Correspondencia Completa entre Jung e Freud
674 pág.

Correspondencia Completa entre Jung e Freud


DisciplinaLivros14.653 materiais90.406 seguidores
Pré-visualização50 páginas
los, especialmente Jung, passaram a dar atenção aos \u2018experimentos de asso­
ciação\u2019.\u201d
4 Hológrafo: Ihr collegial ergebener. (Ver a introdução no que concerne 
às fórmulas de cortesia em geral.)
43
2 J
Burghölzli-Zurique, 5 de outubro de 19061
Caro Professor Freud,2
Queira aceitar meu agradecimento mais sincero pelo presente 
que gentilmente me enviou. Essa coletânea de seus estudos breves8 
há de ser bem recebida por todos aqueles que desejam familiarizar-se 
rápida e abrangentemente com seu modo de pensar. É de se esperar 
que o número de seus seguidores em ciência continue a aumentar no 
futuro, a despeito dos ataques que Aschaffenburg,4 aplaudido pelas 
sábias autoridades, fez à sua teoria \u2014 dir-se-ia mesmo à sua própria 
pessoa. O que de mais lamentável há nesses ataques é que, a meu 
ver, Aschaffenburg se apega a exterioridades, quando os méritos de 
sua teoria se encontram no domínio psicológico, do qual os psicólogos 
e psiquiatras modernos têm uma compreensão bem limitada. Não faz 
muito, mantive com Aschaffenburg uma animada correspondência3 
sobre sua teoria e pude então defender esse ponto de vista, que talvez, 
Professor, nem mereça sua concordância integral. O que valorizo 
acima de tudo, e tem sido de grande ajuda no trabalho psicopatoló- 
gico que aqui desenvolvemos, é a sua concepção psicológica; com 
efeito, ainda me encontro muito longe de compreender a terapia e a 
gênese da histeria, pois é bastante insatisfatório o material de que
1 Para o timbre impresso (numa folha de 21 x 30,5 cm ), ver o fac-símile 2. 
Jung morava, então, com a mulher e dois filhos, num apartamento no prédio 
principal do Burghölzli, na parte leste de Zurique. Ver foto I. / Essa carta foi 
publicada em Letters, ed. G. Adler, v. 1.
2 Hológrafo: Hochgeehrter Herr Professor, uma saudação ainda mais 
formal. Na carta seguinte, Jung adotou a formula algo mais deferente Hochve­
rehrter Herr Professor, que com variações ocasionais usou até 111 J.
3 Sammlung kleiner Schriften zur Neurosenlehre, V. 1 (Viena, 1906) = Co­
letânea de artigos breves sobre a Teoria da Neurose, em vários volumes da 
SE; a maior parte dos compreendidos no v. 1, bem como o prefácio, estão 
na SE III.
4 Gustav Aschaffenburg (1866-1944), professor de psiquiatria e neurologia 
em Heidelberg e, mais tarde, em Halle e Colônia; nos E.U.A. depois de 1939, 
ensinou e praticou em Baltimore e Washington. Sua crítica foi feita no Con­
gresso de Neurologistas e Psiquiatras Alemães do Sudoeste, Baden-Baden, 27 
de maio de 1906; publicada como \u201cDie Beziehungen des sexuellen Lebens zur 
Entstehung von Nerven und Geisteskrankheiten\u201d, Münchener medizinische Wo­
chenschrift, LIII:37 (11-9-06). Ver Jones, II, p. 124-111.
5 Correspondência essa que se encontra aparentemente perdida.
44
dispomos sobre ela. Quero dizer que sua terapia não me parece 
depender apenas dos afetos liberados por ab-reação, mas também de 
certas relações (rapports) pessoais,5a e acredito que a gênese da 
histeria, embora predominantemente sexual, não o seja exclusiva­
mente. Encaro de igual modo sua teoria da sexualidade. Insistindo 
apenas nessas delicadas questões teóricas, Aschaffenburg se esquece 
do essencial, sua psicologia, da qual sem dúvida a psiquiatria há de 
colher um dia recompensas sem fim. Espero mandar-lhe em breve 
um pequeno livro6 meu onde, partindo de sua posição, abordo a 
psicologia da demência precoce. Nesse livro publiquei também o 
caso7 que despertou a atenção de Bleuler* para a existência de seus 
princípios, se bem que na época com obstinada resistência da parte 
dele. Mas a conversão de Bleuler, como o senhor deve saber, é agora 
completa.
Renovando meus agradecimentos, subscrevo-me
Respeitosamente,8 c. g . j u n g
7 de outubro de 1906, Viena, IX. Berggasse 19 
Caro colega,
Sua carta me deu grande prazer. Folgo especialmente em saber 
que o senhor fez a conversão de Bleuler. Seus escritos já me haviam 
sugerido que sua aceitação de minha psicologia não se estende a
\u2019 4-
3 F
Qr
5a Cf. adiante, 19 J n. 1.
8 \u201cA Psicologia da Demência Precoce\u201d ; ver adiante, 9 J n. 1.
7 Provavelmente o caso de B. St., ibid., CW 3, § 198 s.
8 Paul Eugen Bleuler (1857-1939), professor de psiquiatria na Universi­
dade de Zurique e diretor do Hospital Burghõlzli. Em 1898, após 12 anos como 
diretor do hospício de Rheinau (cantão de Zurique), sucedeu a Forel (ver 17 J 
n. 4) no Burghõlzli, permanecendo à sua frente até 1927. Um dos grandes 
pioneiros da psiquiatria, reviu todo o conceito de demência precoce, passando 
a chamá-la de esquizofrenia (no que concerne a seu influente livro, ver 272 J 
n. 7 ); deu importantes contribuições, trabalhando sob o impacto direto do 
método psicanalítico, para a compreensão do autismo e da ambivalência. Na 
realidade, pode ter-se tornado receptivo às idéias de Freud ainda em 1901, 
quando incumbiu Jung de falar à equipe do Burghõlzli sobre a interpretação 
de sonhos freudiana. A vida inteira, io i um defensor da abstinência alcoólica.
Seu Lehrbuch der Psychiatrie (.1916; trad. A. A. Brill, Livro de Textos de
Psiquiatria, 1924) é ainda um clássico.
8 Hológrafo: M it vorziiglicher Hochachtung / Ihr dankbar engebener.
aSTITUiO ^ MLOSOMA 45
g, CIÊNCIAS SOCIAIS
todos os meus pontos de vista sobre a histeria e o problema da 
sexualidade, mas me atrevo a esperar que, com o passar dos anos, 
o senhor chegue muito mais perto de mim do que julga possível atual­
mente. Tendo em vista sua esplêndida análise de um caso de neurose 
obsessiva,' ninguém melhor que o senhor há de saber quão perfeita­
mente se oculta o fator sexual e, uma vez descoberto, quão valioso 
pode ser para nossa compreensão e terapia. Continuo esperando que 
esse aspecto de minhas investigações venha a se mostrar o mais 
significativo.
Por questão de princípio, mas também pelo desagrado que me 
causa a entonação pessoal, não responderei ao ataque de Aschaffen- 
burg. Desnecessário porém dizer que o julgaria em termos bem mais 
severos que os seus. No estudo dele nada encontro senão vacuidades, 
além de uma ignorância invejável dos assuntos que critica. Ele ainda 
pega em armas contra o método hipnótico, que foi abandonado há 
dez anos, e nenhuma compreensão demonstra do simbolismo mais 
simples (veja a nota de pé de página),2 cuja importância qualquer 
estudante de lingüística ou folclore lhe poderia incutir, já que ele não 
se dispõe a me dar crédito. Como a tantos de nossos sábios motiva-o 
principalmente a inclinação de reprimir a sexualidade, esse fator 
incômodo que a boa sociedade não recebe bem. Temos aqui dois 
mundos antagônicos, e logo será óbvio para todos qual se acha em 
declínio, qual em ascensão. Mesmo assim sei que tenho pela frente 
uma longa luta e, em virtude de minha idade (50), não acredito 
muito que chegue a presenciar o fim. Mas meus seguidores o verão, 
é o qoe espero, tal como espero que os que forem capazes de vencer 
a resistência interior à verdade queiram se pôr sem exceção eníre 
meus seguidores, eliminando do pensamento os últimos vestígios de 
pusilanimidade. Nada mais sei sobre Aschaffenburg, mas a opinião 
que esse estudo me deixa a respeito dele é muito pobre.
Aguardo ansiosamente seu próximo íivro sobre Dem. precoce. 
Devo confessar que, sempre que vem à luz uma obra como a sua ou 
a de Bleuler, sou possuído pela grande e para mim indispensável 
satisfação de saber que o árduo trabalho de uma vida inteira não foi 
totalmente inútil.
Sinceramente, d r . f r e u d
Minha \u201ctransferência\u201d há de preencher por completo a lacuna 
no mecanismo de cura (sua \u201crelação [rapport] pessoal\u201d ).
1 \u201c Psychoanalysis and Association Experiments\u201d , CW 2, esp. § 666.
2 N ota 18 no estudo de Aschaffenburg.
46
Burghõlzli-Zurique, 23 de outubro de 1906
Caro Professor Freud,
Nesta mesma data tomo a liberdade de lhe remeter outra sepa­
rata com algumas novas