A cibercultura e seu espelho
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A cibercultura e seu espelho


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situação delicada, pois nos obriga a especulações mais sutis sobre a correlação e a 
consciência de sermos iludidos sensorialmente e agirmos no mundo físico, apesar das 
diferenças de resistência dos meios virtual e concreto. Mas é impróprio afirmarmos que, nessas 
situações, nosso cérebro ajusta a percepção sensório-motora do movimento como que 
computando e processando as informações externas que são modificadas constantemente a cada 
movimento corporal, informações que funcionariam como agentes perturbadores externos. Na 
opinião de Maturana e Varela, o cérebro vive em clausura e não tem condição de perceber o 
exterior. O que há, segundo os autores, é um \u201cacoplamento das superfícies sensoriais e motoras, 
mediante uma rede de neurônios cuja configuração pode ser muito variada\u201d (MATURANA; 
VARELA, 2005, p. 177). Estas informações como perturbações externas não são, portanto, 
determinantes da atividade neuronal e só são capazes de modular o constante equilíbrio interno 
(MATURANA; VARELA, 2005, p. 180).
Na abordagem representacionista do fenômeno da percepção visual, a imagem retiniana 
teria na sequência um correspondente no interior do sistema nervoso. Mas o que os autores 
afirmam é que a estrutura da retina e a do córtex cerebral estão numa relação de afetação mútua 
e não sequencial (MATURANA; VARELA, 2005, p. 181). 
Para Varela (2003, p. 85), é a experiência no mundo concreto que possibilita e restringe 
a compreensão de inúmeros domínios cognitivos. É o acoplamento sensório-motor que atua nas 
estruturas corporificadas e que nos permite agir em um micromundo já apresentado e não em 
gestação. 
Há indícios de que esse acoplamento sensório-motor esteja relacionado com 
outros tipos de desempenho cognitivo tipicamente humanos: em outras 
palavras, os níveis cognitivos realmente \u201cmais altos\u201d surgem a partir do evento 
de sentir e agir de nível \u201cbaixo\u201d, possibilitando que a ação seja direcionada 
perceptivamente. (VARELA, 2003, p. 84).
Estes processos são auto-organizáveis e as estruturas cognitivas surgem a partir dos 
padrões da atividade sensório-motora. Por essas questões, o nível de interação sensório-motora 
na percepção é mais importante do que as apreensões abstratas. Para Varela, a cognição é 
caracterizada antes pela ação corporificada do que pelas representações abstratas, e as estruturas 
cognitivas emergem das ações direcionadas perceptivamente.
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Algumas abordagens de espaço geométrico e de presença de diferentes autores 
elucidaram a compreensão do observador como participante do mundo perceptível \u201cexterno\u201d, a 
exemplo das abordagens sobre o espaço, que se desenvolveu do sistema de coordenadas 
cartesiano para o sistema riemanniano, que, por sua vez, inclui a quarta dimensão do tempo e o 
observador como aspecto integral do campo espaço-temporal (BLATT, 1984, p. 91-92). Por 
este conceito a realidade é reconhecida como uma função do movimento e da posição relativa 
do observador.
Embora nossa percepção do mundo seja deformada por nossa particular referência 
espaço-temporal, dada nossa natureza biológica e cultural, e porque observamos o mundo 
imersos nele, podemos reconhecer as distorções impostas por nossa capacidade perceptiva.
Para outro autor, Franz Zoder (2001), é central a questão da relatividade da interface do 
observador. Para ele, a interface, como um maiô, adere ao sujeito que a veste. O observador 
migra de pontos diferenciados, de uma endorrealidade a uma exorrealidade. Assim, a realidade 
resulta das relações que o sujeito estabelece com seu entorno. Zoder usa o esquema da 
Programação Neurolinguística desenvolvida por DeLozier e Grinder, por achá-lo útil para 
elucidar as diferentes perspectivas da experiência perceptiva. Cada mudança do ponto de vista 
implica na redefinição de um novo observador e de um novo ambiente que o circunda. O 
modelo demonstra como a experiência subjetiva do observador é influenciada pelas diferentes 
perspectivas e pontos de vista.
O esquema é constituído por três perspectivas: o primeiro ponto de vista é o da primeira 
pessoa da ação, que representa a endoperspectiva; o segundo é o ponto de vista da terceira 
pessoa fora do campo da ação, que representa a exoperspectiva quando a pessoa experiência a 
cena de um ponto de vista desassociado da primeira pessoa; e o terceiro é o ponto de vista de 
um observador que assiste indiferentemente às perspectivas do primeiro e do segundo pontos de 
vista alternando entre estes, podendo dessa maneira diferenciá-los. Esse terceiro ponto de vista 
é denominado por Zoder como metaperspectiva. Esse esquema nos permite acompanhar o 
observador durante a experiência do processo de intersubjetivação. Como Zoder afirma, a cada 
mudança de posição novas definições de ambiente e de observador são ativadas. 
Para Zoder esse processo no qual o observador se torna observador de si mesmo, através 
de pontos de vista diferenciados durante a observação, é semelhante ao que acontece na 
meditação. Podemos entender como a interface age na diferenciação do processo de 
pensamento e do objeto deste. Zoder diferencia o processo de pensamento do objeto do 
pensamento usando a metáfora hindu: o processo de pensamento seria como a madeira no fogo, 
que alimenta o fogo, primeiramente, e depois se transforma no próprio fogo. Em vez de se 
centrar em um objeto fixo, o processo de pensamento com suas descobertas gera um observador 
no fluxo da observação durante o desencadeamento do processo. 
Para Maturana, o observar é logo depois seguido da distinção desse observar que dá 
surgimento ao observador; e a observação do observador, em seu autoapercebimento, dá origem 
à autoconsciência.
Até certo ponto a distinção entre os mundos gerados internamente e externamente, que 
John e Eva Waterworth (WATERWORTH, 2001) fazem em The Meaning of Presence, é 
conveniente. É positiva por discriminar, entre as mídias, as que oferecem uma experiência de 
presença interiorizada e as que propiciam uma experiência exteriorizada. Segundo J. e E. 
Waterworth a diferença entre os mundos gerados internamente e os gerados externamente pode 
ser percebida na comparação dos mundos gerados ao lermos uma novela ou ao atuarmos num 
ambiente de realidade virtual. O mundo da novela é abstrato e só é completado 
conceitualmente. Ao contrário, o mundo da realidade virtual é o mesmo para todos os que o 
visitam. O mundo imaginado da ficção, como mundo interiorizado, não pode ser compartilhado 
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da mesma forma que o mundo exteriorizado, que podemos vivenciar na interação com outros 
indivíduos. Nessas duas situações \u2013 experiências de presença interiorizada e exteriorizada \u2013 
distinguimos mais as limitações e possibilidades de ação do corpo no espaço circundante do que 
as diferenças entre os mundos gerados internamente e externamente. Queremos com essas duas 
situações destacar a cognição propiciada por um meio representacional abstrato e por um meio 
que facilita a ação corporificada, e aí reside a maior contribuição da distinção feita por J. e E. 
Waterworth. Todavia, para Maturana e Varela a interação com outros seres vivos presenciais no 
espaço concreto é insubstituível, mesmo que a experiência de presença como exteriorizada 
oferecida por algumas mídias propicie a cognição através da ação corporificada, ao invés da 
representação abstrata.
A primeira tendência diante das observações de Zoder e de J. e E. Waterworth seria 
dividirmos as experiências em duas esferas: a endoesfera e a exoesfera. Mas se Otto E. Rössler, 
junto com Artur P. Schmidt (2000), parece falar em mundos distintos em Medium des Wissens 
das Menschenrecht auf Information, \u201cEndo-Welten\u201d e \u201cExo-Welten\u201d, que caracterizam 
observadores