A cibercultura e seu espelho
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A cibercultura e seu espelho


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da efemeridade, do vir-a-ser em processos 
que demandam a reciprocidade, a colaboração, a partilha. A interatividade ciberespacial não 
seria possível sem a competência semiótica do usuário para lidar com as interfaces 
computacionais. Essa competência semiótica implica vigilância, receptividade, escolha, 
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colaboração, controle, desvios, reenquadramentos em estados de imprevisibilidade, de acasos, 
desordens, adaptabilidade que são, entre outras, as condições exigidas para quem prevê um 
sistema interativo e para quem o experimenta. 
Cada vez mais as tecnologias interativas crescem em complexidade. Conforme 
Domingues (ibid., p. 84) nos informa, alguns autores criaram a denominação de \u201csegunda 
interatividade\u201d para as situações em que as máquinas são capazes de oferecer respostas 
similares ao comportamento dos seres vivos, para situações geradas no interior de sistemas 
guiados por modelos perceptivos oriundos das ciências cognitivas que simulam o 
funcionamento da mente e por princípios de inteligência artificial e vida artificial. São 
simulações que operam de forma complexa, em ambientes que evoluem em suas respostas, 
como, por exemplo, os dotados de redes neurais e suas camadas ou perceptrons que funcionam 
como conexões de sinapses artificiais e que podem ser treinadas para a aprendizagem, dando 
respostas para além da mera comunicação em modelos clássicos. [...] Em pesquisas mais 
recentes, surgem, assim, sistemas artificiais dotados de fitness, com plena capacidade de gerar e 
lidar com imprevisibilidades, resultando em processos de solução de problemas por trocas 
aleatórias, seleção de dados, cruzamentos de informação, auto-regulagem do sistema, entre 
outras funções (ibid.).
Conclusão: enquanto a cultura pós-moderna e global nos levou ao fim do estilo 
concebido como padrão capaz de perfilar e permitir o reconhecimento de um período histórico, 
o que a cultura pós-humana está agora colocando sob interrogação é o estatuto do talento 
individual como fonte para uma certa noção de estilo. Enfim, se todos os processos de criação 
na era pós-humana, além de serem coletivos, cooperativos e dialógicos são também realizados 
em simbiose com a inteligência e vida artificiais, então o estilo, tradicionalmente concebido 
como marcas qualitativas de um talento individual, está destinado a desaparecer? Deixo a 
resposta para nossa meditação. 
Referências
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BAUDRILLARD, Jean. A troca simbólica e a morte. Tradução de Maria Stela Gonçalves e 
Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Loyola, 1996.
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technological embodiment. London: Sage, 1996. p. 1-15.
GOMBRICH, Ernst H. Arte e ilusión. Tradução Gabriel Ferrater. Barcelona: Gustavo Gili, 
1979.
HARVEY, David. Condição pós-moderna. Tradução Adail Ubirajara Sobral e Maria Stella 
Gonçalves. São Paulo: Loyola, 1993. 
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MCLUHAN, Marshall. Understanding media: the extensions of man. New York: McGraw 
Hill, 1964.
NÖTH, Winfried. Máquinas semióticas. Galáxia: revista transdisciplinar de comunicação, 
semiótica, cultura-revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e 
Semiótica da PUC-SP, São Paulo, EDUC, n. 1, p. 51-74, 2001.
PLAZA, Julio. Arte e interatividade: autor-obra-recepção. Arte e tecnologia da imagem 3, 
Brasília, Unb, v. 3, n. 3, p. 29-42, 2001.
PEPPERELL, Robert. The post-human condition. Oxford: Intellect, 1995.
POUND, Ezra. ABC da literatura. São Paulo: Cultrix, 1970.
SANTAELLA, Lucia. O homem e as máquinas. In: _______. Cultura das mídias. 4. ed. São 
Paulo: Experimento, 2005 [1996].
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PARTE V
CONSUMO DE MÚSICA ONLINE
E CONSTRUÇÃO DE VIDEOGAME
PLATAFORMAS DE MÚSICA ONLINE
Práticas de comunicação e consumo através dos perfis1 
Adriana Amaral
I \u2013 CONSUMO MUSICAL E ESTILOS DE VIDA ATRAVÉS DOS 
PERFIS ONLINE 
Os estudos sobre as relações de circulação e consumo midiático no contexto dos estilos 
de vida na sociedade contemporânea têm apontado os efeitos desse amplo universo de bens 
simbólicos e cultura material disponíveis atualmente. O processo de estetização da vida 
cotidiana, em curso desde pelo menos o século XVII e tornado mais visível pelos meios de 
comunicação de massa no século XX, continua a configurar padrões identitários através de 
perfis de consumo, seja no contexto amplo dos lazeres e da produção massiva de objetos, 
vestuários e bens simbólicos, seja em âmbito mais específico dos grupos e subgrupos a eles 
interligados. 
Os padrões de consumo definiram ou ajudaram a definir a identidade de 
diversas subculturas, como a dândi, a boêmia e até mesmo a \u201capache\u201d. De 
maneira semelhante, eles definiram as \u201ctribos\u201d britânicas do fim do século XX: 
os mods, os rockers, os skinheads, os punks e assim por diante. Também 
passou a existir uma política de consumo ou, mais especificamente, uma recusa 
em consumir certos produtos. (BURKE, 2008, p. 34).
No âmbito da cibercultura, uma faceta notadamente marcada desses fenômenos acontece 
através das práticas de construção de perfis online em redes de relacionamento. Esses processos 
de subjetivação e consumo nos perfis dos sites de redes sociais são constituídos em um contexto 
macro.
As pessoas se apresentam à rede pelos perfis e pelas páginas personalizadas 
nas quais compartilham suas preferências. É pela fruição de bens culturais que 
é constituída a mediação entre os usuários e ela é resultado de práticas de 
consumo. Essa fruição, porém, não é apenas índice de identidade ou 
estilização de vida, status ou capital cultural. Os bens estão ali também para 
circulação, não importando mais de quem e de onde partiram e ao que se 
destinam. As atividades de circulação de perfis pela rede tornam cada vez 
mais complexo este usuário-consumidor-produtor atravessado por uma 
 1 A argumentação deste artigo foi apresentada no GT \u201cComunicação e Cibercultura\u201d da COMPÓS - Associação 
Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, no XVIII Encontro Anual da entidade, realizado na 
PUC-Minas, em Belo Horizonte/MG, em junho de 2009. Publicado posteriormente na revista Contracampo, 
editada pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFF, Niterói, n. 20, p 148-170, ago. 2009. A 
presente versão foi revista e ampliada e, nessa condição, é integrada a este e-book.
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contagiante e viral pluralidade de preferências e estilos. (PINHEIRO, 2008, p. 
106).
Em estudos anteriores, indicamos algumas práticas comunicacionais e sociais através da 
constituição de perfis específicos de uma cena e estética musical no MySpace (AMARAL, 
2007b), bem como apontamos as práticas subculturais como elementos históricos-conceituais 
na gênese da cultura digital e que retornam a um lugar de importância através da popularização 
das redes de relacionamento (ibid., 2008). Já Liu (2007) observa esses perfis/estilos de vida 
como performances de gosto, nas quais ele encontra quatro categorias: prestígio (reputação), 
diferenciação, autenticidade e persona teatral. 
One of the newest stages for online textual performance of self is the Social 
Network Profile (SNP). The virtual materials of this performance are cultural 
signs \u2013 a user\u2019s self-described favorite books, music, movies, television 
interests, and so forth \u2013 composed together into a taste statement that is 
\u201cperformed\u201d through the profile. By utilizing the medium of