Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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Atenciosamente, j u n g
7 J
Burghõlzli-Zurique, 4 de dezembro de 1905
Caro Professor Freud,
Antes de mais nada devo expressar-lhe meu agradecimento 
sincero pelo fato de não se ter ofendido com certas passagens de
3 Alfred Erich Hoche (1865-1943), professor de psiquiatria em Freiburg; 
um adversário declarado da psicanálise.
4 Robert Eugen Gaupp (1870-1953), professor de neurologia e psiquiatria 
em Tübingen; editor da Zentralblatt für Nervenheilkunde und Psychiatrie.
5 Ludwig Frank (1863-1935), neurologista de Zurique, seguidor de Auguste 
Forel (ver 17 J n. 4 ).
6 Dumeng Bezzola (1868-1936), psiquiatra suíço do cantão de Graubünden; 
líder do movimento de abstinência.
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minha \u201capologia\u201d .1 Como seguramente há de ter notado, foi por 
uma questão de política, e não a fim de criticar sua teoria, que me 
permiti certas reservas. Deixo aos nossos adversários, como o senhor 
bem observa, uma possibilidade de recuo, e o faço com o propósito 
consciente de não lhes tornar a retratação muito penosa. Mesmo 
assim a coisa não há de ser nada fácil. Um ataque a um oponente, 
ainda que merecido, levaria a uma dissenção desastrosa que teria 
apenas conseqüências desfavoráveis. Apesar disso, há quem julgue 
minha crítica áspera demais. Se me limito à defesa de um mínimo, 
é simplesmente porque só posso defender o que corresponde à minha 
expectativa inquestionável, que, comparada à sua, é logicamente bem 
modesta. Apenas começo a compreender muitas de suas formulações 
e várias delas ainda estão além da minha capacidade, mas disso não 
se deve inferir que o considere em erro. Pouco a pouco, mesmo na 
descrença, aprendi a ter cautela.
Vi ad nauseam que a oposição se enraiza no afeto e também
sei que a razão não pode prevalecer contra ela, por mais forte
que seja.
Se pareço subestimar os resultados terapêuticos da psicanálise,- 
faço-o apenas por considerações diplomáticas, com as seguintes refle­
xões em mente:
í. A maioria dos histéricos sem instrução é inadequada para 
a psicanálise. Tive algumas experiências negativas aqui. Ocasional­
mente a hipnose dá melhor resultado.
2. Quanto mais conhecida se torne, mais a psicanálise ficará
exposta a médicos incompetentes que, sem sombra de dúvida, a
transformarão numa salada. O senhor e sua teoria serão então respon­
sabilizados por isso.
3. Na prática o conceito de histeria ainda está longe de ser 
claro. Incontáveis casos de hebejrenia superficial são ainda diagnosti­
cados como \u201chisteria\u201d, com resultados que vão de incertos a nega­
tivos, como o sei por experiência própria. (Em alguns casos esporá­
dicos os resultados foram temporariamente positivos.) O reconheci­
mento insuficiente reinante nessa área é demonstrado por uma publi­
cação recente da Clínica de Heidelberg,3 onde se verificou que um 
caso de catatonía inquestionável era de fato histeria.
Por essas razões julgo mais cauteloso' ijão je^dar muita ênfase 
aos resultados terapêuticos; se o fizermos'poderá háver um rápido 
acúmulo de material expondo os resultados terapêuticos a uma luz 
negativa e assim comprometendo também a teoria.
1 Falta a carta de Freud.
2 Hológrafo: Psychanalyse, forma inicialmente preferida peio grupo da 
Zurique.
3 Não identificada.
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Pessoalmente sou um entusiasta de sua terapia, bem capaz de 
apreciar seus méritos exemplares. No todo, sua teoria já nos trouxe 
um aumento notável de conhecimento e abriu uma nova era com 
perspectivas infindas.
Atenciosamente, j u n g
8 F
6 de dezembro de 1906, Viena, IX. Berggasse 19
Caro colega,
Estou certo de que o senhor há de tirar suas conclusões dessa 
\u201caceleração do tempo de reação\u201d 1 \u2014 e creia que sua última carta 
deu-me grande prazer, o que está longe de ser apenas uma suposição. 
Tive de fato a impressão de que o senhor modificara deliberadamente 
suas idéias, para obter um efeito pedagógico, e me alegro por vê-las 
como são, livres desse desvirtuamento.
Saiba que sofro todos os tormentos que afligem um \u201cinovador\u201d ; 
e o menor deles não é a necessidade inevitável de passar, entre meus 
próprios partidários, pelo excêntrico ou fanático incorrigivelmente 
auto-suficiente que na realidade não sou. Esquecido com minhas 
idéias numa solidão tão longa, fui levado, compreensivelmente, a 
uma confiança cada vez maior em minhas próprias decisões. Nos 
últimos quinze anos vi-me sem cessar envolvido por preocupações 
que se tornaram monotonamente exclusivas. (No momento dedico 
dez horas por dia à psicoterapia.) Isso me conferiu uma espécie de 
resistência à pressão de aceitar opiniões que diferem das minhas. 
\u2022Mas sempre estive cônscio de minha falibilidade, sempre pensei e 
repensei sem descanso, por medo de me acomodar às minhas próprias 
idéias. O senhor mesmo observou certa vez que essa minha flexibili­
dade indicava um processo de desenvolvimento.2
Subscrevo sem reservas suas considerações sobre terapia.3 Tive 
a mesma experiência e, pelas mesmas razões, reluto ainda em afirmar
1 Alusão ao estudo de Jung \u201cÜber das Verhalten der Reaktionszeit beim 
Assoziationsexperimente\u201d , Journal fiir Psychologie und Neurologie, VI: 1
(1905) = \u201cA Relação do Tempo de Reação no Experimento de Associação\u201d , 
CW 2.
2 Jung, \u201cPsicanálise e Experimentos de Associação\u201d, CW 2, § 660.
3 Esse parágrafo e o seguinte são citados por Jones, II, p. 485-435 s.
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em público algo além de \u201cesse método é mais fecundo que qualquer 
outro\u201d, Eu não diria sequer que são curáveis por ele todos os casos 
de histeria, quanto menos os diferentes estados que esse nome rotula. 
Não dando importância à freqüência das curas, tratei não raro de 
casos à beira da psicose ou do delírio (delírios de referência, medo 
de enrubescer, etc.) e ao fazê-lo aprendi, pelo menos, que os mesmos 
mecanismos ultrapassam em muito os limites da histeria e da neurose 
obsessiva. É impossível explicar tudo a um público hostil; por conse­
guinte mantive para mim, ou abordei-as de um modo inteligível 
apenas para os iniciados, certas coisas que poderiam ser ditas em 
relação aos limties da terapia e seu mecanismo. O senhor provavel­
mente está consciente de que nossas curas se processam através da 
fixação da libido prevalecendo no inconsciente (transferência) e de 
que essa transferência é obtida com maior rapidez na histeria. A 
transferência fornece o estímulo necessário à compreensão e tradução 
da linguagem do ics.; na ausência dela o paciente deixa de fazer 
esforço ou de ouvir quando lhe submetemos nossa tradução. Poder- 
se-ia dizer que a cura é essencialmente efetuada pelo amor. E a trans­
ferência, na realidade, proporciona a prova mais convincente \u2014 a 
única de fato irrefutável \u2014 de que as neuroses são determinadas pela 
história de amor do indivíduo.
Muito me agrada sua promessa de, por enquanto, confiar em 
mim no que se refere a problemas onde sua experiência não lhe per­
mite ainda uma decisão própria \u2014 naturalmente em caráter provi­
sório, até que ela cresça mais. Apesar de eu saber me ver de maneira 
crítica, acredito merecer tal confiança, se bem a peça apenas de uns 
poucos.
Espero ter bastante a aprender com sua obra de há muito anun­
ciada sobre a demência. Ainda não formei uma opinião definitiva 
sobre a linha divisória entre demência precoce e paranóia, sobretudo 
no que concerne aos termos mais recentes empregados no campo, e 
devo admitir certa incredulidade quanto à comunicação de Bleuler,4 
de que os mecanismos repressivos podem ser demonstrados na demên­
cia, mas não na paranóia. Minha experiência no campo é porém 
limitada. A esse respeito, por conseguinte, tentarei acreditar no 
senhor.
Cordialmente, d r . f r e u d
4 Bieuler, \u201cFreudische Mechanismen in der Symptomatologie von Psy­
chosen\u201d, Psychiatrisch-neurologische Wochenschrift, VIII (1906-7). Resumido 
por Jung em seu \u201c Referate über psychologische Arbeiten schweizerischer Auto­
ren (bis Ende 1909)\u201d, Jahrbuch,