A cibercultura e seu espelho
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A cibercultura e seu espelho


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de contacto e semelhança que permitem criar um subs-
trato comum reconhecível;
3. esta modelização permite controlar a multiplicidade das manifestações 
culturais e corresponde a uma operação eminentemente científica, tendo em vista a legi-
bilidade daquelas manifestações.
Considerando a legitimidade dessas inferências e a partir delas, cabe perguntar: que 
relação se estabelece entre tempo e espaço como constituintes de um cronotopo? Ou seja, a 
questão não está em saber como tempo e espaço se manifestam individualmente mas, de que 
modo se relacionam como unidade espaço/tempo.
A história dos eventos volta-se para o registro dos signos que permitem ler como a 
cultura é o lugar onde o tempo se diversifica ou como o espaço é sensível aos movimentos do 
tempo e se deixa marcar por eles. Ou seja, para aquela história, o tempo marca o espaço 
temporalizando-o e tornando-o histórico, preenchido pelas marcas que escrevem a história da 
cultura. Hegemônico, o tempo estabiliza o espaço através das marcas que são suas testemunhas 
e o apresentam como escritura. A história desse tempo se escreve através de eventos, 
personagens, monumentos, emblemas que se estruturam no âmbito do particular, do restrito 
solidamente situado. Esse espaço é, sobretudo, marcado pelo tempo em suas lembranças, como 
dados estanques definitivamente inscritos no passado. Nesse caso, essas marcas do tempo são 
dados e se apresentam, comunicativamente, como mensagens compactadas e livremente 
repassadas do tempo para o espaço, da história para a cultura, entendida como estrutura linear e 
simplificada. Talvez, nesse sentido, o próprio conceito de cronotopo esteja superdimensionado 
em sua possibilidade epistemológica, porque esse espaço dominado pelo tempo reedita as 
clássicas dicotomias constituídas pelo sujeito e pelo objeto. Entretanto, esse poder é tão 
exclusivo e incontestável que o próprio tempo não se impõe como questão científica, senão na 
modernidade, e constitui sua característica, como visão de mundo:
A história do tempo começou com a modernidade. De fato, a modernidade é, 
talvez, mais do que qualquer outra coisa, a história do tempo: a modernidade é 
o tempo em que o tempo tem uma história. (BAUMAN, 2001, p. 128-129).
IV \u2013 O ESPAÇO E TOPOCRONIA
Porém, se a consciência científica do tempo sobre o espaço é obra da modernidade, ela 
acompanha as aventuras desse momento histórico quando se subdivide ou se dilacera entre a 
utopia modernista e as negações pós-modernas na constituição de uma modernidade de longa 
duração e resistente ao desgaste da história dos eventos. 
No século XIX, confrontam-se o espaço e o tempo, porque esse conflito é evidenciado 
pelo desenvolvimento tecnológico que inaugura o mundo moderno, dominado, inicialmente, 
pela Revolução Industrial Mecânica e, depois, pela eletrônica. Observa-se a caracterização de 
distintas espacialidades e diferentes relações entre o espaço e o tempo. Na realidade, aquelas 
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revoluções não foram apenas \u201cindustriais\u201d; provocaram alterações profundas nos campos 
social, cultural e econômico. 
A Revolução Industrial Mecânica foi também uma revolução dos transportes que teve 
nas ferrovias, nas locomotivas e nos navios suas principais conquistas. Essa temática tem sido 
exaustivamente estudada por economistas e sociólogos, tendo em vista a sua importância para a 
compreensão do mundo moderno, e da relação que começou a se estabelecer entre tecnologia e 
cultura, relação decisiva para a análise do contemporâneo.
Com o desenvolvimento dos meios de transporte, o deslocamento surge como questão 
que cria uma nova concepção de espaço, muito distante daquele uniforme e controlado que 
caracterizava a perspectiva linear renascentista, e daquele espaço centralizado, controlado 
ideologicamente pelos interesses comerciais que se expandiam da Europa para além-mar.
No mundo moderno, o deslocamento permitiu que a distância se tornasse relativa e 
impusesse à percepção a realidade de outros espaços que, com a crescente facilidade de acesso, 
multiplicavam-se, ampliavam-se e exigiam que o tempo, antes dominado mecanicamente pela 
medida cronológica do relógio, se reduzisse, fazendo com que o passado se distanciasse cada 
vez menos e aproximasse do futuro. Com a redução da distância, o deslocamento fez com que o 
tempo se metaforizasse no número e na rapidez dos deslocamentos. O tempo se multiplicava e 
se ultrapassava no espaço que, em deslocamento, se apresentava como seu ideal. Surgia a 
tentativa de criar um espaço universal, homogêneo e sem limites culturais. O sonho desse 
amplo território assinalou a utopia modernista.
Entretanto, ao dar dimensão concreta à distância, o deslocamento permitiu a criação de 
um espaço fluido, dominado pelas técnicas e equipamentos que o propiciavam: ferrovias, 
avenidas, auto-estradas, rotas, trens, automóveis, navios. Ora, esses equipamentos são escrituras 
situadas historicamente e marcos técnicos do espaço para medir e reduzir o tempo. São 
equipamentos do espaço no tempo, uma topocronia. Ou seja, é possível identificar o tempo 
moderno pelas técnicas que assinalam a construção do seu espaço fluido, em deslocamento. 
Porém, a duração desse tempo exige que à caracterização entre pontos, territórios, continentes 
e cidades seja adicionada a contabilidade do tempo que se marca pela velocidade com que se 
percorre a distância. Ao deslocamento e à distância que marcam a diferença entre espaços, se 
acrescenta a velocidade da distância percorrida entre pontos em deslocamento, ou seja, o tempo 
com que se elimina a distância. Esse tempo medido estabelece uma cronologia do espaço ou um 
espaço do tempo, outra característica da topocronia.
Reduzindo-se o tempo, vemos ampliar-se o espaço para percorrer a distância entre 
pontos. Porém, enquanto a técnica domina o espaço \u201centre\u201d, perde-se a possibilidade de 
mediação do tempo sintetizado pela norma da medida cronométrica que, em linearidade, 
percorre o passado para atingir o futuro. Um tempo medido pelo fluxo de dias ou horas, 
minutos ou segundos, meses ou anos ou décadas.
A velocidade parece transformar o tempo em espaço ou a velocidade faz do passado um 
futuro ou faz da distância o resultado do deslocamento: percorrer uma distância de 200 km a 60 
ou 20 km por hora nos faz perceber, de maneira distinta, a distância em deslocamento. Essa 
topocronia é resultado das técnicas da velocidade que caracterizam a Revolução Industrial 
Mecânica e marcaram definitivamente o mundo moderno. Estamos no domínio da dromosfera 
de Paul Virilio:
Para Einstein o presente é já o centro do tempo. Para ele, o passado do Big-
Bang original não é, não pode ser cientificamente esse centro antigo. O centro 
verdadeiro é sempre novo, o centro é perpétuo, ou mais exatamente ainda, o 
\u201cpresente\u201d é um ETERNO PRESENTE. Aos três tempos da sucessão 
(cronológica), passado, presente, futuro, Einstein substitui um tempo de 
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exposição (cronoscópico ou dromoscópico) subexposto, exposto, 
sobreexposto. (VIRILIO, 2000, p. 178-179; grifos do autor).
Assim como a produção em séries lineares desestabilizava o fazer, pois o reduzia ao 
momento de cada etapa produtiva, a velocidade permitiu superar a percepção da distância entre 
dois pontos e banalizou não só o deslocamento, mas a percepção do tempo, que só se fazia 
notar através da diferença da paisagem entre os espaços atingidos. A síntese perceptiva se fazia 
não mais pelo tempo, mas pelo espaço que escrevia a metalinguagem que marca o fim da 
história comandada pelo tempo dos eventos, para fazer emergir uma história comandada pelo 
espaço. Porém, essa nova história surge como perversidade que demarca o fim de um modo de 
viver