Psicose - Robert Bloch

Psicose - Robert Bloch


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em
comermos	 alguma	 coisa.	 Mas	 tomarei	 conta	 dela.	Amanhã	 estaremos	 aqui.
Ficaremos	à	sua	espera.
Pela	 primeira	 vez	 naquela	 noite	 Arbogast	 sorriu.	 Não	 era	 um	 sorriso	 que
pudesse	concorrer	com	o	da	Gioconda,	mas	em	todo	caso	era	um	sorriso.
\u2014	Acredito	em	vocês,	declarou	êle.	\u2014	Desculpem	se	os	apertei,	mas	tive	de
investigar.	Sacudiu	a	cabeça	para	Lila:
\u2014	Vamos	tratar	de	descobrir	o	paradeiro	de	sua	irmã.	Não	fique	apreensiva.
	
Em	seguida	saiu.	Muito	antes	que	a	porta	da	frente	se	fechasse	por	trás	dêle,
Lila	 começou	 a	 soluçar,	 encostada	 ao	 ombro	 de	Sam.	Sua	 voz	 era	 um	gemido
abafado.
\u2014	Sam,	tenho	mêdo...	alguma	coisa	aconteceu	a	Mary...	eu	sei	que	aconteceu!
\u2014	Tudo	está	bem,	consolou-a	êle,	 lamentando	não	haver	palavras	melhores,
porque	nunca	havia	palavras	melhores	do	que	essas	para	responder	ao	mêdo,	à
mágoa	e	à	solidão.	\u2014	Tudo	está	bem,	acredite.
Ela	porém	recuou	de	súbito	e	escancarou	os	olhos	lacrimosos.	Quando	pôde
falar,	a	voz	saiu-lhe	consumida,	mas	firme:
\u2014	 Por	 que	 hei-de	 acreditar	 em	 você,	 Sam?	 perguntou	 suavemente.	\u2014	 Há
alguma	razão?	Alguma	razão	que	você	não	disse	ao	investigador?	Sam,	Mary
estêve	 aqui?	 Você	 sabia	 dessa	 história,	 sabia	 alguma	 coisa	 a	 respeito	 do
dinheiro?
Êle	sacudiu	negativamente	a	cabeça.
\u2014	Não.	Não	sabia.	Tem	que	acreditar	em	minha	palavra,	Lila.	Assim	como	eu
tenho	que	acreditar	na	sua.
Ela	virou	as	costas	e	encarou	a	parede.
\u2014	Acho	que	você	tem	razão,	disse.	\u2014	Mary	podia	ter	procurado	qualquer	um
de	nós	dois	no	decorrer	da	semana.	E	não	o	fêz.	Confio	em	você,	Sam.	Mas	é
tão	difícil	a	gente	acreditar	em	alguma	coisa,	quando	a	nossa	própria	irmã	nos
saiu	uma...	uma...
\u2014	 Calma,	 atalhou	 Sam.	\u2014	Agora	 você	 precisa	 é	 de	 algum	 alimento	 e	 de
descanso.	Amanhã	as	coisas	não	estarão	tão	prêtas...
\u2014	Pensa	realmente	assim,	Sam?
\u2014	Penso,	sim.
Era	a	primeira	vez	que	êle	mentia	a	uma	mulher.
	
	
Capítulo	8
	
	
O	AMANHÃ	 se	 transformara	 em	 hoje,	 sábado,	 e	 para	 Sam	 era	 o	 tempo	 da
espera.
Ao	redor	das	nove	horas	telefonou	do	armazém	para	Lila,	já	de	pé	e	almoçada.
Arbogast	não	estava:	devia	ter	saído	muito	cedo,	mas	deixara	no	andar	térreo	um
bilhete	para	Lila,	dizendo	pretender	procurá-la	durante	o	dia.
\u2014	Por	quê	não	vem	me	 fazer	 companhia?	 sugeriu-lhe	Sam,	 ao	 telefone.	\u2014
Não	tem	propósito	ficar	fechada	aí	no	quarto.	Venha,	e	almoçaremos	juntos.
Depois	 iremos	 ao	hotel,	 perguntar	 se	Arbogast	 nos	procurou.	Melhor	 ainda:
pedirei	 à	 telefonista	 que	 transfira	 para	 o	 armazém	 todos	 os	 telefonemas
dirigidos	a	você.
Lila	concordou	e	Sam	ficou	mais	aliviado.	Não	queria	que	ela	ficasse	sozinha,
mormente	naquele	dia.	Era-lhe	fácil	ficar	obcecada	com	Mary;	Deus	sabia	que	êle
próprio	não	vivera	outra	coisa	a	noite	tôda.
Esforçara-se	para	repelir	a	idéia,	mas	reconheceu	que	a	teoria	de	Arbogast	era
muito	 lógica.	 Mary	 devia	 ter	 planejado	 visitá-lo	 depois	 que	 se	 apossou	 do
dinheiro.	Isto	é,	se	na	verdade	o	furtara...
E	essa	era	a	pior	parte:	aceitar	Mary	como	ladra.	Mary	não	era	dessa	laia	de
mulher.	Tudo	quanto	sabia	a	respeito	dela	o	refutava.
Mas,	afinal,	até	que	ponto	realmente	conhecia	Mary	Crane?	Ainda	na	véspera
refletira	sôbre	o	insuficiente	conhecimento	que	tinha	da	sua	prometida.	Conhecia-
a	tão	mal	que	tomara	Lila	por	ela	à	luz	frouxa	do	corredor...
Engraçado,	 pensava	 Sam,	 como	 acreditamos	 conhecer	 completamente	 uma
pesosa,	só	porque	a	vemos	algumas	vêzes	ou	porque	nos	sentimos	ligados	a	ela
por	 um	 elo	 emotivo.	 Ali	 mesmo	 em	Fairvale	 havia	 exemplos:	 Tomkins,	 por
exemplo,	 muito	 tempo	 superintendente	 escolar,	 e	 grande	 Rotariano,	 mas
abandonou	 a	 família	 por	 uma	 garôta	 de	 dezesseis	 anos!	 Quem	 poderia	 jamais
prever	uma	coisa	dessas?	Ou	prever	que	Mike	Fisher,	o	maior	devasso	e	jogador
desta	parte	do	Estado,	 iria	morrer	deixando	tudo	o	que	possuia	para	o	Orfanato
Presbiteriano?	 Ou	 que	 Bob	 Summerfield,	 seu	 empregado	 no	 armazém,	 ali
trabalhara	mais	de	um	ano,	antes	que	êle	soubesse	que	o	mesmo	fôra	expulso	do
serviço	militar,	 por	 ter	 tentado	 rebentar	 o	 crâneo	do	 capelão	 com	a	 coronha	da
pistola...	Naturalmente,	agora	nada	tinha	a	censurar	a	Bob:	sujeito	assim	bondoso
e	caladão	não	se	encontraria	nem	numa	centena	de	anos.	Entretanto,	também	fôra
bondoso	 e	 caladão	 no	 Exército,	 até	 que	 alguma	 coisa	 o	 pôs	 fora	 dos	 eixos.	 E
ninguém	 reparara	 antes.	 Excelentes	 senhoras	 de	 idade	 de	 repente	 se	 desfaziam
dos	maridos	após	vinte	anos	de	felicidade	conjugal;	humildes	empregadinhos	de
banco	 súbito	 levantavam	 acampamento,	 causando	 prejuízos	 de	 milhares	 de
dólares...	com	efeito,	quem	podia	prever	os	acontecimentos	futuros?
Talvez	Mary	tivesse	mesmo	furtado	aquêle	dinheiro.	Talvez	estivesse	cansada
de	esperar	que	êle	acabasse	de	pagar	as	dívidas,	e	fôsse	subjugada	pela	repentina
tentação.
Quem	sabe	pensara	em	trazer	o	dinheiro	ali,	inventar	uma	história,	fazer	com
que	êle	o	aceitasse...	Talvez	fizesse	planos	de	fugirem	juntos.	Tinha	de	confessar
honestamente	essa	possibilidade	e	até	a	probabilidade	dêsse	desfêcho.
Admitido	isso,	restava-lhe	encarar	ainda	outra	questão:	por	que	ela	não	viera?
Para	onde	poderia	ter	se	encaminhado	ao	deixar	as	vizinhanças	de	Tulsa?
Uma	vez	iniciada	a	cogitação	sôbre	êsse	assunto,	considerado	que	realmente
ninguém	 sabia	 como	 funciona	 o	 cérebro	 de	 outra	 pessoa,	 então	 a	 gente	 se	 vê
diante	 da	 última	 alternativa:	 tudo	 era	 possível.	 A	 resolução	 de	 dar	 um	 salto
alucinado	até	Las	Vegas;	um	súbito	impulso	de	levar	sumiço	e	encetar	vida	nova
sob	um	nome	suposto;	um	ataque	traumático	de	culpa,	resultando	em	amnésia...
Mas	já	êle	transformava	o	caso	em	um	caso	federal,	pensava	Sam,	com	os	seus
botões;	ou	um	caso	clínico.	Se	se	perdesse	nesses	altos	raciocínios	teria	de	admitir
mil	e	uma	alternativas.	Que	Mary	sofrerá	um	acidente,	conforme	Lila	receava;	ou
que	fôra	surpreendida	por	alguém	que	lhe	pediu	carona	e	que...
Tornou	 a	 repelir	 a	 idéia.	Não	 podia	 continuar.	 Já	 bastava	 guardá-la	 para	 si,
sem	o	acréscimo	de	ainda	precisar	escondê-la	de	Lila.	Cabia-lhe,	naquela	altura,
animar	a	moça.	Havia	sempre	a	débil	esperança	de	que	Arbogast	encontrasse	uma
pista.	 Se	 não	 encontrasse,	 êle,	 Sam,	 recorreria	 às	 autoridades.	 E	 só	 então
permitiria	a	si	próprio	pensar	o	pior	sôbre	as	coisas.
E	falar	no	conhecimento	que	se	tem	de	outras	pessoas,	quando	a	gente	nem	a
si	 própria	 se	 conhece	 Êle	 nunca	 suspeitara	 que	 pudesse	 algum	 dia	 alimentar
tamanha	 dúvida	 e	 desconfiança	 com	 referência	 a	 Mary.	 Entretanto,	 com	 que
facilidade	 adotara	 essa	 atitude.	 Não	 era	 justo.	 O	 menos	 que	 podia	 fazer,	 para
expiar	sua	falta,	era	esconder	da	irmã	suas	suspeitas.
A	menos	que	ela	também	pensasse	a	mesma	coisa...
Mas	 Lila	 parecia	mais	 animada,	 aquela	manhã.	Vestira	 um	 costume	 leve,	 e
quando	entrou	no	armazém,	foi	com	passo	elástico.
Sam,	 a	 apresentou	 a	 Bob	 Summerfield,	 depois	 a	 levou	 para	 almoçar.
Inevitàvelmente	ela	começou	a	falar	a	respeito	de	Mary	e	do	que	Arbogast	estaria
fazendo	 àquela	 hora.	 Sam	 respondia	 lacônicamente,	 procurando	manter	 em	um
nível	de	indiferença	as	respostas	e	o	tom	de	voz.	Depois	do	almôço	foi	ao	hotel	e
combinou	a	 transferência	para	o	 armazém	de	qualquer	 chamado	dirigido	 a	Lila
durante	a	tarde.
Depois	ambos	regressaram	para	a	loja	de	ferragens.	O	dia	estava	bonito	para
um	sábado,	e	a	maior	parte	do	tempo	Sam	pôde	ficar	conversando	com	a	moça	no
quarto	 dos	 fundos.	 Summerfield	 atendia	 os	 freguêses,	 e	 só	 eventualmente	 Sam
tinha	de	pedir	licença	e	ir	atender	pessoalmente	certos	assuntos.
Dir-se-ia	 que	Lila	 estava	 descansada	 e	 sentia-se	 à	 vontade.	 Ligou	 o	 rádio	 e
escolheu	um	programa	sinfônico,	que	se	pôs	a	escutar,	aparentemente	absorvida.
Sam	a	encontrou	sentada	ali	ao	voltar	de	uma	das	idas	ao	armazém.
Elioesio
Elioesio fez um comentário
Bem interessante! Conheci a história por meio do seriado Bates Motel, assistir o filme psicose e agora comecei a ler o livro. Obrigado!
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Mickael
Mickael fez um comentário
obrigado. pensei que nunca acharia esse livro
1 aprovações
Ana
Ana fez um comentário
Obrigada Mariana!
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Natalia
Natalia fez um comentário
arrasou !
2 aprovações
Amanda
Amanda fez um comentário
Muito obrigada Mariana, estava procurando este livro :)
4 aprovações
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