Psicose - Robert Bloch

Psicose - Robert Bloch


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mr.	Arbogast	 devia	 ter	 descoberto
alguma	 coisa.	 Talvez	 importante.	 Pode	 ser	 que	 êle	 e	 Bates	 tivessem	 saído
juntos.	Deve	ser	por	isso	que	não	recebemos	notícia.
\u2014	Sam,	não	estou	compreendendo	grande	coisa	em	tudo	isso.	Preciso	saber!
\u2014	E	também	precisa	comer!
E	Sam	lhe	estendeu	um	bojudo	saco	de	papel.
\u2014	 Na	 volta,	 parei	 num	 restaurante,	 comprei	hamburgers	 e	 café.	 Vamos	 lá
para	os	fundos.
Quando	acabaram	de	comer,	seriam	onze	horas	passadas.
\u2014	Olhe	aqui,	disse	Sam.	\u2014	Por	quê	não	vai	descansar	um	pouco	no	hotel?
Não	adianta	ficarmos	os	dois	sentados	aqui.
\u2014	Mas...
\u2014	Vamos.	Não	adianta	 a	gente	 se	 atormentar.	Parece	que	 acertei.	Arbogast
localizou	o	paradeiro	de	Mary	e	teremos	notícias	pela	manhã.	Boas	notícias,
No	domingo	de	manhã,	não	chegaram	as	boas	notícias.
Mais	ou	menos	às	nove	horas,	Lila	 já	estava	sacudindo	a	porta	da	 frente	do
armazém	de	ferragens.
\u2014	 Soube	 alguma	 coisa?	 indagou	 logo.	 E	 quando	 Sam	 abanou	 a	 cabeça
negativamente	ela	franziu	a	testa.	\u2014	Pois	eu	soube:	ontem	de	manhã	Arbogast
estêve	no	hotel,	investigando.	Antes	de	qualquer	outra	coisa.
Sam	não	respondeu.	Apanhou	o	chapéu	e	saiu	com	ela	do	armazém.
No	 domingo	 de	manhã	 as	 ruas	 de	Fairvale	 estavam	desertas.	O	 edifício	 do
Tribunal	ficava	nos	fundos	de	uma	praça	de	Main	Street,	rodeado	de	gramados.
Num	 dos	 cantos,	 a	 estátua	 de	 um	 veterano	 da	 Guerra	 Civil,	 daquela	 espécie
fundida	aos	milhares	para	ornamentar	relvados	de	tribunais	em	tôda	a	superfície
do	 país.	 Os	 três	 lados	 restantes	 exibiam,	 respectivamente,	 um	 morteiro	 de
trincheira	da	Guerra	Hispano-Americana,	um	canhão	da	Primeira	Guerra	Mundial
e	 uma	 coluna	 de	 granito	 onde	 se	 inscreviam	 os	 nomes	 de	 catorze	 cidadãos	 de
Fairvale,	mortos	 na	 Segunda	Guerra,	 E	 havia	 bancos	 nos	 quatro	 lados,	 àquela
hora	vazios.
O	edifício,	 pròpriamente,	 estava	 fechado,	mas	 a	 sala	do	xerife	 se	 situava	no
anexo.	Os	 cidadãos	 de	Fairvale	 ainda	 se	 referiam	a	 êle	 como	o	 "novo\u201d	anexo,
embora	existisse	desde	1940.	A	porta	lateral	estava	aberta.	Sam	e	Lila	entraram,
subiram	a	escada	e	passaram	do	corredor	para	o	escritório.
O	velho	Peterson	estava	de	serviço,	sentado	sòzinho	à	mesa	da	frente.
\u2014	Bom	dia,	Sam.
\u2014	Bom	dia,	mr.	Peterson.	O	xerife	já	voltou?
\u2014	Não.	Já	soube	do	roubo	no	Banco?	Os	ladrões	acabam	de	furar	a	barricada
na	estrada	de	Parnassus.	A	Polícia	Federal	saiu	em	perseguição.	Mandei	um
aviso...
\u2014	Onde	está	o	xerife?
\u2014	Chegou	muito	tarde	ontem	de	noite...	isto	é,	hoje	de	madrugada...
\u2014	Deu	meu	recado	a	êle?
O	velho	hesitou.
\u2014	Acho...	 acho	 que	 não	 dei.	A	 comoção	 foi	 grande	 por	 aqui.	 E	 Peterson
passou	a	mão	pela	bôca.	Mas	 ia	dar	o	seu	recado	ainda	hoje.	Assim	que	êle
chegar.
\u2014	A	que	horas	será	isso?
\u2014	Creio	que	logo	depois	do	almoço.	Domingo	de	manhã	êle	está	na	igreja.
\u2014	Que	igreja?
\u2014	Primeira	Igreja	Batista.
\u2014	Obrigado.
\u2014	Mas	você	não	vai	tirá-lo	para	fora	da...
Sam	virou	as	costas	e	não	respondeu.	Os	saltos	de	Lila	castanholavam	a	seu
lado	no	corredor.
\u2014	Afinal	de	contas,	\u2014	que	sertão	é	êste	?	resmungou	ela.
\u2014	Assalta-se	um	banco	e	o	xerife	está	na	 igreja!	Que	 faz	 lá?	Rezando	para
que	alguém	capture	os	ladrões	para	êle?
Sam	não	respondeu.	Ao	chegarem	à	rua,	Lila	voltou	a	perguntar:
\u2014	Onde	vamos?
\u2014	À	Primeira	Igreja	Batista,	naturalmente.
Não	 foi	 preciso	 incomodarem	 o	 xerife	 Chambers	 em	 suas	 devoções.	 Ao
dobrarem	uma	esquina	viram	que	o	culto	já	havia	terminado	e	que	os	fieis	saiam
do	alto	edifício	eriçado	de	torres.
\u2014	Lá	vem	êle,	apontou	Sam.	\u2014	Vamos.
E	a	conduziu	para	 junto	de	um	casal	postado	na	calçada.	A	mulher	era	uma
nulidade	 \u2014	 baixinha,	 com	 um	 vestido	 estampado,	 escolhido	 num	 catálogo	 e
recebido	por	via	postal;	o	homem	era	alto,	tinha	ombros	largos	e	uma	pança	em
franca	projeção.	Vestia	 terno	de	sarja	azul,	e	seu	pescoço	rubro,	de	rugas	como
cicatrizes,	 contorcia-se	 em	rebelião	 contra	 a	 disciplina	 de	 um	 alto	 colarinho
engomado.	 Tinha	 cabelos	 crespos	 e	 grisalhos,	 e	 negras	 sobrancelhas,	 também
crespas.
\u2014	Um	minuto,	Xerife,	pediu	Sam	\u2014	preciso	lhe	falar.
\u2014	Sam	Loomis,	como	vai?	e	o	xerife	Chambers	estendeu	a	Sam	a	sua	grande
mão	vermelha.	\u2014	Mamãe,	êste	aqui	é	Sam.	Já	o	conhece?
\u2014	Apresento-lhes	Lila	Crane.	Miss	Crane	 está	 aqui	 de	 visita.	Veio	 de	 Fort
Worth.
\u2014	 Prazer	 em	 conhecê-la.	 Não	 é	 de	 você	 que	 o	 velho	 Sam	 vive	 falando?
Nunca	disse	que	era	tão	bonita...
\u2014	Está	pensando	em	minha	 irmã,	 respondeu	 iLila.	\u2014	É	por	causa	dela	que
viemos	procurá-lo.
\u2014	 Não	 podíamos	 ir	 conversar	 um	 minuto	 no	 escritório?	 atalhou	 Sam.	 \u2014
Assim	explicaríamos	a	situação.
\u2014	Decerto!	Por	que	não?	Chambers	se	voltou	para	a	senhora.
\u2014	Mamãe,	por	quê	não	 toma	o	carro	e	vai	para	casa?	Também	irei	daqui	a
pouco;	assim	que	despachar	êstes	dois.
Mas	 o	 \u201cdaqui	 a	 pouco\u201d	 se	 espichou.	 Uma	 vez	 no	 escritório	 do	 xerife
Chambers,	Sam	desfiou	a	história.	Mesmo	sem	interrupções,	isso	levou	uns	vinte
minutos.	E	o	xerife	frequentemente	o	interrompia.
\u2014	Agora	vamos	aclarar	bem	isso,	disse	êle	concluindo.
\u2014	Êsse	sujeito,	êsse	Arbogast,	o	procurou.	Por	quê	não	me	consultou	antes?
\u2014	Já	expliquei:	queria	evitar	recorrer	às	autoridades.	Pensava	poder	encontrar
miss	 Crane	 e	 rehaver	 o	 dinheiro	 sem	 maior	 complicação	 para	 a	 Agência
Lowery.
\u2014	Disse	que	êle	lhe	exibiu	credenciais?
\u2014	Sim,	confirmou	Lila.	\u2014	Era	investigador	acreditado	junto	à	Companhia	de
Seguros.	E	conseguiu	achar	a	pista	de	minha	irmã	até	aquêle	motel.	E	estamos
apreensivos,	porque	êle	não	voltou,	embora	tivesse	dito	que	voltaria.
\u2014	Mas	êle	estava	no	motel	quando	você	foi	lá?
A	pergunta	era	dirigida	a	Sam.
\u2014	Não	havia	lá	ninguém,	Xerife.
\u2014	Curioso.	Muito	curioso.	Conheço	o	sujeito	que	dirige	aquilo.	Está	sempre
lá.	Dificilmente	se	ausenta,	uma	hora,	que	fôsse,	para	vir	à	cidade.	Já	 tentou
falar	 com	 êle	 esta	manhã?	Quer	 que	 eu	 tente?	 Provàvelmente	 dormia	 como
uma	 pedra	 quando	 você	 esteve	 lá	 ontem	 de	 noite.	 A	 manopla	 vermelha
apanhou	o	fone.
\u2014	 Não	 fale	 a	 respeito	 do	 dinheiro,	 sugeriu	 Sam.	\u2014	Apenas	 pergunte	 por
Arbogast,	para	ver	o	que	diz.
Chambers	sacudiu	afirmativamente	a	cabeça.
\u2014	Deixe	comigo,	sussurrou,	sei	lidar	com	essas	coisas.
Fêz	a	ligação	e	esperou.
\u2014	Alô...	 Bates?	 É	 você?	 Fala	 o	 xerife	 Chambers.	 Está	 bem.	 Quero	 uma
pequena	 informação	 de	 você.	 Está	 aqui	 uma	 gente	 procurando	 localizar	 um
sujeito	 chamado	Arbogast.	 Milton	Arbogast,	 de	Fort	Worth.	 É	 investigador
particular	 de	 um	 caso	 relacionado	 com	 uma	 firma	 que	 se	 chama	 Paridade
Mútua...	Êle	o	quê?	Oh,	sim?	Quando	foi	isso?	Entendo.	Que	disse	êle?	Está
bem,	 pode	 dizer.	 Já	 sei	 tudo	 a	 êsse	 respeito.	 Sim...	Outra	 vez?	 Sim,	 sim.	E
depois	 foi-se	 embora,	 heim?	 Disse	 para	 onde	 ia?	 Oh,	 acha	 que	 foi	 isso?
Decerto!	Não:	é	só.	Trapalhada?	Nenhuma!	Só	achei	que	êle	podia	ter	vindo
aqui.	Diga,	enquanto	há	tempo:	será	que	êle	não	voltou	para	aí	tarde	da	noite?
Oh,	compreendo.	Creio	que	basta.	Obrigado	pela	informação,	Bates.
Pendurou	o	fone	no	gancho,	fêz	girar	a	poltrona	para	os	olhar	de	frente.
\u2014	Parece	que	o	seu	homem	foi	para	Chicago,	declarou.
\u2014	Chicago?
Chambers	acenou	afirmativamente.
\u2014	Claro.	A	moça	 dissera	 que	 ia	 para	 lá.	Êsse	 seu	 amigo	Arbogast	 está	me
parecendo	um	investigador	meio	mole...
\u2014	Que	quer	dizer?	Que	respondeu	Bates?	\u2014	E	Lila	se	inclinou	para	frente.
\u2014	A	mesma	coisa	que	Arbogast	disse	ontem	de	noite	quando	os	chamou	de
lá.	 Sua	 irmã	 dormiu	 no	 hotel	 sábado	 passado,	 mas	 se	 registrou	 com	 nome
suposto.	 Disse	 chamar-se	 Jane	 Wilson	 e	 que	 era	 de	San	 Antonio.	 Deixou
escapar	que	ia	para	Chicago.
\u2014	Então	não	era	Mary.	Ela	não	conhece	ninguém	em	Chicago!	Nunca	estêve
lá	em	tôda	a	vida!
\u2014	 Segundo	 Bates,	 Arbogast	 tinha	 certeza	 de	 que	 era	 ela	 mesma.	 Até
comparou	as	letras.	A	descrição	que	fêz	dela,	o	carro	\u2014	tudo	combinava.
Elioesio
Elioesio fez um comentário
Bem interessante! Conheci a história por meio do seriado Bates Motel, assistir o filme psicose e agora comecei a ler o livro. Obrigado!
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Mickael
Mickael fez um comentário
obrigado. pensei que nunca acharia esse livro
1 aprovações
Ana
Ana fez um comentário
Obrigada Mariana!
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Natalia
Natalia fez um comentário
arrasou !
2 aprovações
Amanda
Amanda fez um comentário
Muito obrigada Mariana, estava procurando este livro :)
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