Psicose - Robert Bloch

Psicose - Robert Bloch


DisciplinaLivros14.596 materiais90.345 seguidores
Pré-visualização33 páginas
que	nem	ao	menos	ela	viu	a	garôta!	E	Norman	caminhou	para	a
frente	 do	 balcão.	\u2014	Além	 disso,	 não	 é	 possível	 falar	 com	 ela.	 Está	 muito
doente.	O	 coração	dava-	 lhe	 socos	dentro	do	peito	 e	 êle	 teve	de	gritar	mais
forte	do	que	os	socos	para	ser	ouvido:	\u2014	Proíbo-lhe	vê-la!
\u2014	 Nesse	 caso,	 voltarei	 com	 uma	 autorização	 para	 realizar	 diligência.	 O
homem	era	um	fanfarrão.	Agora	Norman	percebia-o.
\u2014	Mas	isso	é	ridículo!	Ninguém	lha	daria!	Quem	ia	acreditar	que	roubei	um
carro	velho?
Arbogast	acendeu	outro	cigarro,	atirou	o	fósforo	no	cinzeiro.	..
\u2014	Receio	que	não	esteja	entendendo,	murmurou,	quase	com	doçura.	\u2014	Não
se	trata	absolutamente	do	carro,	apenas.	É	que	essa	garôta	\u2014	Mary	Crane	\u2014
roubou	quarenta	mil	dólares	em	dinheiro	de	uma	firma	de	corretagem	de	Fort
Worth...
\u2014	Quarenta	mil...
\u2014	 Isso	mesmo.	E	 sumiu	 com	o	 dinheiro.	Como	 vê,	 é	 negócio	muito	 sério.
Razão	por	quê	é	 importante	 tôda	e	qualquer	 informação	que	eu	possa	obter.
Razão	por	quê	volto	a	insistir	em	falar	com	sua	mãe.	Com	ou	sem	permissão
sua.
\u2014	 Mas	 já	 lhe	 disse	 que	 ela	 não	 sabe	 de	 nada,	 que	 está	 doente,	 que	 está
muitíssimo	doente...
\u2014	Prometo	não	aludir	a	qualquer	coisa	que	a	possa	perturbar	\u2014	e	Arbogast
fêz	 uma	 pausa.	\u2014	Mas	 se	 prefere	 que	 eu	 venha	 aqui	 com	 o	 xerife	 e	 uma
licença	para...
\u2014	Não.	E	Norman	sacudiu	muito	a	cabeça,	no	aceno	negativo.	\u2014	Não	deve
fazer	isso.
Hesitava,	mas	agora	já	não	havia	razão	para	hesitar.	Quarenta	mil	dólares!
Não	admirava	que	o	detetive	fizesse	tantas	perguntas.	Claro,	êle	podia	arranjar
uma	licença,	não	adiantava	fazer	cena..-.	Não	só	isso,	mas	havia	também	aquêle
casal	 de	 Alabama	 para	 atrapalhar.	 Não	 tinha	 outra	 saída,	 absolutamente
nenhuma	outra	saída.
\u2014	Está	bem.	Pode	ir	falar	com	ela.	Mas	permita	que	eu	vá	na	frente,	preveni-
la.	Não	quero	que	chegue	de	supetão	o	a	deixe	nervosa.
Andou	até	à	porta.	\u2014	Espere	aqui,	para	o	caso	de	chegar	alguém
\u2014	O.K.	Arbogast	confirmou	com	um	aceno	de	cabeça,	enquanto	Norman	se
precipitava	para	a	aléia.
A	subida	do	morro	não	era	lá	essas	coisas,	mas	Norman	pensou	que	nunca	a
terminaria.	 Seu	 coração	 estrondava	 como	 naquela	 noite,	 e	 agora	 era	 como
naquela	noite	\u2014	nada	mudara.	Não	importa	o	que	se	faça,	a	verdade	é	que	não	se
pode	 fugir	 de	 qualquer	 coisa	 que	 se	 faça.	 Não	 se	 pode	 fugir	 \u2014	 nem	 se
comportando	 como	 bom	 menino,	 nem	 se	 comportando	 como	 adulto.	 Não
adiantava	\u2014	 porque	 êle	 era	 O	 que	 era,	 e	isso	 não	 bastava.	 Não	 bastava	 para
salvá-lo,	 não	 bastava	 para	 salvar	 a	 mãe.	 Se	 pudesse	 receber	 alguma	 ajuda,	 só
poderia	ser	dela.
Abriu	a	porta	da	frente,	subiu	a	escada	e	entrou	no	quarto.	Pretendia	explicar-
lhe	calmamente,	mas	quando	a	viu	sentada	 junto	da	 janela,	não	pôde	se	conter.
Tremeu	e	soluços	lhe	irromperam	o	peito	\u2014	que	terríveis	soluços!	\u2014	e	êle	pôs	a
cabeça	no	colo	da	mãe	e	principiou	a	falar.
\u2014	Está	bem,	disse	a	velha,	sem	surprêsa.	\u2014	Vamos	cuidar	dliso.
\u2014	Mãe...	 se	 a	 sra.	 falasse	com	êle...	 um	minuto	que	 fôsse...	Se	 lhe	dissesse
que	não	sabe	nada...	talvez	êle	fosse	embora.
\u2014	Mas	voltaria.	Quarenta	mil	dólares	é	muito	dinheiro.	Por	quê	você	não	me
contou	isso?
\u2014	Não	sabia.	Juro	que	não	sabia!
\u2014	Acredito.	Mas	êle	não	 acredita.	Não	acredita	 em	você	não	acreditará	 em
mim.	Talvez	pense	que	estamos	 todos	conluiados.	Ou	que	demos	sumiço	na
garôta,	para	ficar	com	o	dinheiro.	Está	vendo	como	é?
\u2014	Mãe...	E	Norman	cerrou	os	olhos,	sem	poder	fitá-la.
\u2014	Que	pensa	fazer?
\u2014	Vou	me	vestir.	Devo	estar	pronta	para	 esperar	 a	visita	dêle.	Vou	apenas
apanhar	alguns	objetos	no	banheiro.	Volte	e	diga	a	mr.	Arbogast	que	suba.
\u2014	Não.	Não	posso.	Não	o	trarei	aqui.	Não	o	trarei,	pois	a	sra.	vai...
E	não	pôde	dizer	nada	mais	nem	fazer	o	menor	movimento,	Queria	desmaiar,
mas	nem	isso	o	salvaria	do	que	estava	para	suceder.
Dentro	em	pouco	mr.	Arbogast	se	cansaria	de	esperar.	Encaminhar-se-ia	para
a	casa,	bateria	à	porta,	abri-la-ia	e	entraria.	E	quando	entrasse...
\u2014	Mãe,	escute	aqui!
Ela	 já	 não	 lhe	 dava	 ouvidos:	 estava	 no	 banheiro,	 vestia-	 se,	 maquiava-se,
aprontava-se.	Estava,	se	aprontando.
E	de	repente	deslisou	para	fora,	vestindo	o	seu	lindo	vestido	cheio	de	folhos.
O	rosto	coberto	de	pó-de-arroz,	rouge	nas	faces,	\u2014	bonita	como	uma	pintura.	Ao
começar	descer	a	escada,	sorria.
A	meio	caminho,	ouviu	baterem	à	porta.
A	coisa	começava	a	acontecer.	Mr.	Arbogast	chegara.	Norman	quis	gritar	por
êle,	advertí-lo...	mas	havia	qualquer	coisa	fechando-lhe	a	garganta.	Só	pôde	ouvir
a	mãe	gritando	jovialmente:
\u2014	Já	vou!	Já	vou!	Um	minuto	só!
Com	efeito,	foi	apenas	um	minuto.
A	mãe	 abriu	 a	 porta	 e	mr.	Arbogast	 entrou.	Olhou	 para	 ela,	 depois	 abriu	 a
bôca	para	dizer	alguma	coisa.	E	ao	fazê-lo,	ergueu	a	cabeça,	e	era	só	o	que	ela
esperava:	estendeu	o	braço	e	um	objeto	brilhante	lampejou	para	frente	e	para	trás,
para	frente	e	para	trás...
Feria-lhe	os	olhos,	e	Norman	não	quis	olhar.	Não	precisava	olhar:	 já	sabia	o
que	era	aquilo.
A	mãe	descobrira	a	sua	navalha...
	
	
Capítulo	10
	
	
NORMAN	sorriu	para	o	sr.	idoso	e	disse:
\u2014	Aqui	está	a	sua	chave.	São	dez	dólares	pelos	dois.
A	mulher	do	sr.	idoso	abriu	a	bôlsa:
\u2014	Tenho	o	dinheiro	aqui,	Homer.
E	pôs	uma	nota	no	balcão,	 fazendo	a	Norman	um	sinal	 com	a	cabeça.	Mas
repentinamente	deixou	de	acenar,	seus	olhos	se	estreitaram	e	ela	perguntou:
\u2014	Que	tem?	Não	está	bom?
\u2014	Não...	 é	 isso...	Creio	que	estou	um	pouco	 fatigado.	Logo	estarei	melhor.
Agora	vou	fechar.
\u2014	Tão	cedo?	Pensei	que	os	moteis	estivessem	sempre	abertos.	Principalmente
nos	sábados	à	noite.
\u2014	Aqui	o	movimento	não	é	muito	grande.	Além	disso,	são	quase	dez	horas.
Quase	dez	horas.	Já	fazia	quase	quatro	horas.	Meu	Deus!
\u2014	Compreendo.	Então,	boa	noite.
\u2014	Boa	noite.
O	 casal	 se	 fôra,	 e	 êle	 podia	 enfim	 sair	 de	 trás	 do	 balcão,	 apagar	 a	 luz	 do
letreiro	 na	 fachada	 e	 fechar	 o	 escritório.	Mas	 primeiro	 ia	 tomar	 um	 trago,	 um
grande	trago	\u2014	precisava	beber.	Não	tinha	importância	êle	beber	ou	não	beber.
Que	importava	isso	agora?	Tudo	findara.	Tudo	findara...	ou	quem	sabe	se	estava
apenas	começando?
Já	tomara	vários	tragos.	Tomara	uma	dose	logo	que	voltou	ao	motel,	cêrca	de
seis	horas,	e	então	foi	tomando	uma	dose	por	hora.	Se	não	tomasse,	como	seria
capaz	de	aguen-	tnr?	Como	seria	capaz	de	estar	ali,	sabendo	o	que	havia	na	casa
lá	em	cima,	em	baixo	do	tapete	do	vestíbulo.	Foi	ali	que	o	deixara,	sem	qualquer
outra	mudança.	Apenas	 revirara	as	pontas	do	 tapete	para	cobrir.	O	 sangue	 fôra
abundante,	mas	 ainda	 assim	 não	 encharcara	 a	 cobertura.	Além	disso,	 que	mais
poderia	êle	ter	feito	naquela	hora?	Quê	mais,	com	dia	claro?	Agora,	naturalmente,
precisava	 voltar.	 Dera	 à	 mãe	 ordens	 rigorosas	 para	 que	 não	 tocasse	 em	 coisa
alguma,	e	sabia	que	ela	obedeceria.	Coisa	estranha:	depois	do	que	fizera,	tornara
a	 ficar	 prostrada.	 Parecia	 ter	 coragem	 para	 qualquer	 coisa	 (era	 a	 fase	maníaca,
segundo	os	psiquiatras);	mas	uma	vez	acabada,	afrouxava	e	era	êle	que	tinha	de
tomar	providências.	Dissera-lhe	que	voltasse	para	o	quarto	e	não	se	deixasse	ver	à
janela.	Que	ficasse	deitada	até	que	êle	voltasse.	E	trancar	a	porta	à	chave.
Agora,	porém,	precisava	ir	abri-la.
Norman	 fechou	 o	 escritório	 e	 saiu.	 O	 Buick	 estava	 ali	\u2014	 o	 Buick	 de	 mr.
Arbogast,	estacionado	onde	o	dono	o	deixara.
Não	seria	maravilhoso	se	êle	pudesse	entrar	no	carro	e	ir-se	embora	dali?	Para
bem	longe...	Nunca	mais	voltar...	Para	longe	do	motel,	da	mãe,	daquela	coisa	que
jazia	debaixo	do	tapete	no	vestíbulo...
A	 tentação	 o	 dominou,	 irresistível.	 Mas	 um	 momento,	 apenas.	 Depois	 se
acalmou.	Sacudiu	os	ombros.	Não	adiantava	fugir;	sabia-o...	Não	podia	ir	longe
bastante	a	ponto	de	se	sentir	em	segurança.	Não	só	isso,	mas	aquela	coisa	estava
à	espera,	à	espera	dêle...
Olhou	acima	e	abaixo,	na	estrada.	Depois	olhou	no	Número	Um	e	no
Elioesio
Elioesio fez um comentário
Bem interessante! Conheci a história por meio do seriado Bates Motel, assistir o filme psicose e agora comecei a ler o livro. Obrigado!
0 aprovações
Mickael
Mickael fez um comentário
obrigado. pensei que nunca acharia esse livro
1 aprovações
Ana
Ana fez um comentário
Obrigada Mariana!
2 aprovações
Natalia
Natalia fez um comentário
arrasou !
2 aprovações
Amanda
Amanda fez um comentário
Muito obrigada Mariana, estava procurando este livro :)
4 aprovações
Carregar mais