Psicose - Robert Bloch

Psicose - Robert Bloch


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Capítulo	1
	
	
NORMAN	 ouviu	 e	 teve	 um	 choque.	 Parecia	 terem	 batido	 na	 vidraça.	 Olhou
depressa,	fêz	menção	de	se	erguer,	o	livro	lhe	escorregou	das	mãos	para	o	amplo
colo.	Era	ruído	de	chuva,	apenas.	Uma	bátega	tardia,	na	janela	da	sala.
Não	 tinha	 reparado	 em	 que	 ameaçava	 chuva	 e	 que	 o	 crepúsculo	 descia.	 Já
estava	quase	escuro,	na	sala.	Estendeu	a	mão	para	acender	a	 lâmpada,	antes	de
retomar	 a	 leitura.	 Era	 uma	 dessas	 antiquadas	 lâmpadas	 de	 mesa,	 de	 abajur	 de
vidro	pintado	e	franja	transparente.	Desde	quando	podia	se	lembrar,	a	mãe	tinha
essa	lâmpada	e	se	recusava	a	desfazer-	se	dela.	Êle	não	punha	objeções:	viveu	ali
durante	os	quarenta	anos	de	sua	vida,	e	era	 tão	agradável	e	 tranquilizador	viver
cercado	de	objetos	familiares.	Tudo	ali	era	metódico	e	ordenado;	somente	lá	fora
é	que	as	coisas	mudavam.	..
A	maior	 parte	 dessas	mudanças	 sustinham	no	 ar	 uma	 ameaça.	 Suponhamos
houvesse	 êle	 passado	 a	 tarde	 andando	 e	 a	 chuva	 o	 pegasse	 em	 alguma	 vereda
solitária,	talvez	no	pântano...	Estaria	encharcado.	E	teria	que	voltar	aos	tropeções
para	casa,	no	escuro...	Até	poderia	apanhar	uma	pneumonia	mortal...	Mas	quem
queria	 ficar	 lá	 fora,	 na	 noite	 escura?	 Muito	 melhor	 estar	 ali	 na	 sala,	 junto	 à
lâmpada,	com	um	livro...
Ao	baixar	a	cabeça	para	reiniciar	a	leitura,	a	luz	brilhou	em	seu	rosto	redondo,
pôs	reflexos	nos	óculos	sem	aro,	banhou-lhe	o	róseo	couro	cabeludo	e	os	cabelos
ralos,	amarelados.
Era	 um	 livro	 fascinante.	 Não	 admirava	 terem-lhe	 as	 horas	 passado
despercebidas.	Lia	\u201cO	Reino	dos	Incas\u201d,	de	Victor	W.	Von	Hagen.	Nunca	antes
encontrara	 tal	 riqueza	 de	 informações	 curiosas.	 A	 descrição	 da	cachua,	 por
exemplo,	ou	dança	da	vitória,	onde	os	guerreiros	formavam	um	vasto	círculo	que
se	movia	e	contorcia	qual	uma	cobra	enorme.	E...
	
\u201cO	 toque	de	 tambor	 se	 fazia	no	que	 fôra	outrora	o	corpo	de	um	 inimigo.	A
pele	do	ventre	era	o	ponto	de	percussão	do	tambor,	e	o	corpo	servia	de	caixa	de
ressonânçia	que	vibrava	através	da	bôca	escancarada...\u201d
	
Norman	 Bates	 sorriu,	 depois	 se	 deu	 ao	 luxo	 de	 um	 gostoso	 estremeção.
Grotesco,	mas	eficiente	\u2014	claro	que	devia	ser!	Imagine-se,	esfolar	um	homem	\u2014
vivo,	 provàvelmente	 \u2014	 esticar-lhe	 depois	 o	 ventre	 e	 fazer	 disso	 um	 tambor!
Afinal	de	que	maneira	curtiriam	o	cadáver,	para	evitar	a	putrefação?	Mas,	antes
disso,	 que	 espécie	 de	 mentalidade	 seria	 necessária	 para	 a	 concepção	 de
semelhante	idéia?
Certo,	a	idéia	era	nada	apetitosa;	mas,	fechando	os	olhos,	quase	êle	podia	ver	a
cena:	a	multidão	de	guerreiros	pintados	e	nus,	contorcendo-se	e	balançando-se	ao
sol	 fulgurante,	 e	 a	 velha	 da	 tribo,	 ajoelhada	 diante	 dêles,	 batendo	 o	 ritmo
inexorável	 na	 pele	 inflada	 e	 distendida	 do	 ventre	 de	 um	 cadáver!	 A	 bôca
contorcida	do	morto,	aberta	à	fôrça,	fôra	provàvelmente	fixada	nessa	posição	por
ganchos	 de	 osso,	 a	 fim	 de	 dar	 passagem	 aos	 sons...	 Mercê	 da	 percussão	 do
ventre,	êstes	atravessariam	os	murchos	orifícios	interiores,	forçariam	a	encolhida
traquéia,	para	enfim	emergirem	ampliados,	e	com	tôda	fôrça,	da	garganta	morta...
Norman	podia	quase	ouvi-los;	mas	a	chuva	também	tinha	um	ritmo...	tinha-o
também	um	rumor	de	passos...
Na	 realidade	sentiu	 o	 rumor	 de	 passos,	 mais	 do	 que	 ouviu.	 Uma	 antiga
familiaridade	afinava-lhe	os	 sentidos,	 cada	vez	que	a	mãe	entrava	no	 aposento.
Nem	precisava	olhar	para	estar	certo	da	presença	dela.
Não	 olhou;	 fingiu	 continuar	 lendo.	 Ela	 estivera	 dormin-	 40	 \u2022	 êle	 sabia	 que
acordava	rabugenta.	O	melhor	era	ficar	Miado,	na	esperança	de	que	não	estivesse
muito	azeda...
\u2014	Sabe	que	horas	são,	Norman?
Ele	 suspirou.	 Fechou	 o	 livro.	 Sabia,	 já,	 que	 ela	 despertara	 intratável:	 a
pergunta	era	uma	provocação.	Ela	passava	pelo	enorme	relógio	do	vestíbulo	para
chegar	à	sala,	de	modo	que	lhe	era	fácil	verificar	que	horas	eram...
Ainda	assim,	por	quê	fazer	disso	um	problema?	Norman	baixou	o	olhar	para	o
relógio	de	pulso	e	sorriu.
\u2014	Passa	um	pouco	das	cinco,	respondeu.	\u2014	Não	pensei	que	fôsse	tão	tarde.
Estive	lendo.	..
\u2014	Pensa	que	não	tenho	olhos?	Vi	muito	bem	o	que	está	fazendo.
Agora	ela	estava	à	janela,	a	olhar	a	chuva.
\u2014	E	também	o	que	não	faz.	..	Por	quê	não	acendeu	o	letreiro	quando	viu	que
escureceu?	E	por	quê	não	está	no	escritório,	que	é	o	seu	lugar?
\u2014	Começou	 a	 chover	 tão	 forte	 que	 julguei	 não	 haver	 nenhum	movimento
com	êsse	tempo.
\u2014	Asneira!	Agora	 é	o	 tempo	adequado	para	 êste	negócio.	Muita	gente	não
quer	andar	de	carro	quando	chove.
\u2014	Acho	improvável	alguém	vir	a	passar	por	êstes	lados.	Todos	tomam	agora
a	estrada	nova.	E	percebeu	a	amargura	so	insinuar	em	sua	voz;	sentiu-a	inchar-
lhe	a	garganta	e	tentou	reprimi-la.	Mas	era	tarde:	desembuchou:
\u2014	Eu	bem	disse,	quando	me	contaram	que	a	estrada	ia	ser	transferida.	A	sra.
podia	ter	 vendido	o	motel	 ({1})	 antes	 que	 a	 notícia	 da	mudança	 transpirasse.
Podíamos	ter	comprado	por	uma	bagatela	todo	o	terreno	aqui	em	tômo,	o	que
nos	levaria	para	mais	perto	de	Fairvale.	Construiríamos	um	outro	motel,	uma
nova	casa	e	ainda	ganharíamos	dinheiro.	Mas	a	sra.	não	me	quis	ouvir.	Não
liga	ao	que	eu	digo.	Só	se	há-de	fazer	o	que	a	sra.	quer,	o	que	a	sra.	entende...
A	sra.	me	deixa	doente.
\u2014	Deixo,	heim,	meu	menino...
A	voz	da	mãe	era	ilusòriamente	macia,	mas	êle	não	se	deixou	enganar.	Nem
quando	 ela	 o	 chamou	 de	 "meu	 menino".	 Quarenta	 anos,	 e	 ela	 a	 chamá-lo	 de
\u201cmenino\u201d!	E	o	pior	era	que	ela	sempre	o	tratara	como	a	uma	criança,	Se	êle	ao
menos	 pudesse	 não	 ouvir!	Mas	 ouvia,	 tinha	 que	 ouvir,	 nunca	 podia	 deixar	 de
ouvir...
\u2014	Então	deixo,	heim,	meu	menino...	!	repetiu	ela,	com	suavidade	ainda	maior.
\u2014	Deixo-o	doente,	heim?	Pois	bem:	acho	que	não.	Não,	menino:	não	sou	eu
quem	o	deixa	doente...	É	você	mesmo	quem	fica...	E	é	essa	a	verdadeira	razão
por	 que	 você	 continua	 plantado	 neste	 lado	 da	 estrada;	 não	 é,	 Norman?	A
verdade	 é	 que	 lhe	 falta	 senso	 comum.	 Nunca	 teve	 a	 menor	 dose	 de	 senso
comum!	Por	exemplo,	nunca	 teve	o	senso	comum	de	sair	para	sempre	desta
casa,	 de	 arranjar	 um	 emprêgo,	 de	 se	 alistar	 no	 Exército...	 Nem	 mesmo	 de
arranjar	uma	namorada...
\u2014	A	sra.	é	que	não	deixou!
\u2014	Está	 certo,	Norman:	 fui	 eu	 que	 não	 deixei...	Mas	 se	 você	 fôsse	 homem,
teria	feito	o	que	queria.
Quis	gritar	que	ela	estava	errada;	entretanto,	nada	pôde	dizer.	As	coisas	que
ela	 dizia	 eram	 as	 mesmas	 que	 a	 si	 próprio	 êle	 dissera	 inúmeras	 vêzes	 durante
tantos	 anos.	 Ela	 sempre	 lhe	 ditara	 as	 leis,	 mas	 isso,	 não	 queria	 dizer	 que	 êle
precisasse	 obedecê-las.	As	 mães	 são	 às	 vêzes,	 francamente	 dominadoras,	 mas
nem	 tôdas	 as	 crianças	 se	 deixam	 dominar.	 Outras	 viúvas	 houve,	 outros	 filhos
únicos,	mas	nem	todos	se	deixaram	emaranhar	nessa	espécie	de	relações.	A	culpa
era	tanto	dêle	quanto	dela.	Porque	êle	não	tinha	senso	comum	...
\u2014	Você	sabe	que	podia	ter	insistido,	continuava	ela.	\u2014	Suponha	que	tivesse
arranjado	outro	local	e	tivesse	pôsto	à	venda	êste.	Não:	só	sabia	choramingar.
E	eu	sei	por	quê.	Você	nunca	me	enganou,	um	momento	sequer.	É	que,	em
verdade,	você	não	queria	se	mudar	daqui.	Nunca	quis	sair	dêste	lugar,	e	jamais
o	 quererá.	 Não	 pode	 sair	 daqui	 ..	 da	 mesma	 forma	 que	 também	 não	 pode
crescer,	ficar	adulto...
Não	 podia	 olhar	 para	 ela.	 Impossível	 fazê-lo	 quando	 ela	 tocava	 nesses
assuntos.	 Para	 onde	 olharia?	 A	 lâmpada	 e	 sua	 franja,	 a	 velha	 mobília
pesadamente	 estofada,	 os	 objetos	 familiares	 \u2014	 tudo	 de	 repente	 se	 lhe	 tornou
odioso,	 exatamente	 por	 causa	 daquela	 longa	 familiaridade.	 Eram	 como	 os
acessórios	da	cela	de	uma	penitenciária.	Olhou	para	fora,	mas	 também	isso	não
adiantava:	 lá	 fora	 só	 havia	 vento,	 chuva	 e	 escuridão.	 Fugir?	 Para	 onde	 fugir
daquela	voz	vibrante,	daquela	voz	que	golpeava	seus	ouvidos	como	o	tambor	da
Elioesio
Elioesio fez um comentário
Bem interessante! Conheci a história por meio do seriado Bates Motel, assistir o filme psicose e agora comecei a ler o livro. Obrigado!
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Mickael
Mickael fez um comentário
obrigado. pensei que nunca acharia esse livro
1 aprovações
Ana
Ana fez um comentário
Obrigada Mariana!
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Natalia
Natalia fez um comentário
arrasou !
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Amanda
Amanda fez um comentário
Muito obrigada Mariana, estava procurando este livro :)
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