Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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pesquisas sobre psicanálise,1 Não creio que 
o ponto de vista \u201csexual\u201d por mim adotado lhe pareça excessivamente 
cauteloso. Os críticos por conseguinte hão de investir contra ele.
£ possível que minhas reservas quanto às suas concepções tão 
amplas sejam devidas, como o senhor mesmo notou, à falta de expe­
riência. Mas não lhe parece que há um número de fenômenos fron­
teiriços que com maior propriedade podem ser considerados em 
termos do outro impulso básico \u2014 a fome? Refiro-me por exemplo 
ao ato de comer, de sugar (predominantemente fome), de beijar 
(predominantemente sexualidade). A existência simultânea de dois 
complexos sempre os destina a misturar-se psicoiogicamente de modo 
que um deles invariavelmente contém aspectos do outro. Talvez seja 
apenas isso o que o senhor pretende dizer; nesse caso, eu o interpretei 
mal, e partilho integralmente de sua opinião. Mesmo assim, no 
entanto, é bastante assustador o modo positivo como o senhor apre­
senta suas teorias. Embora correndo o risco de incomodá-lo devo 
falar-lhe de minha experiência mais recente. Trato no momento, 
utilizando seu método, de uma histérica. Caso difícil; uma estudante 
russa de 20 anos, doente há 6 -
Primeiro trauma entre os 3 e os 4 anos. Viu o irmão mais 
velho, com as nádegas nuas sendo espancado pelo pai. Impressão 
forte. Daí para a frente não conseguiu deixar de pensar que tinha 
defecado na mão do pai. Dos 4 aos 7 anos, tentativas convulsivas 
de defecar nos próprios pés, da seguinte maneira: sentava-se no chão 
sobre um dos pés e premia o calcanhar contra o ânus, tentando ao 
mesmo tempo defecar e impedir a defecação. Não raro retinha as 
fezes por 2 semanas! Ela não sabe como chegou a essa solução 
peculiar; diz que tudo era completamente instintivo e acompanhado
4 J
1 Ao que tudo indica, \u201cAssodiation, Traum und hysteriches Symptom\u201d , 
Journal für Psychologie und Neurologie, VIII (1906-7) = \u201cAssociação, Sonho 
e Sintomas Histéricos\u201d , CW 2. / Jung usou aqui a grafia Psychoanalyse, em ­
bora preferisse depois Psychanalyse. Cf. 7 J n. 2.
2 O caso é descrito em \u2019T h e Freudian Theory of H ysíeria\u201d , CW 4, § 53-58 
(orig. um a intervenção em Amsterdam, 1907).
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por sentimentos dúbios, misto de horror e prazer. Mais tarde o fenô­
meno foi substituído por uma masturbação frenética,
Eu lhe ficaria extremamente grato se me dissesse em poucas 
palavras o que pensa dessa história.
Atenciosamente, c. g . j u n g
5 F
27 de outubro de 1906, Viena, IX. Berggasse 19
Caro colega,
Muito obrigado pela nova análise. O senhor decerto não demons­
trou uma reserva excessiva, e a \u201ctransferência\u201d, a maior prova de 
que o impulso por trás de todo o processo é de natureza sexual, 
parece lhe ter ficado muito clara. Quanto às críticas, o melhor é 
esperar até que os críticos tenham adquirido experiência própria antes 
de darmos importância a elas.
Não faço qualquer objeção teórica à concessão de igual impor­
tância ao outro impulso básico, desde que ele se evidencie inequivo­
camente nas psiconeuroses. O que dele vemos, na histeria e nas 
neuroses obsessivas, pode facilmente ser explicado pelas anastomoses 
existentes entre ambos, ou seja, pelo enfraquecimento do componente 
sexual do impulso alimentar. Mas reconheço que estamos diante de 
questões intricadas que ainda exigem uma investigação mais profunda. 
Por enquanto contento-me em assinalar o que é de evidência ímpar, 
ou seja, o papel da sexualidade. É possível que venhamos a descobrir 
mais tarde alhures, nas psicoses ou na melancolia, o que deixamos 
de descobrir na histeria e na neurose obsessiva.
É bom saber que é uma estudante a moça de que o senhor fala; 
para os nossos propósitos as pessoas sem instrução ainda são inacessí­
veis. A história da defecação é curiosa e sugere numerosas analogias. 
Talvez o senhor se lembre da afirmação que faço, em minha Teoria 
da Sexualidade,1 de que mesmo as crianças de tenra idade extraem 
prazer da retenção das fezes. O período entre 3 e 4 anos é o mais 
importante para essas atividades sexuais, que mais tarde se incluem 
entre as patogênicas (ibid). A visão de um irmão que é espancado
1 Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (orig. 1905): II, \u201cSexualidade 
Infantil\u201d , Ed. Standard Bras,, VII, p. 191.
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desperta um vestígio de memória relativo ao período de 1 a 2 anos, 
ou uma fantasia transposta para esse período. Não é incomum que 
os bebês sujem as mãos de quem os pega no colo. No caso dela não 
poderá ter ocorrido tal coisa? E isso aviva a lembrança das carícias 
do pai durante a infância. Fixação infantil da libido no pai \u2014 a 
escolha típica do objeto; auto-erotismo anal. A posição escolhida por 
ela pode ser decomposta em elementos, pois ao que parece há ainda 
outros fatores que lhe foram acrescentados. Que fatores? Deve ser 
possível, pelos sintomas e mesmo pelo caráter, reconhecer a exci­
tação anal como motivação. Tais pessoas freqüentemente exibem 
combinações típicas de traços de caráter. São extremamente asseadas, 
avarentas e obstinadas, traços que, por assim dizer, são sublimações 
do erotismo anal.2 Casos como esse, baseados em perversões repri­
midas, podem ser analisados de modo muito satisfatório.
Como o senhor vê, não me incomodou em nada. Suas cartas 
dão-me um grande prazer.
Com a mais sincera estima do
DR. FREUD
6 J
Burghõlzli-Zurique, 26 de novembro de 1906
Caro Professor Freud,
Segue na mesma data uma separata com minha réplica à confe­
rência de Aschaffenburg.1 Moldei-a um pouco à minha posição subje­
tiva e talvez por isso o senhor não concorde integralmente com ela. 
Espero não tê-lo interpretado mal! Escrevi, de qualquer modo, com 
honesta convicção. Por acaso também me foi dado defender sua 
causa no congresso dos alienistas em Tübingen,2 diante de uma
2 Dois anos mais tarde Freud desenvolveu essa idéia em \u201cCharacter and 
Anal Erotism\u201d (orig. 1908), SE IX. Ver 77 F n. 6.
1 \u201cDie Hysterielehre Freud\u2019s: Eine Erwiderung auf die Aschaffenburg\u2019sche 
Kritik\u201d, Münchener medizinische Wochenschrift, LIII:47 (20-11-06) = \u201cA 
teoria da Histeria de Freud: uma Resposta a Aschaffenburg\u201d, CW 4.
2 Congresso dos Psiquiatras Alemães do Sudoeste, 3/4-11-06. Ver Zentral­
blatt für Nervenheilkunde und Psychiatrie, n.s., XVIII (março de 1907), p. 185, 
para o informe, citando Jung.
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oposição acirrada; o Geheimrat Hoche3 distinguiu-se em particular 
peio vazio da argumentação. Por sorte o Prof. Gaupp4 se pôs então 
ao nosso lado, timidamente, mas pelo menos admitindo que o assunto 
merecia exame.
Há pouco dei início à análise de outra neurose obsessiva \u2014 um 
colega alemão \u2014 naturalmente com complexos sexuais que remon­
tam aos 7 anos! Bastou uma primeira sessão para que a ansiedade 
desaparecesse, mas nesse ínterim demonstrou forte tendência a retor­
nar, naturalmente apenas em reação a traumas. Parece-me da maior 
importância prognostica para a terapia saber se estão presentes dispo­
sições para tiques e hábitos estereotipados de pensamento bem estabe­
lecidos (separação habitual do desagradável). Pela minha experiência, 
o \u201chistérico habitual\u201d geralmente reage mal à análise.
Talvez lhe interesse saber que o Dr. Frank,5 ex-diretor do Hos­
pício de Münsterlingen, passou a usar seu método analítico com 
grande sucesso, conquistando em pouco tempo uma boa clientela. 
Outro especialista praticante é o Dr. Bezzola,6 médico-chefe do Sana­
tório de Schloss Hard, no cantão de Thurgau. Eles são unânimes em 
considerar seu método como uma nova abertura para a prática neuro­
lógica. Disseram o mesmo, recentemente, em Tiibingen. Apesar disso 
ambos encontram prazer (humanamente compreensível) em se des­
viar do senhor em determinados pontos. Suas convicções, como pode 
ver, fazem um rápido progresso na Suíça. Mas na Alemanha, ao 
contrário, talvez tenha de morrer primeiro a atual geração, cujos 
preconceitos são sufocantes.