Psicose - Robert Bloch

Psicose - Robert Bloch


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na	fechadura,	abrisse.
Êle	se	despediu:
\u2014	Boa	noite,	durma	bem.
\u2014	Obrigada.	Agradeço	também	a	hospitalidade.
Êle	abriu	a	bôca,	depois	se	voltou	para	sair.	Foi	a	 terceira	vez	naquela	noite
que	ela	o	viu	corar.
Mary	 trancou	 a	 porta	 com	 a	 chave.	 Ouviu	 os	 passos	 que	 se	 afastavam,	 e
depois	 o	 estalido	 da	 porta	 do	 escritório,	anexo.	 Não	 o	 ouviu	 ir	 para	 a	 casa	 da
ladeira.	 Estava	 ocupada	 em	 desarranjar	 as	 malas.	 Tirou	 fora	 o	 pijama,	 as
sandálias,	 um	pote	 de	cold-cream,	uma	escôva	de	dentes,	o	dentifrício...	depois
ficou	 tateando	o	 interior	da	grande	valise,	procurando	o	vestido	que	 tencionava
vestir	na	manhã	seguinte,	quando	fôsse	ao	encontro	de	Sam.	Tinha	de	pendurá-lo
agora	para	desamassar.	Nada	devia	estar	fora	do	lugar	quando	Ttivesse	de	partir
dali.
Nada	devia	estar	fora	do	lugar...
E	repentinamente	já	não	se	sentia	da	altura	de	dois	metros...	A	mudança	fôra
assim	 tão	 rápida?	Ou	 começara	 quando	mr.	 Bates	 se	mostrara	 tão	 histérico	 na
casa	da	ladeira?	Que	dissera	êle,	que	realmente	a	desinflara?
Não	há	quem	não	seja	meio	louco	de	vez	em	quando...
Abriu	um	lugar	na	cama	e	sentou-se.
Sim.	 Era	 verdade.	 Todos	 somos	 meio	 loucos	 de	 vez	 em	 quando.	 Ela	 fôra
louca	 na	 tarde	 da	 véspera.	 Ficara	 louca	 ao	 ver	 tanto	 dinheiro	 em	 cima	 da
escrivaninha	pensando	que	podia	se	safar	com	o	plano	que	ideara.	Dir-se-ia	um
sonho	transformado	em	realidade...	Um	sonho.	Um	sonho	louco.	Agora	o	sabia.
Talvez	pudesse	despistar	a	Polícia.	Mas	Sam	faria	perguntas.	Quem	era	êsse
parente	que	 lhe	deixara	 tanto	dinheiro?	Onde	morava?	Por	que	nunca	antes	 lhe
falara	ela	a	 tal	 respeito?	Por	quê	 trazia	o	dinheiro	em	espécie?	Mr.	Lowery	 lhe
consentira	deixar	o	emprêgo	assim	de	repente?
E	havia	ainda	Lila.	Suponha-se	que	reagisse	como	Mary	previra...	que	viesse	a
seu	encontro	antes	de	ir	depor...	\u2014	que	até	concordasse	em	ficar	calada	no	futuro
por	 que	 lhe	 devia	 obrigações	 ..	Mesmo	 assim	 permanecia	 o	 fato:	 Lila	sabia.	 E
surgiriam	complicações...
Mais	cedo	ou	mais	tarde	Sam	quereria	ir	visitar	Lila,	ou	convidá-la	para	que	os
visitasse.	E	o	enguiço	estaria	armado.	Não	poderia	 futuramente	manter	 relações
com	a	irmã;	nem	poderia	explicar	a	Sam	por	quê	não	as	mantinha,	por	quê	não	ia
fazer	uma	visita	ao	Texas...
Tudo	isso	era	loucura.
E	era	demasiado	tarde	para	remediar.
Seria	mesmo?
Suponha-se	que	ela	dormisse	um	bom	sono	\u2014	um	sono	que	durasse	umas	dez
horas...	O	dia	 seguinte	 era	 um	domingo.	Se	 saísse	 às	 nove	 e	 fôsse	 diretamente
para	 a	 cidade,	 lá	 chegaria	na	 segunda-feira	de	manhã.	Antes	de	Lila	 chegar	de
Dallas,	antes	que	o	banco	se	abrisse...	Podia	depositar	o	dinheiro	e	dali	mesmo	se
encaminhar	para	o	escritório.
Claro,	 ia	 sentir	 um	 cansaço	mortal.	Mas	 nem	 por	 isso	 morreria	 e	 ninguém
jamais	ficaria	sabendo	o	que	acontecera.
Naturalmente,	 restava	o	carro.	Levaria	alguns	minutos	para	explicar	a	Lila	a
presença	do	carro.	Talvez	pudesse	dizer	que	 fôra	a	Fairvale	com	 a	 intenção	de
fazer	 uma	 surprêsa	 de	 fim-de-semana	 a	 Sam.	 O	 carro	 enguiçara,	 tivera	 de
encostá-lo;	 o	 negociante	 dissera	 que	 precisava	 um	motor	 novo.	 Decidira	 então
deixá-lo	no	consêrto,	apanhar	essa	lata	velha	e	voltar	para	casa.
Sim:	a	explicação	parecia	aceitável.
Quando	fêz	as	contas,	verificou	que	essa	viagem	lhe	custara	aproximadamente
setecentos	dólares.	Era	êsse	o	valor	do	carro.
Mas	valia	a	pena	pagar.	Setecentos	dólares	não	é	muito	em	troca	da	sanidade
mental.	Em	troca	da	segurança,	em	troca	da	futura	segurança...
Levantou-se.
Era	isso	o	que	ia	fazer.
E	sentiu-se	novamente	da	altura	de	dois	metros...	Tão	simples!
Se	fôsse	religiosa,	teria	rezado.	Como	não	era,	sentiu	uma	curiosa	sensação	\u2014
que	palavra	 era?	\u2014	de	 predestinação.	Como	 se	 tudo	 quanto	 acontecera	 tivesse
fatalmente	de	ter	acontecido.	Ter-se	enganado	no	caminho,	parar	naquele	motel,
encontrar	 aquêle	 homem	 patético,	 assistir-lhe	 a	 explosão,	 ouvir-lhe	 a	 última
sentença,	que	a	fizera	voltar	a	si...	-
Houve	um	momento	em	que	poderia	ter	caminhado	para	êle...	para	lhe	dar	um
beijo;	mas	 logo	 imaginou,	 com	 um	 frouxo	 de	 riso,	 qual	 seria	 o	 efeito	 sôbre	 o
pobre	toleirão.	Provàvelmente	desmaiaria.
Tornou	a	rir.	Era	bom	ter	dois	metros	de	altura...	mas	a	questão	era	saber	se,
então,	ela	caberia	no	box	do	chuveiro...	E	era	isso	o	que	faria	agora	mesmo:	tomar
um	 longo	 e	 tépido	 banho	 de	 chuveiro...	 Tirar	 a	 sujeira	 do	 corpo,	 exatamente
como	daí	a	pouco	iria	tirar	a	sujeira	da	alma...
Vem	pura,	Mary	Vem	pura	como	a	neve...
Entrou	na	sala	de	banho,	sacudiu	dos	pés	os	sapatos	e	se	abaixou	para	tirar	as
meias.	Depois	ergueu	os	braços,	puxou	o	vestido	pela	cabeça,	atirou-o	no	quarto
ao	lado.	O	vestido	caiu	longe	da	cama.	Pouco	importava.	Desabotoou	o	soutien,
arremessou-o	em	arco,	deixou-o	flutuar...	Agora,	a	calcinha...
Demorou-se	 em	 frente	 ao	 espêlho	 da	 porta,	 a	 examinar-	 se.	 Talvez	 o	 rosto
tivesse	vinte	e	sete	anos,	mas	o	corpo	era	elástico,	alvo	e	não	tinha	mais	de	vinte	e
um.	Era	 bem	 feita.	 Tremendamente	 bem	 feita.	 Sam	gostará	 que	 ela	 seja	 assim.
Queria-o	 ali	 para	 admirá-la.	 Era	 um	 inferno	 ter	 de	 esperar	mais	 dois	 anos.	 Ela
porém	 haveria	 de	 recuperar	 o	 tempo	 perdido.	 Dizem	 que	 uma	 mulher	 não	 é
sexualmente	madura	antes	dos	trinta.	Trataria	de	averiguar	se	isso	era	verdade...
Emitiu	 uma	 risadinha,	 esboçou	 uns	 passos	 de	 bailarina	 amadora,	 atirou	 um
beijo	à	sua	imagem	no	espêlho	e	recebeu	outro	de	volta.	Depois	entrou	no	box	do
chuveiro.	A	água	estava	quente	e	ela	teve	de	misturar	um	pouco	da	torneira	fria.
Afinal	 abriu	 completamente	 ambas	 as	 torneiras	 e	 deixou	 aquela	 tepidez	 jorrar
sôbre	seu	corpo.
O	barulho	da	água	ensurdecia	e	o	quarto	se	enchia	de	vapor.
E	assim	não	ouviu	se	abrir	a	porta,	nem	rumor	de	passos.	A	princípio,	quando
a	cortina	do	chuveiro	também	se	abriu,	o	vapor	embaçou,	aquêle	rosto.	Então	ela
viu	 \u2014	 não	 mais	 que	 um	 rosto,	 como	 uma	 máscara,	 a	 espiar	 pela	 cortina
entreaberta.	 Um	 lenço	 escondia-lhe	 os	 cabelos.	 Os	 olhos	 vidrados	 fitavam-na,
inumanos.	Não	era	máscara,	não	podia	ser.	Uma	camada	de	pó-de-arroz	de	um
branco	 mortal	 tapava-lhe	 as	 feições,	 exceto	 as	 maçãs	 do	 rosto	 onde	 se
concentravam	duas	rosas	héticas	de	rouge.	Não	era	máscara.	Era	o	rosto	insano
de	uma	velha	louca.
Mary	começou	a	gritar.	Então	a	cortina	se	abriu	totalmente	e	apareceu	a	mão
empunhando	uma	faca	de	açougueiro.	E	foi	a	faca	que	pouco	depois,	decepou-
lhe	o	grito.
E	a	cabeça	também.
	
	
Capítulo	4
	
	
AO	ENTRAR	no	escritório,	Norman	tremia.	Acontecera	muita	coisa	junta.	Não
podia	trazer	tudo	engarrafado	por	mais	tempo.
Garrafa...	 Era	 o	 de	 que	 precisava:	 um	 trago.	 Tinha	 mentido	 à	 moça,
naturalmente.	 Era	 verdade	 que	 a	 mãe	 não	 admitia	 alcool	 em	 casa	\u2014	mas	 êle
bebia.	Guardava	a	garrafa	no	escritório.	Havia	ocasiões	em	que	era	preciso	beber
\u2014	embora	 seu	 estômago	 não	 suportasse	 o	 álcool,	 embora	 bastassem	uns	 goles
para	ficar	tonto.	Havia	ocasiões	em	que	desejava	embriagar-se...
Lembrou-se	de	descer	a	veneziana	e	apagar	a	luz	do	letreiro.	Pronto!	Fechado
para	a	noite.	Descidas	as	venezianas,	ninguém	repararia	na	luz	frouxa	da	lâmpada
da	escrivaninha.	Ninguém	o	veria	abrir	a	gaveta,	puxar	a	garrafa,	mãos	trêmulas
como	as	de	uma	criança	agarrando	a	mamadeira.	Ê	hora	de	dar	a	mamadeira	ao
garôto...
Empinou	a	garrafa.	Bebeu.	Fechando	os	olhos.	O	uísque	queimava,	e	isso	era
bom.	Para	queimar	a	amargura.	O	uísque	desceu	garganta	abaixo,	foi	explodir	no
estômago.	Talvez	mais	um	trago	também	queimasse	aquela	sensação	de	mêdo.
Um	 êrro	 ter	 convidado	 a	 moça	 para	 cear	 na	 casa.	 Soubera-o	 no	 mesmo
instante	 em	 que	 abrira	 a	 bôca,	 mas	 era	 tão	 bonita,	 parecia	 tão	 exausta	 e
desamparada.	Êle	sabia	o	que	era	estar	exausto	e	desamparado,	sem
Elioesio
Elioesio fez um comentário
Bem interessante! Conheci a história por meio do seriado Bates Motel, assistir o filme psicose e agora comecei a ler o livro. Obrigado!
0 aprovações
Mickael
Mickael fez um comentário
obrigado. pensei que nunca acharia esse livro
1 aprovações
Ana
Ana fez um comentário
Obrigada Mariana!
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Natalia
Natalia fez um comentário
arrasou !
2 aprovações
Amanda
Amanda fez um comentário
Muito obrigada Mariana, estava procurando este livro :)
4 aprovações
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