Psicose - Robert Bloch

Psicose - Robert Bloch


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os	olhos,	mas	a	ouviu:
\u2014	Não	se	preocupe,	filho.	Torne	a	dormir.
\u2014	Mas	quero	lhe	dizer...
\u2014	 Já	 sei.	 Vi	 tudo.	 Pensou	 que	 fugi,	 abandonando	 você?	 Fêz	 o	 que	 devia,
Norman.	Agora	está	tudo,	bem.
Sim,	 devia	 ser	 assim.	 Ela	 estava	 ali	 para	 o	 proteger,	 e	 êle	 estava	 ali	 para	 a
proteger.	 Antes	 de	 readormecer,	 havia	 decidido.	 Nenhum	 dos	 dois	 falaria	 a
respeito	do	que	houve	naquela	noite.	Nem	agora,	nem	nunca.	Não	pensou	mais
em	interná-la.	Não	importava	o	que	ela	fizera:	o	lugar	dela	era	ali,	ao	lado	dêle.
Talvez	 fôsse	mesmo	 louca,	 e	 assassina	\u2014	mas	 era	 tudo	 para	 êle.	Tudo	quanto
desejava.	Tudo	 o	 de	 que	 necessitava.	E	 enquanto	 adormecia,	 bastava-lhe	 saber
que	ela	estava	a	seu	lado.
Virou-se	 e	 se	 engolfou	numa	escuridão	 ainda	mais	 densa	 e	mais	 absorvente
que	a	do	pântano.
	
	
Capítulo	6
	
	
NA	SEXTA-FEIRA	seguinte,	às	seis	horas	da	manhã,	aconteceu	um	milagre.
No	 quarto	 do	 fundo	 da	 única	 loja	 de	 ferragens	 de	Fairvale,	 fêz-se	 ouvir
Impressões	Brasileiras,	de	Ottorino	Respighi.
Fazia	 muitos	 anos	 que	 o	 compositor	 falecera,	 e	 a	 orquestra	 sinfônica	 \u2014
l'Orchestre	 des	 Concerts	 Colonne	 \u2014	 tocava	 a	 milhares	 de	 quilômetros	 de
distância.
Quando	 Sam	 Loomis	 ligou	 seu	 pequeno	 rádio	 de	 frequência	 modulada,	 a
música	brotou,	anulando	o	espaço,	o	tempo,	a	própria	morte.
Em	sua	opinião,	isso	era	um	autêntico	milagre.
De	repente	pensou	que	gostaria	de	estar	acompanhado.	Os	milagres	devem	ser
partilhados	 com	 alguém.	 Também	 em	Fairvale	 não	 havia	 ninguém	 que
reconhecesse	 aquela	música,	 nem	o	milagre	que	 era	 ela	 ter	 chegado	até	 ali.	Os
habitantes	 de	Fairvale	 eram	 práticos.	 A	 música	 era	 apenas	 uma	 coisa	 que
obtinham	em	troca	de	um	níquel	depositado	na	vitrola	automática	ou	quando	se
ligava	o	receptor	de	televisão.	Na	maioria	das	vêzes	era	rock-and-roll,	mas	de	vez
em	 quando	 lá	 vinha	 uma	 peça	 clássica,	 como	 aquêle	Guilherme	 Tell 	 que	 se
costumava	tocar	nas	fitas	de	cowboy.
O	que	havia	para	admirar	nesse	Ottorino	não-sei-do-quê...	como	era	mesmo	que
se	chamava?
Sam	Loomis	sacudiu	os	ombros,	depois	sorriu.	Não	se	lamentava.	Moradores
de	cidade	pequena	geralmente	não	gostam	dêsse	tipo	de	música,	mas	pelo	menos
consentiam	em	que	êle	a	usufruísse.	Do	mesmo	modo	que	também	êle	não	mexia
um	dedo	para	lhes	modificar	o	gôsto.	O	acordo	era	mútuo.
Pegou	da	prateleira	o	livro	de	contabilidade	e	o	levou	para	a	mesa	da	cozinha.
A	mesa	 se	 improvisava	 em	 escrivaninha,	 como	 êle	 se	 improvisava	 em	 guarda-
livros.	A	tarefa	lhe	tomaria	uma	hora.
Era	um	dos	inconvenientes	de	morar	em	um	quarto	nos	fundos	do	armazém	de
ferragens.	 Não	 havia	 espaço	 disponível,	 e	 tudo	 tinha	 de	 ser	 improvisado.
Aceitava	a	situação.	Não	seria	para	sempre	\u2014	a	julgar	pelo	rumo	que	as	coisas
tomavam.
Um	 rápido	olhar	 pelos	 números	pareceu-lhe	 confirmar	o	otimismo.	Teria	 de
fazer	 uma	 verificação	 nas	 despesas	 do	 inventário,	 mas	 era	 quase	 certo	 poder
pagar	outros	mil	dólares	naquele	mês.	O	que	elevaria	a	três	mil	a	totalidade	dos
pagamentos	do	semestre.	E	a	época	não	era	de	grandes	vendas.	Com	a	entrada	do
outono	o	negócio	retomaria	alento.
Fazia	 contas	 em	 um	 retalho	 de	 papel.	 Sim,	 provàvelmente	 liquidaria	 as
dívidas.	 Sentiu-se	 aliviado.	 Mary	 também	 havia	 de	 sentir-se	 aliviada	 com	 a
perspetiva.
Últimamente	 Mary	 parecia	 triste.	 Era	 essa	 a	 impressão	 que	 suas	 cartas
causavam.	 Isto	é,	quando	havia	cartas,	pois	ela	 já	 lhe	devia	algumas.	Tomara	a
escrever	a	ela	na	última	sexta-feira,	e	nada	de	resposta.	Quem	sabe	estava	doente.
Não:	se	fôsse	êsse	o	caso,	teria	recebido	um	bilhetinho	de	Lila.	Provàvelmente	era
desânimo,	alguma	depressão.	Não	a	censurava	por	 isso.	Fazia	muito	 tempo	que
vinha	trabalhando	demais.
Êle	também,	naturalmente.	Não	era	fácil	viver	daquele	jeito.	Mas	era	a	única
maneira.	Ela	compreendia;	ela	concordara	em	esperar.
Talvez	 êle	 devesse	 sair	 por	 alguns	 dias	 na	 semana	 entrante,	 deixando
Summerfield	à	testa	do	negócio,	e	ir	visitar	Mary.	Chegar	inopinadamente,	fazer-
lhe	uma	surprêsa,	Por	quê	não?	Os	negócios	andavam	parados	e	Bob	podia	muito
bem	dirigir	o	armazém	sòzinho.
Suspirou.	A	música	baixava	em	espirais	de	tom	menor.	Devia	ser	o	 tema	do
jardim	 das	 serpentes.	 Sim,	 reconhecia-o,	 com	 suas	 cordas	 resvalando,	 suas
madeiras	contorcendo-se	acima	do	sonolento	contra-baixo.	Serpentes.	Mary	não
gostava	 de	 serpentes.	 Provàvelmente	 também	 não	 gostasse	 dôsse	 gênero	 de
música.
Às	vêzes	pensava	se	não	teriam	errado	ao	traçar	o	plano	do	seu	futuro.	Afinal
de	contas,	que	 sabiam	um	do	outro?	Exceto	o	cruzeiro	que	 fizeram	 juntos	e	os
dois	dias	que	Mary	ali	passara	no	ano	anterior,	não	tinham	tido	outra	convivência.
Naturalmente,	 havia	 as	 cartas,	 mas	 talvez	 isso	 apenas	 servisse	 para	 piorar	 as
coisas.	 Nelas,	 Sam	 descobrira	 uma	 outra	 Mary	\u2014	moça	 cheia	 de	 venetas,	 de
personalidade	 petulante,	 dada	 a	 preferências	 e	 repugnâncias	 fortes	 como
preconceitos.
Sacudiu	 os	 ombros.	 Que	 é	 que	 estava	 sentindo?	 A	 morbidez	 da	 música?
Doiam-lhe	os	músculos	da	nuca.	Escutou	com	atenção,	esforçando-se	para	isolar
o	instrumento,	determinar	com	precisão	a	frase	musical	que	desencadeara	aquela
reação.	Havia	algo	errado,	algo	que	êle	intuia,	algo	que	podia	quase	ouvir...
Levantou-se,	empurrando	para	trás	a	cadeira.
Sim:	 ouvia.	 Era	 uma	 leve	 pancada	 na	 porta	 do	 armazém.	 Só	 isso,
naturalmente;	nada	que	o	devesse	preocupar.	Alguém	fazia	girar	a	maçaneta	da
porta	da	frente.
O	 armazém	 estava	 fechado,	 as	 portas	 de	 aço	 descidas.	 Talvez	 fôsse	 algum
viajante.	 Provàvelmente.	 Seus	 conterrâneos	 sabiam	 quando	 êle	 fechava	 o
armazém;	 igualmente	 sabiam	 que	 êle	 morava	 no	 quarto	 dos	 fundos.	 Se	 o
precisassem	vêr	fora	de	horas,	telefonariam	antes,	naturalmente.
Bom:	 negócio	 era	 negócio,	 fôsse	 lá	 quem	 fôsse	 o	 freguês.	 Voltou-se	 e	 se
precipitou	pelo	corredor	escuro.	Agora,	na	porta	da	frente,	podia	ouvir,	com	tôda
a	nitidez,	pancadas	violentas	\u2014	com	efeito,	até	tilintar	as	caçarolas	e	panelas	na
prateleira	de	miudezas.
Devia	 ser	 urgente.	 Ou	 algum	 freguês	 precisando	 de	 lâmpada	 nova	 para	 o
refletor	Mickey	Mouse	do	garôto?
Tateou	o	bôlso,	achou	o	chaveiro.
Já	vou	indo,	exclamou	\u2014	já	vou	abrir.
E	 assim	 fêz	 com	 destreza,	 escancarando	 a	 porta	 sem	 tirar	 a	 chave	 da
fechadura.
Ela	 estava	 em	 pé	 no	 limiar.	 Sua	 silhueta	 era	 posta	 em	 relêvo	 pela	 luz	 da
calçada	fronteira.	Quando	a	reconheceu,	Sam	ficou	paralizado;	depois	avançou	e
seus	braços	a	enlaçaram.
\u2014	Mary!
E	 sua	 bôca	 procurou	 a	 dela.	 Mas	 a	 moça	 se	 endureceu,	 recuou,	 cerrou	 os
punhos	e	começou	a	golpear-lhe	o	peito.	Que	era	aquilo?
\u2014	Não	sou	Mary!	exclamou	ofegante	\u2014	sou	Lila!
\u2014	Lila?	balbuciou	Sam,	dando	um	passo	para	trás.	\u2014	A...	irmã	de	Mary?
Sam	então	viu	o	rosto	de	perfil,	os	reflexos	que	a	luz	da	lâmpada	punha	nos
cabelos	 dela.	 Cabelos	 castanhos,	 mais	 claros	 que	 os	 de	 Mary.	 Agora	 via	 a
diferença	 na	 forma	 arrebitada	 do	 nariz,	 no	 ângulo	 alto	 dos	 ossos	 faciais...	 'Era
também	 um	 pouquinho	 mais	 baixa,	 os	 quadris	 e	 os	 ombros	 ligeiramente	 mais
estreitos.
\u2014	Desculpe,	murmurou	êle	\u2014	foi	a	luz.
\u2014	Não	tem	importância.
A	voz	também	era	diferente:	mais	suave,	mais	baixa,
\u2014	Não	quer	entrar?
\u2014	Sim,	disse	ela	hesitando,	a	olhar	para	baixo;	e	Sam	viu	então	a	valise	na
calçada.
\u2014	Vamos:	deixe	que	a	valise	eu	levo.	Ao	passar	pelo	corredor,	acendeu	a	luz
dos	fundos.	\u2014	Meu	quarto	é	mais	adiante.	É	por	aqui.
Ela	 o	 seguiu	 em	 silêncio.	Não	 num	 silêncio	 total,	 pois	 o	 poema	musical	 de
Respighi	 ainda	 enchia	 o	 ar.	 Ao	 entrarem	 na	 improvisada	 residência	 Sam	 fêz
menção	de	desligar	o	rádio.	Lila	deu	com	a	mão.
\u2014	Deixe,	pediu	\u2014	quero	ver	se	reconheço	a	música.	Villa	Lobos?
Elioesio
Elioesio fez um comentário
Bem interessante! Conheci a história por meio do seriado Bates Motel, assistir o filme psicose e agora comecei a ler o livro. Obrigado!
0 aprovações
Mickael
Mickael fez um comentário
obrigado. pensei que nunca acharia esse livro
1 aprovações
Ana
Ana fez um comentário
Obrigada Mariana!
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Natalia
Natalia fez um comentário
arrasou !
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Amanda
Amanda fez um comentário
Muito obrigada Mariana, estava procurando este livro :)
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