A cibercultura e seu espelho
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A cibercultura e seu espelho


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e palpável para os seres 
humanos \u2013 e transportá-la para o mundo digital, nós a tornamos infinitamente modificável. [...] nós a 
transportamos para um meio que é infinita e facilmente manipulável. Estamos aptos a, de um só golpe, transformar 
a informação livremente \u2013 o que quer que ela represente no mundo real \u2013 de quase todas as maneiras que 
desejarmos e podemos fazê-lo rápida, simples e perfeitamente. [...] Em particular, considero a significação da 
mídia digital sendo manipulável no ponto da transmissão porque ela sugere nada menos que um novo e sem 
precedente paradigma para a edição e distribuição na mídia. O fato de as mídias digitais serem manipuláveis no 
momento da transmissão significa algo realmente extraordinário: usuários da mídia podem dar forma a sua própria 
prática. Isso significa que informação manipulável pode ser informação interativa\u201d (FELDMAN, 1997, p. 4).
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estrutura telemática, como um texto vivo, um organismo auto-organizante\u201d; é o \u201cambiente de 
circulação de discussões pluralistas, reforçando competências diferenciadas e aproveitando o 
caldo de conhecimento que é gerado dos laços comunitários, podendo potencializar a troca de 
competências, gerando a coletivização dos saberes\u201d; é o ambiente que \u201cnão tem controle 
centralizado, multiplicando-se de forma anárquica e extensa, desordenadamente, a partir de 
conexões múltiplas e diferenciadas, permitindo agregações ordinárias, ponto a ponto, formando 
comunidades ordinárias\u201d (LEMOS, 2002, p. 131; 145; 146). 
Nesse contexto sociotécnico, os integrantes da chamada \u201cgeração digital\u201d (TAPSCOTT, 
1999) estão cada vez menos passivos perante a mensagem fechada à intervenção, pois 
aprenderam com o controle remoto da televisão, com o joystick do videogame e agora com o 
mouse do computador conectado. Eles evitam acompanhar argumentos lineares que não 
permitem a sua interferência e lidam facilmente com a diversidade de conexões de informação e 
de comunicação nas telas. Modificam, produzem e partilham conteúdos. Essa atitude diante da 
mensagem é sua exigência de uma nova sala de aula, seja na educação básica e na universidade, 
seja na educação presencial e na educação à distância.
 
Geração digital
Os professores e as professoras estão cada vez mais compelidos à utilização de novas 
tecnologias de informação e de comunicação, mas permanecem pouco atentos à necessidade de 
modificar a sala de aula centrada na pedagogia da transmissão. Nem sempre as soluções 
encontradas significam salto qualitativo em educação. Afinal, o essencial não é apenas a 
tecnologia, mas novas estratégias pedagógicas capazes de comunicar e educar em nosso tempo. 
Não é possível assumir a condição de educadores/educadoras utilizando práticas unidire-
cionais centradas na autoria exclusiva da emissão sem prejuízo para a educação sintonizada 
com o espírito do nosso tempo. As separações entre locutor e interlocutor, sujeito e objeto do 
conhecimento, observador e observável, tempo e espaço, precisam ser ressignificadas, pois vi-
vemos em um mundo de mudanças e crises diversas, tanto nos modos e meios de produção de 
bens e serviços, quanto nos processos de formação e (re)construção de saberes e conhecimentos 
na sociedade da informação e da cibercultura. 
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III \u2013 A CULTURA DA TRANSMISSÃO PERDE TERRENO
Na cibercultura, cresce a fragilização da escola e da universidade no cumprimento de 
sua função social de formar cidadãos esclarecidos e senhores de seu próprio destino e do 
destino coletivo. Uma explicação para essa fragilização é, certamente, a sala de aula que não 
estimula a participação colaborativa dos aprendizes na construção do conhecimento. Na sala de 
aula, permanece o mesmo modelo da mídia de massa: a distribuição de pacotes prontos de 
informações que separa emissão e recepção. Quando o ensino está centrado na emissão dos 
professores e do livro, cabe ao aprendiz o lugar da recepção passiva que não exercita a 
participação cidadã. 
A cultura da transmissão perde terreno quando, culturalmente, emerge a valorização das 
interações e da interatividade. Entretanto, a escola tradicional e a mídia clássica (rádio, cinema, 
imprensa e TV) ainda se sustentam na cultura da transmissão que separa emissão e recepção 
(SILVA; SANTOS, 2006, p. 25-67).
Os gestores das mídias de massa mais atentos ao espírito do nosso tempo vão, 
gradativamente, se dando conta de que é preciso encontrar alternativas à lógica da distribuição 
em massa e procuram modificar seus programas, incluindo estratégias que permitem alguma 
reciprocidade com o público. Os professores também podem atentar para a cultura 
comunicacional emergente e modificar a ambiência de aprendizagem de sua sala de aula e 
educar em nosso tempo.
Muitos professores sabem que é preciso investir em relações de reciprocidade para 
construir o conhecimento. Aprenderam isso pelo menos com o construtivismo, que ganhou 
enorme adesão em escolas de todo o mundo destacando o papel central das interações como 
fundamento da aprendizagem. Entenderam que a aprendizagem é um processo de construção do 
discente que elabora os saberes graças às interações com outrem. 
De fato, o construtivismo significa um salto qualitativo em educação. Porém, mesmo 
adeptos do construtivismo, os professores podem permanecer apegados à transmissão porque 
não desenvolveram uma atitude comunicacional que favoreça e promova as interações e a 
aprendizagem. 
Daí a necessidade de desenvolver uma atitude comunicacional não apenas atenta para as 
interações, mas que também as promova de modo criativo. Essa atitude supõe estratégias 
específicas desenvolvidas com base na percepção crítica de uma mudança paradigmática em 
nosso tempo: a transição da tela da TV analógica para a tela do computador ou a emergência de 
uma nova cultura das comunicações.
A tela da TV analógica é um plano de irradiação com duas dimensões: altura e largura. 
A tela do computador permite imersão. Além de altura e largura, tem profundidade, que permite 
ao usuário interagir e não meramente assistir. Permite adentrar, operar e modificar. Com a 
pedagogia da transmissão, os professores estão no mesmo paradigma da TV. Eles são 
transmissores iluminados que editam e transmitem os conteúdos de aprendizagem para alumno, 
que, em latim, quer dizer "carente de luz". Este, por sua vez, enquanto \u201cgeração digital\u201d, migra 
da tela da TV analógica para a do computador online, buscando interatividade.
Mesmo situados na sala de aula presencial \u201cinfopobre\u201d, os professores precisam estar 
atentos ao nosso tempo digital, ao designer de games, ao webdesigner: eles não apresentam 
uma história para se ver, ouvir ou assistir, mas oferecem uma rede de conexões em territórios 
abertos a navegações, interferências e modificações. Os professores podem dar-se conta dessa 
atitude comunicacional e tomá-la como base de inspiração na construção de alternativas às 
práticas de transmissão que predominam em sua docência.
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IV \u2013 PERSPECTIVAS PARA UMA DOCÊNCIA INTERATIVA PRE-
SENCIAL E ONLINE
Mesmo ganhando maturidade teórica e técnica com o desenvolvimento da internet e dos 
games, o significado do termo \u201cinteratividade\u201d cai na banalização quando usado como \u201cargu-
mento de venda\u201d (SFEZ, 1994) em detrimento de um prometido plus comunicacional. 
Nesse caso, vale a pena atentar para o sentido depurado do termo presente \u201carte partici-
pacionista\u201d3, da década de 1960, definida também como \u201cobra aberta\u201d. O parangolé do artista 
plástico carioca Hélio Oiticica é um exemplo muito favorável à explicitação dos fundamentos 
da interatividade (SILVA; SANTOS, 2006, p. 187-193).
O parangolé rompe com o modelo comunicacional baseado na