Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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com nossas idéias, a 
explicação dada pela mulher para a grave depressão dela foi que se 
tornara uma \u201cimbecil\u201d devido a um hábito formado na infância, qual 
seja, o de reter a urina por um período muito longo, a ponto de se 
propiciar sensações sexuais ao expeli-la. Depois do casamento, por 
algum tempo, deu seguimento à prática. E então parou (a doença 
começou provavelmente nessa época). Casou-se por amor, após seis 
anos de conhecimento e uma luta prolongada com a família. Embora 
goste muito do marido (um ator), mostrou-se totalmente insensível 
nas relações sexuais. A paciente acrescenta que nunca lhe ocorreu 
acusar o marido pela própria insatisfação, pois está convencida de 
que a culpa é dela. A depressão provavelmente se ligava à ansiedade 
quanto à aproximação do parto. Insistia em que não seria capaz de 
dar à luz normalmente e exultou quando o parto teve de ser feito 
a fórceps: afinal, a razão estava com ela. Com toda a seriedade 
afirma que o filho é um \u201cimbecil\u201d sem esperança. Fez repetidas 
tentativas de suicídio (sempre tomando precauções) e escreveu ao 
marido cartas lastimosas de adeus. Uma vez chegou de fato a sair 
de casa, mas apenas foi ter ao apartamento da irmã, onde se pôs a 
tocar piano. Bateu algumas vezes no bebê. Diz que gosta da criança, 
quando lhe perguntam, mas acrescenta que o filho não é como gostaria 
que fosse. Foram notados estados de excitação maníaca. Um deles é 
caracterizado por declarações megalomaníacas em referência à pró­
pria doença: tal estado não tem precedentes, os médicos nunca 
poderão ajudá-la e levarão anos para compreendê-la. É impossível 
raciocinar com ela, sua argumentação é inteligente e penetrante. Pre­
tende ter apenas uma vaga lembrança do que viveu e mesmo das coisas 
de que se acusa. Diz que tem o cérebro afetado por \u201cimbecilidade\u201d, 
que não pode pensar com clareza e é incapaz de reflexão, que só a 
doença é realmente clara para ela. Embora no todo dê uma impressão 
de desânimo, tem uma afetação inequívoca na fala e nos movimentos.
O médico da família acha que se comporta como uma atriz. E de fato 
a fala é acompanhada por uma mímica petulante (um mover de 
olhos que para mim só se equipara ao que observei na paranóia).
Antigamente isso seria chamado de insanidade masturbatória, 
um termo abominável. Você não acha que é demência precoce? Não 
acha interessante essa revelação da etiologia tão cuidadosamente 
oculta na histeria?
Nada mais pude determinar ainda. Mas o caso está no início e é 
provável que eu volte a vê-la dentro de algumas semanas. Perdoe-me 
por roubar seu valioso tempo.
Atenciosamente, d r . f r e u d
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11 F
1 de janeiro de 190'
Caro colega,
O senhor incorre em grave erro supondo que seu livro sobre a 
demência precoce não me tenha entusiasmado. Ora, nem pense nisso. 
O simples fato de eu ter proposto uma crítica deve bastar para con­
vencê-lo. Fosse outra minha opinião, a solução seria utilizar meios 
diplomáticos para disfarçá-la, pois seria sobremodo imprudente ofen­
der o colaborador mais capaz, até agora, de se ligar a mim. Na ver­
dade considero seu ensaio sobre D. pr. como a mais rica e significativa 
contribuição aos meus esforços de que já tive notícia, e entre meus 
alunos de Viena, que levam sobre o senhor a vantagem talvez ques­
tionável de um contato pessoal comigo, sei de apenas um cuja com­
preensão pode ser igualada à sua; nenhum porém se mostra tão capa­
citado e disposto a fazer pela causa o mesmo que o senhor. Eu 
pretendia escrever uma carta mais longa; fiquei a meio caminho por 
motivos alheios, mas também porque o palpite sobre a autoria do 
sonho, que o senhor confirma, recomendava que me mantivesse 
em silêncio. Àchei apenas que, sem se trair, o senhor poderia 
ter chegado a acentuar a interpretação tora = pênis e o galope
\u201calternativo\u201d1 v^rreira ' ^ co aSora sabendo que foi por simples 
precaução diplomática que deixou de demonstrar o primeiro ponto. 
O único ponto que me pareceu incorreto, foi sua identificação do 
desejo realizado no sonho, que, como não ignora, só pode vir à luz 
ao término da análise, mas que por razões teóricas fundamentais deve 
diferir do que o senhor afirma.
Caso não leve a mal uma tentativa de influenciá-lo, gostaria de 
lhe sugerir que desse menos atenção à oposição que nos enfrenta e 
não a deixasse afetá-lo tanto em seus escritos. As \u201csumidades\u201d da 
psiquiatria na realidade não contam muito; o futuro nos pertence, a 
nós e às nossas idéias, e as gerações mais novas \u2014 ao que tudo 
indica por toda parte \u2014 enfileiram-se ativamente conosco. Vejo isso 
em Viena, onde como sabe sou sistematicamente ignorado pelos 
colegas e periodicamente aniquilado por um escriba qualquer, mas
1 Hológrafo: \u201c W e c h s e lVer Jung, \u201cNovos Aspectos da Psicologia Crimi­
nal\u201d (orig. 1908), CW 2, § 1335, onde é citado o uso desse termo por Freud. 
/ N o que tange a \u201cgalope\u201d, etc., ver \u201cA Psicologia da Demência Precoce\u201d , 
CW 3, § 130.
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onde minhas aulas,2 apesar disso, atraem quarenta ouvintes atentos 
vindos de todas as faculdades. Agora que o senhor, Bleuler e de 
certo modo Lõwenfeld3 conseguiram arranjar-me uma audiência entre 
os leitores de livros científicos, o movimento em favor de nossas novas 
idéias continuará irresistivelmente, malgrado todos os esforços das 
autoridades moribundas. Creio que seria uma boa política dividirmos 
o trabalho de acordo com o caráter e a posição de cada um de nós, 
que o senhor e seu chefe tentassem agir como mediadores enquanto 
eu continuo a fazer o papel do dogmatista intransigente que espera 
que o público engula essa pílula amarga. Mas peço-lhe que nada 
sacrifique de essencial ao tato pedagógico, à afabilidade, e que não 
se desvie muito de mim, quando na realidade está tão perto, pois se 
o fizer poderemos um dia ser jogados um contra o outro. Estou firme­
mente convencido, no íntimo, de que nas circunstâncias especiais em 
que atuamos nossa melhor diplomacia é a absoluta franqueza. Inclinó­
me a tratar os colegas que oferecem resistência exatamente como 
tratamos pacientes na mesma situação.
Muito poderia ser dito acerca da \u201cindistinção\u201d que supostamente 
torna supérflua grande parte do trabalho habitual sobre sonhos; mas 
não cabe numa carta. Talvez lhe seja possível dar um pulo a Viena 
antes de sua ida à América4 (não falta muito). Eu teria imenso prazer 
em passar algumas horas discutindo essas questões com o senhor.
Se nada escrevi sobre parte considerável de seu livro é porque 
estou inteiramente de acordo; ou melhor, cumpre-me apenas aceitar 
sem discussão suas explicações. (Ainda assim acredito que meu caso5 
deva ser diagnosticado como autêntica paranóia.) Mas também 
aprendi muita coisa nova. Por algum tempo preocupei-me a fundo 
com o \u201cproblema da escolha da neurose\u201d, que como diz acertada­
mente não é esclarecido adequadamente em minhas observações. 
Errei por completo na primeira tentativa de explicação e desde então 
passei a ter mais cautela. Estou a caminho, é verdade, mas ainda
2 Freud lecionava na Universidade às quintas e sábados (Jones, I, p. 
375/341).
3 Leopold Löwenfeld (1847-1923), psiquiatra de Munique, publicara Über 
den Traum de Freud (ver adiante, 246 F n. 5) em 1901 na série Grenzfragen 
des Nerven und Seelenlebens, da qual era co-editor. Incluiu contribuições de 
Freud em outros dois livros: \u201cO Método Psicanalitico de Freud\u201d (Ed. Standard 
Bras., VII) em Die psychischen Zwangserscheinungen (1904) e \u201cMeus Pontos 
de Vista sobre o Papel Desenvolvido pela Sexualidade na Etiologia das Neuro­
ses\u201d (Ed. Standard Bras., VII) na 4.a ed. de Sexualleben und Nervenleiden
(1906).
4 Na análise do sonho discutido acima, Jung aludira a seu grande desejo 
de visitar a América; ver CW 3, § 124.
® Freud, \u201cFurther Remarks on the Neuro-Psychoses of Defence\u201d (orig. 
1896), SE III, p. 174 s.: parte III, \u201cAnalysis o f a Case of Chronic Paranoia\u201d\u201d ; 
discutido