma versão ampliada deste ensaio foi publicada pela autora em Comunicação, espaço, cultura, lançado pela 
Editora Annablume em 2008.
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compreensão do registro do percurso histórico, produziu, ao mesmo tempo, uma síntese 
elucidante.
Nessa nova história, opõe-se uma \u201cespacialização horizontal do tempo\u201d a uma 
\u201cespacialização vertical através do tempo\u201d (ARIÉS, 1979, p. 234). Substitui-se uma ciência 
positivista por outra, sensível às diferenças dos lugares e capaz de apreender a história que a 
ciência pode construir através do tempo. Nessas diferenças, apreendem-se espacialidades para, 
através delas, flagrar temporalidades que, em fluxo, não poderiam caber na simples dimensão 
dos fatos, mas exigiam outro tempo de longa duração.
Esses deslocamentos parecem irrelevantes, mas podem nos revelar importantes aspectos 
da relação que se estabelece entre o tempo e o espaço na cultura contemporânea. A longa 
duração ou \u201chistória quase imóvel\u201d ou \u201clentamente ritmada\u201d (BURKE, 1991, p. 131) que 
caracteriza a história das mentalidades parece imobilizar o tempo ao desenvolver uma espécie 
de arqueologia das tendências culturais que parecem negar a evolução do tempo. Ou seja, essa 
permanência de traços culturais que conservam as marcas de suas ancestralidades faz do tempo 
um macro-espaço onde se \u201clugarizam\u201d os sentidos da cultura.
 Apreender essas \u201clugarizações\u201d do tempo no espaço nos leva a retomar a famosíssima 
tese de Einstein, na Teoria da Relatividade, em que propõe a fusão do tempo com o espaço ou 
uma espacialização do tempo em um universo em expansão (cf. HAWKING, 1989, p. 35-60). 
Porém, mais do que entrar no emaranhado território das hipóteses e teorias da física, interessa-
nos perceber que as representações do tempo e do espaço na dinâmica da cultura são capazes de 
se organizarem em temporalidades e em espacialidades intercomunicantes, ainda que a própria 
história nos fale mais das primeiras do que das segundas. Essa primazia repete a hegemonia 
clássica do tempo sobre o espaço que, por sua vez, confirma a característica do conhecimento 
tradicional quando, centrado durante séculos sobre a razão idealista lógica ou transcendental, 
faz do sujeito o eixo do conhecimento. Percorrer não apenas as relações entre o tempo e o 
espaço, mas as características do espaço no tempo, leva a entender o modo como a cultura 
ocidental se nutre de espacialidades e a perceber como elas interferem nos distintos processos 
comunicativos que vão das mensagens às mediações. Estabelece-se entre o tempo e o espaço 
um diálogo que faz com que o tempo se espelhe no espaço e nele construa sua materialidade 
sígnica.
III \u2013 O TEMPO E A CRONOTOPIA
No diálogo entre o tempo e o espaço, é construída a dinâmica que caracteriza a história 
da cultura e o modo como os homens nela se articulam. Entretanto, essa dinâmica supõe 
indeterminação, pluralidade e, sobretudo, instabilidade que constituem desafios 
epistemológicos a serem enfrentados. Essa é a operação que está no eixo de conceitos vitais 
para a ciência desenvolvida nos séculos XX e XXI. Como resposta possível a esse desafio, 
Bakhtin criou os conceitos de polifonia e diálogo que recuperam a longa duração na construção 
de mentalidades e no espaço de manifestações da cultura.
Ao lado daqueles conceitos que procuravam criar condições de estudo dos enunciados 
no nível da oralidade, o mesmo estudioso formulou outro conceito vital que, embora 
inicialmente tenha sido aplicado no âmbito dos estudos literários, o próprio Bakhtin aponta sua 
vitalidade no estudo de várias manifestações culturais: trata-se do conceito de cronotopo que 
Todorov valoriza e realça, apontando suas possíveis inferências:
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1. o cronotopo aponta as construções do tempo e do espaço e constitui 
uma modelização da cultura;
2. o cronotopo é um conceito que tem sua pragmática científica voltada 
para a necessidade de controlar ou sintetizar a multiplicidade de manifestações dos 
enunciados encontrando pontos