A cibercultura e seu espelho
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A cibercultura e seu espelho


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estabelecidos; também já não é instrumento fácil nas mãos de 
um poder político ou econômico que administra vontades e repertórios de um receptor passivo 
na adoção de interesses desconhecidos e longínquos. A massa se dissolve como objeto de 
manipulação, o público torna-se tão grande e diversificado que já não se sabe o que comunicar, 
porque não se conhece o receptor e, muito menos, o modo certo de atingi-lo. A comunicação já 
não é instrumento da ação no espaço social. A aceleração desestabiliza todos os programas e 
essa realidade impõe outros projetos incertos, vacilantes e submissos a constantes revisões. 
Temos um novo receptor que é, ao mesmo tempo, produtivo, reprodutivo e comunicativo. 
Misturam-se o tempo e o espaço, o emissor e o receptor, o consumo passivo e a crítica seletiva, 
cria-se um ambiente comunicativo que inaugura o \u201cbios-midiático\u201d (SODRÉ, 2002, p. 21) e 
manifesta outra modalidade topológica.
Nesse novo cotidiano, o receptor está envolvido em um plano de subsistência cotidiana 
que, de um lado, o desafia para conseguir melhores condições de vida que dependem de seu 
desempenho diário e de sua adaptação a condições possíveis em megalópoles; e, de outro lado, 
o expõe à produção acelerada de bens, que exaurem o consumo. Se a quantidade da oferta 
impõe uma recepção seletiva é, também, instável e volúvel. A demanda de bens se acelera e 
impõe, em ritmo semelhante, a renovação da oferta. 
A própria aceleração tecnológica cria outro receptor, ativo, agitado, cada vez mais 
conectado e produtor de novos valores, sentidos e comportamentos. A cidade é o laboratório da 
espacialidade comunicativa, ou seja, já não é planejada ou organizada, mas simplesmente é o 
resultado de urbanizações insólitas. A cidade simplesmente surge, expande-se e auto-organiza-
se tirando todo o proveito da experiência acumulada, à semelhança de uma retroalimentação 
que ensina a resolver o cotidiano, inaugurando outra subjetividade e outro sentido para o 
coletivo:
[...] a subjetividade é produzida através da cooperação e da comunicação, e por 
sua vez esta subjetividade produzida vem a produzir novas formas de 
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cooperação e comunicação, que por sua vez produzem nova subjetividade e 
assim por diante. Nessa espiral, cada momento sucessivo da produção da 
subjetividade para a produção do comum é uma inovação que resulta numa 
realidade mais rica. Talvez devamos identificar nesse processo de metamorfose 
e constituição a formação do corpo da multidão [...]. (HARDT; NEGRI, 2005, p. 
247-248).
Não admira que essa fragmentação seja desconfortante ameaça às soberanias políticas, 
econômicas, ideológicas e científicas: agora, tempo e espaço se sobrepõem, o presente está 
aqui, todos os lugares se confrontam mundialmente e o tempo e o espaço exigem ser vividos de 
modo acelerado.
Transformam-se o tempo, o espaço e o mundo do vivido que asseguravam o comunicar 
pré-ciber. Não há tempo para programas, porque o espaço é líquido e a informação não se 
oferece como produto acabado, mas exige ser produzida de modo sempre novo. O tempo se 
concentra no presente e todos os territórios parecem ser equivalentes em todos os lugares, se for 
mantida a insistência em compará-los com os lugares do passado recente do mundo em 
deslocamento e velocidade. 
Nessa nova topologia, a memória se mobiliza no presente e, como decorrência, não se 
desloca, mas exige mudança como dado básico para aquele corpo que percebe um tempo-
espaço em mediação esvaziado de passado à procura de identidade, conservação e 
desenvolvimento. Atuada no presente, essa memória já pertence ao espaço que se constrói em 
mediação colaborativa em todos os cantos do planeta. A rede mundial de computadores é o 
instrumento dessa memória/presente, porém não é senão um meio para uma memória agenciada 
pelo mundo de experiências do sujeito, a quem cabe construir outro lugar territorial, heterodoxo 
e topomidiático como comunicação de um tempo instantâneo. Desse modo, o espaço se 
manifesta no lugar em que se dá a informação, inaugurando uma geografia até então 
desconhecida. É a nova geografia montada pela diferença que se impõe como realidade cultural 
mundial e inelutável.
Nessa diferença, a emergência do lugar ocorre de modo inconstante e irregular. 
Patrocinada pela técnica, a informação em rede atinge os territórios do planeta e sua irradiação 
comunicativa carrega diferentes idades porque, construída pela memória, exige o intercâmbio 
com outros tempos e espaços que deixaram marcas em todos os lugares. É nesse ritmo 
impreciso que a heteromídia não programada constrói um espaço heterodoxo, rugoso na 
acumulação desigual dos seus tempos (SANTOS, 1996, p. 35), e que, embora sem alicerce, 
resiste, mas desconstrói as bases da opinião nas quais se apoiavam valores e reações do senso 
comum construídos no tempo passado. 
Os indivíduos, as sociedades, os valores, as crenças e os cotidianos são díspares e é 
nesse conflito que se situa o novo sujeito de uma epistemologia pós-moderna, conforme a 
denomina Boaventura de Sousa Santos (2002). Em oposição ao sujeito recolhido em um 
conhecimento subjetivo e transcendental, esse novo sujeito se expande individual, coletiva e 
socialmente ao ser o agente dessa topomídia que nos obriga a rever a dicotomia sujeito-objeto, 
que se apoiava na razão que estruturou o conhecimento ocidental até meados dos anos 80 do 
século XX.
Este é o lugar científico e técnico dessa comunicação às avessas que, ao definir o lugar 
contemporâneo, se apresenta como mediação, mas se dissolve em opacos itinerários que não se 
deixam definir ou localizar, embora teçam a estranha geografia da cidade mundial conectada 
digitalmente. Esse espaço-lugar-mundial é criado por um cidadão do mundo. Entretanto, esse 
espaço não é público como aquele de decisão comunicativa ou de formação e consolidação da 
opinião social esclarecida que domina a cultura modernista. Ao contrário, ele é coletivo porque, 
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além de espaço, é midiático, construindo interativamente e em eterno presente uma nova 
geografia global feita de semelhanças e diferenças entre os lugares do mundo. 
Referências
ARIÉS, Philippe. O tempo da história. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1989.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
BURKE, Peter. A Escola dos Annales. São Paulo: Edunesp, 1991.
ECO, Umberto. I limiti dell\u2019interpetazione. Milão: Bompiani, 1990.
FERRATER MORA, José. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Multidão: guerra e democracia na era do império. Rio de 
Janeiro: Record, 2005.
HAWKING, Stephen. Uma breve história do tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 1989. 
SANTOS, Boaventura de Sousa. Introdução a uma ciência pós-moderna. Porto: 
Afrontamento, 2002.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: Hucitec, 1996.
SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho. Petrópolis: Vozes, 2002.
TODOROV, Tzvetan. Mikhaïl Bakhtine: le principe dialogique. Paris: Seuil, 1981.
VATTIMO, Gianni. Para além da interpretação. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1999.
VIRÍLIO, Paul. A velocidade da libertação. Lisboa: Relógio d\u2019Água, 2000. 
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OS ESPAÇOS PERCEPTIVOS
NOS QUAIS INTERAGIMOS
Yara Rondon Guasque Araujo
Os conceitos de realidade virtual \u2013 como quando o observador se sente em um mundo 
ficcional gerado artificialmente \u2013 e de telepresença \u2013 como quando o observador se sente em 
um espaço real gerado pelo ambiente natural \u2013 expõem a fragilidade das definições de real e de 
virtual (ARAUJO, 2005).
A discussão teórica sobre presença, como mostram Giuseppe Mantovani e Giuseppe 
Riva (2001), bifurca-se entre os aderentes das correntes