Psicose - Robert Bloch

Psicose - Robert Bloch


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se	 ergueu	 devagar	 e	 se	 dirigiu	 para	 a
moça.	Deu-lhe	uma	pancadinha	no	ombro:
\u2014	 Escute	 aqui,	 miss	 Crane:	 já	 examinamos	 tudo	 isso	 antes;	 lembra-se?
Ninguém	sabia	o	caso	do	dinheiro.	Sua	irmã	não	foi	raptada.	Foi	para	casa,	fês
as	malas,	 saiu	 no	 seu	 próprio	 carro	 e	 estava	 sozinha.	A	 senhorita	 não	 a	 viu
sair?	Então?	Seja	razoável!
\u2014	Estou	 sendo	 razoável!	O	 sr.	 é	 que	 faz	 confusão!	 Imagine:	 seguir-me	 até
aqui	para	inquirir	mr.	Loomis...
O	investigador	abanou	a	cabeça.
\u2014	Que	a	leva	a	pensar	que	a	segui?	perguntou	tranquilamente.
\u2014	Então	como	é	que	hoje	de	noite	se	encontra	aqui?	O	sr.	não	sabia	que	Mary
e	 Sam	Loomis	 eram	 noivos.	 Exceto	 eu,	 ninguém	mais	 sabia.	O	 sr.	 nem	 ao
menos	sabia	da	existência	de	Sam!
Arbogast	tornou	a	abanar	a	cabeça.
\u2014	 Sabia,	 sim.	 Lembre-se:	 lá	 no	 apartamento,	 quando	 dei	 a	 batida	 na
escrivaninha	de	sua	irmã,	topei	com	êste	envelope...
E	o	investigador	o	agitou	no	ar.
\u2014	Ué!	Está	endereçado	a	mim!	murmurou	Sam,	levantando-se	para	apanhá-
lo.
Arbogast	retirou	a	mão.
\u2014	Não	 precisará	 disto;	 não	 tem	 carta	 dentro	\u2014	 é	 apenas	 o	 envelope.	Mas
pode	me	servir,	por	trazer	a	letra	dela.
Fêz	uma	pausa.
\u2014	Tenho,	com	efeito,	me	servido	dêle,	desde	a	manhã	de	quarta-feira,	quando
saí	para	cá.
\u2014	Foi	na	quarta-feira	que	o	sr.	veio	para	cá?	indagou	Lila,	dando	pancadinhas
nos	olhos	com	o	lenço.
\u2014	Isso	mesmo.	Não	vim	no	seu	encalço,	Miss,	mas	à	sua	frente.	O	endereço
do	envelope	me	deu	a	pista.	Isso,	mais	o	retrato	de	Loomis	na	moldura,	junto	à
cama	de	 sua	 irmã.	\u201cCom	todo	o	meu	amor	\u2014	Sam\u201d.	Foi	 fácil	 estabelecer	a
ligação.	Em	conseqüência	decidi	me	colocar	no	lugar	de	sua	irmã.	Acabo	de
me	apoderar	de	quarenta	mil	dólares	em	dinheiro.	Tenho	de	sair	da	cidade,	e
depressa.	Para	onde	ir?	Para	o	Canadá,	o	México,	as	índias	Ocidentais?	Muito
arriscado.	Além	disso,	não	tive	tempo	de	fazer	planosde	longo	alcance.	O	meu
impulso	natural	teria	sido	vir	diretamente	procurar	o	namorado...
Sam	 deu	 um	murro	 tão	 forte	 na	 mesa	 da	 cozinha,	 que	 os	 tocos	 de	 cigarro
saltaram	para	fora	do	cinzeiro.
\u2014	Já	chega!	bradou	êle	\u2014	o	sr.	não	tem	direito	de	fazer	essas	acusações.	Até
aqui	ainda	não	apresentou	sequer	uma	prova	do	que	acaba	de	dizer!
Arbogast	apalpou	o	bôlso,	à	procura	de	mais	um	cigarro.
\u2014	Quer	uma	prova,	não	é?	O	que	acha	que	andei	fazendo	na	estrada	desde
quarta-feira	de	manhã?	Foi	quando	achei	o	carro.
\u2014	Achou	o	carro	de	minha	irmã?	exclamou	Lila,	levantando-se.
\u2014	Claro!	Tive	um	palpite	 engraçado:	que	uma	das	primeiras	 coisas	que	 ela
faria	 seria	 encostar	 o	 carro.	 Procurei	 todos	 os	 revendedores	 e	 alugadores	 de
carros	 de	 segunda	 mão,	 dando	 a	 descrição	 do	 dela	 e	 o	 número	 da	 chapa.
Valeu	 a	 pena.	 Não	 demorou	 muito,	 encontrei.	 Exibi	 ao	 sujeito	 minhas
credenciais	e	êle	desembuxou.	Depressinha!	Parecia	que	o	carro	lhe	queimava
as	mãos.	Não	refutei	o	que	êle	disse.	Mary	Crane	fechara	o	negócio	às	pressas,
na	noite	 de	 sexta-feira,	 um	pouco	 antes	 de	 se	 fechar	 a	 casa.	Teve	um	bruto
prejuízo	na	 troca.	Obtive	 tôdas	as	 informações	e	uma	completa	descrição	da
lata	velha	em	que	ela	saiu.	Dirigiu-se	para	o	norte.	Eu	também	me	dirigi	para	o
norte.	 Eu	 não	 podia	 andar	 muito	 depressa.	 Tinha	 um	 palpite:	 de	 que	 ela
aderiria	à	estrada,	de	vez	que	se	dirigia	para	cá.	Talvez	que	na	primeira	noite
guiasse	 em	 linha	 reta.	 Durante	 oito	 horas,	 eu	 também	 guiei	 em	 linha	 reta.
Depois	 fiquei	um	 tempo	enorme	 rodando	em	 tôrno	da	cidade	de	Oklahoma,
inspecionando	motéis	da	estrada	e	postos	de	carros	para	alugar.	Imaginei	que
ela	 podia	 trocar	 de	 carro,	 para	 se	 sentir	mais	 segura.	Mas	qual!	Quarta-feira
cheguei	 até	Tulsa.	A	mesma	rotina,	os	mesmos	resultados.	Só	hoje	de	manhã
foi	que	achei	a	agulha	no	palheiro.	Outro	pôsto	de	carros	para	alugar,	outro
revendedor,	 exatamente	 ao	norte	 dali.	Ela	 fêz	 a	 segunda	 troca	na	manhã	do
último	 sábado:	 apanhou	 outra	 lata	 velha	 e	 acabou	 num	 Plymouth	 azul	 de
1953,	com	o	para-choque	fronteiro	amassado.
Arbogast	tirou	do	bôlso	um	livro	de	notas.Está	tudo	aqui	\u2014	o	branco	no	preto.
A	marca,	 o	 número	 do	motor	\u2014	 tudo.	 Os	 dois	 revendedores	mandaram	 fazer
cópias	fotostáticas	de	tudo	e	as	remeterão	para	meu	escritório.	Mas	agora	isso	já
não	tem	importância.	O	importante	é	saber	que	Mary	Crane	se	dirigia	para	o	norte
ao	 sair	 de	Tulsa,	 tomando	pela	 estrada	principal	 no	 sábado	de	manhã,	 após	 ter
trocado	de	carro	duas	vêzes	nas	últimas	dezesseis	horas.	Na	minha	opinião,	era
êste	o	lugar	a	que	ela	queria	chegar.	E	a	menos	que	tivesse	acontecido	qualquer
coisa	 inesperada	\u2014	 um	 enguiço	 do	 carro,	 talvez	 um	 acidente	\u2014	 ela	 devia	 ter
chegado	aqui	no	sábado	à	noite.
\u2014	Não	chegou,	afirmou	Sam.	\u2014	Não	a	vi.	Olhe:	posso	arranjar	uma	prova,	se
a	desejar.	Na	noite	do	último	sábado	eu	estava	no	Salão	da	Legião,	 jogando
baralho.	Há	muitas	testemunhas.	No	domingo	de	manhã	fui	à	igreja.	Ã	tarde
jantei	no...
Arbogast	levantou	a	mão	pachorrenta.
\u2014	O.K.,	compreendo	o	que	quer	dizer.	Não	a	viu.	Logo,	deve	ter	acontecido
alguma	coisa.	Vou	voltar	a	procurar.
\u2014	E	 que	 diz	 da	 Polícia?	 consultou	 Lila.	 Continuo	 achando	 que	 o	 sr.	 deve
dirigir-se	à	Polícia.	E	umedeceu	os	lábios.	\u2014	Suponha-se	que	tivesse	havido
um	acidente.	Não	seria	possível	investigar	todos	os	hospitais	entre	Fairvale	 e
Tulsa.	É	igualmente	possível	ela	ter	perdido	os	sentidos	em	alguma	parágem.
Pode	até...
Desta	vez	foi	Sam	quem	lhe	bateu	no	ombro.
\u2014	 Tolice,	 murmurou	 \u2014	 se	 tivesse	 acontecido	 algo	 assim,	 já	 nos	 teriam
avisado.	 Mary	 está	 indene.	 E	 por	 sôbre	 os	 ombros	 de	 Lila	 olhou	 para	 o
investigador.	\u2014	O	sr.	não	pode	fazer	tudo	sòzinho,	disse.	\u2014	Lila	está	muito
certa.	Por	que	não	dar	parte	à	Polícia?	Dar	parte	do	desaparecimento	de	Mary.
Quem	sabe	a	Polícia	poderá	localizá-la.
Arbogast	apanhou	o	Stetson	cor	de	cinza.
\u2014	Confesso	que	até	agora	tomei	pelo	caminho	mais	difícil.	Pois	se	pudermos
localizá-la	 sem	 para	 isso	 apelar	 para	 as	 autoridades,	 pouparíamos	 ao	 nosso
cliente	 e	 à	 companhia	 uma	 enxurrada	 de	má	 publicidade.	Não	 só	 isso,	mas
também	 poderíamos	 poupar	 muito	 aborrecimento	 a	 Mary	 Crane,	 caso	 nós
mesmos	 a	 encontremos	 e	 recuperemos	 o	 dinheiro.	 Quem	 sabe	 se	 até
evitaríamos	o	processo.	Devem	concordar	em	que	vale	a	pena	o	esfôrço.
\u2014	Mas	se	o	sr.	tem	razão,	e	se	Mary	chegou	até	aqui,	então	por	que	ela	não
me	veio	ver?	É	isso	o	que	eu	estranho,	tanto	quanto	o	senhor,	insistiu	Sam.	\u2014
E	não	vou	aguardar	muito	tempo	para	descobrir.
\u2014	Quer	esperar	mais	vinte	e	quatro	horas?	propôs	Arbogast.
\u2014	Em	que	está	pensando?
\u2014	Em	continuar	 a	 investigação,	 conforme	disse.	\u2014	E	Arbogast	 espichou	 a
mão,	 para	 impedir	 qualquer	 objeção	 de	 Sam.	 \u2014	 Nada	 de	 refazer	 todo	 o
caminho	até	Tulsa;	confesso	que	isso	é	impossível.	Mas	eu	gostaria	de	farejar
um	pouco	esta	zona	\u2014	visitar	os	restaurantes	da	estrada,	os	postos	de	gasolina,
os	 revendedores	 de	 carros,	 os	 motéis...	 Talvez	 alguém	 a	 tenha	 visto.	 Pois
continuo	 considerando	 bom	 o	meu	 palpite.	A	 intenção	 dela	 era	 vir	 para	 cá.
Talvez	mudasse	 de	 idéia	 depois	 que	 chegou,	 e	 continuasse	 a	 rodar.	Mas	 eu
gostaria	de	averiguar	isso.
\u2014	E	se	nada	descobrir	nas	próximas	vinte	e	quatro	horas?
\u2014	Então	 ficaremos	 quites:	 darei	 parte	 à	 Polícia	 e	 iniciaremos	 as	 buscas	 de
rotina,	referentes	a	Pessoas	Desaparecidos.	O.K.?
Sam	fitou	Lila.
\u2014	Que	acha?	perguntou.
\u2014	Não	sei.	Estou	tâo_	apreensiva	que	não	posso	pensar.	Sam,	decida	você	\u2014
e	Lila	suspirou.
Sam	acenou	com	a	cabeça	para	Arbogast.
\u2014	Muito	bem.	Fica	combinado.	Mas	desde	já	fique	certo:	se	nada	acontecer
até	amanhã,	e	se	o	sr.	não	notificar	à	Polícia,	eu	notificarei.
Arbogast	vestiu	o	paletó.
\u2014	Acho	que	vou	arranjar	um	quarto	no	hotel.	E	a	sra.,	miss	Crane?
Lila	olhou	para	Sam.
\u2014	 Irei	 com	 ela	 daqui	 a	 pouco,	 respondeu	 Sam.	 \u2014	 Primeiro	 pensei
Elioesio
Elioesio fez um comentário
Bem interessante! Conheci a história por meio do seriado Bates Motel, assistir o filme psicose e agora comecei a ler o livro. Obrigado!
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Mickael
Mickael fez um comentário
obrigado. pensei que nunca acharia esse livro
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Ana
Ana fez um comentário
Obrigada Mariana!
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Natalia
Natalia fez um comentário
arrasou !
2 aprovações
Amanda
Amanda fez um comentário
Muito obrigada Mariana, estava procurando este livro :)
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