Correspondencia Completa entre Jung e Freud
674 pág.

Correspondencia Completa entre Jung e Freud


DisciplinaLivros14.595 materiais90.341 seguidores
Pré-visualização50 páginas
por Jung em \u201cA Psicologia da Demência Precoce\u201d, CW 3, § 63 s.
59
não cheguei ao destino. Quanto à sua inclinação de recorrer, a pro­
pósito disso, às toxinas,® permito-me observar a omissão de um fator 
ao qual, sei muito bem, atribuo muito mais importância que o senhor, 
no presente momento; refiro-me, como já há de ter notado, à + + + 
sexualidade.7 O senhor a põe de lado, ao tratar do problema, enquanto 
eu me sirvo dela mas não chego a uma solução; nada surpreendente 
assim que nenhum de nós saiba algo a respeito. \u201cNemo me impune 
lacessit\u201d ,8 que aprendi na escola, ecoa ainda em meus ouvidos. Os 
antigos sabiam que Eros é um deus inexorável.
Meus melhores votos pelo Ano Novo. Espero que continuemos 
a trabalhar juntos e não permitamos que mal-entendidos se interpo­
nham entre nós.
Cordialmente, d r . f r e u d
Minha pequena observação já estava pronta para lhe ser man­
dada antes de eu receber sua carta.
12 J
Burghõlzli-Zurique, 8 de janeiro de 1907
Caro Professor Freud,
Perdoe-me a demora em responder sua última carta, tão afetuosa 
e tão rica em detalhes. Posteriormente senti-me sem jeito por ter 
brincado de esconder com meu sonho. Bleuler, a quem mostrei a 
interpretação em primeira versão, achou-a muito direta. Isso foi uma 
oportunidade excelente para que de novo eu me escondesse sob a 
interpretação, na segunda versão, e assim agisse à margem dos com­
plexos. Tive razões especiais para abster-me de dar a interpretação 
tora = pênis e a principal delas é que eu não me encontrava em 
condições de apresentar meu sonho de maneira impessoal: foi minha 
mulher, por conseguinte, quem escreveu toda a descrição (! !).
0 Ibid., § 75. Ver também adiante, 85 J n. 4.
7 Três cruzes eram traçadas atrás das portas, nas casas de camponeses, 
para afastar o perigo.
8 \u201cNinguém me provoca impunemente.\u201d Frase que não parece ser antiga, 
mas sim cunhada para moto da Ordem do Cardo, ou Ordem de S. André, da 
Escócia (Elvin's Handbook of Mottoes, 1860).
60
O senhor está certo quando me recomenda que pratique mais a 
\u201cterapia\u201d com nossos adversários, mas ainda sou jovem, e às vezes, 
no que se refere ao reconhecimento e à posição científica, uma ou 
outra evasiva se nos impõe. O trabalho numa clínica universitária 
exige que se dê atenção a muitas considerações que preferiríamos 
ignorar na vida privada. Mas fique tranqüilo a esse respeito: nunca 
abandonarei qualquer parte de sua teoria que me seja essencial, já 
que estou muito comprometido com ela.
Estou agora firmemente decidido a ir a Viena nas férias da 
primavera (abril), para enfim ter o prazer de há muito desejado de 
um contato pessoal com o senhor. Tenho uma longa ab-reação a fazer.
A propósito da questão das \u201ctoxinas\u201d, mais uma vez o senhor 
tocou num ponto fraco. Minha intenção original era deixar as causas 
físicas inteiramente fora de minha \u201cpsicologia\u201d. Mas como temia mal­
entendidos, devido à notória índole obtusa do respeitável público, 
tinha de, pelo menos, aludir à \u201ctoxina\u201d. Sua hipótese de que a sexua­
lidade possa aqui desempenhar um papel não me era estranha. Ade­
mais, achei perfeitamente compatível a idéia de que uma assim cha­
mada secreção endocrina \u201cinterna\u201d possa ser a causa dessas pertur­
bações, e que talvez a produção das toxinas se deva às glândulas 
sexuais. Mas não tenho provas disso e assim abandonei a conjectura. 
Por outro lado, parece-me agora que a última hipótese seja mais 
aplicável à epilepsia, onde o complexo sexual-religioso ocupa um 
lugar central.
Quanto à sua concepção de \u201cparanóia\u201d, aí vejo apenas uma 
diferença de nomenclatura. Na \u201cDemência\u201d precoce, jamais convém 
pensar, de início, em imbecilidade (embora isso também possa ocor­
rer!), mas sim num delírio complexo com fixações. A paranóia se 
estrutura exatamente como a Demência precoce, a não ser pelo fato 
de a fixação se restringir a poucas associações; com poucas exceções, 
a clareza de conceitos permanece inalterada. Há contudo numerosas 
transições fluidas em relação ao que chamamos de D. pr.1 D. pr. é 
um termo muito infeliz! De seu2 ponto de vista meu caso de D. pr. 
poderia igualmente ser descrito como paranóia, o que de fato se fez 
em épocas anteriores.
O caso sobre o qual gentilmente me escreveu é de extraordinário 
interesse como um paralelo para o meu. Muitos pacientes de D. pr. 
têm sentimento de que são \u201cimbecis\u201d . Megalomania e afetação são 
praticamente sinônimos. (A última é, em geral, um complemento 
feminino.) Ambas assinalam um componente psíquico impropria­
mente desenvolvido na esfera social ou na esfera erótica, senão nas
1 \u201cDementia praecox\u201d, introduzido por Kraepelin, era o termo preferido 
pelos psiquiatras suíços. Sua substituição pelo termo cunhado por Bleuler, 
\u201cesquizofrenia\u201d, generalizou-se depois.
2 Hológrafo: ihrem, \u201cdeles\u201d ou \u201cdela\u201d, por Ihrem, \u201cseu, do senhor\u201d .
61
duas. Apesar de a paciente ter casado por amor, a frigidez sexual no 
casamento parece indicar que há alguma coisa com ele, que esse 
não é o homem certo para eia. É pelo menos isso o que em geral des­
cobrimos nos casos em que a anestesia sexual se revela na anamnese. 
A falta de amor pelos filhos vem confirmar a hipótese. De modo 
geral a mulher ama o marido nos filhos e esses deixam de satisfazê-la 
quando aquele não a satisfaz. A alucinação de que os filhos foram 
mortos se apossa com grande freqüência das pacientes. E mais fre­
qüente ainda é que só as filhas sejam mortas, o que indicaria que a 
mãe não se satisfaz sexualmente, seja porque o marido é muito 
velho, seja porque, de algum, modo, é incompatível. Também na
D. pr. a morte significa apenas negação ou repressão. Num ataque 
de D. pr. todos os complexos não solucionados sempre vêm à tona 
por ab-reação, em perfeita sintonia com o padrão da histeria. Só que 
a manifestação segue um curso mais violento e perigoso, deixando 
como saldo várias perturbações irreparáveis no desempenho mental 
e, em particular, uma dificuldade crescente de lidar com os afetos 
e ab-reagir. Mais tarde ocorre uma oclusão emotiva mais forte e 
generalizada, com o característico embrutecimento da inteligência. 
Mas a perturbação emocionai sempre ocupa o primeiro plano e torna 
o diagnóstico certo, a despeito de todos os outros embrutecimentos 
intelectuais.
Li com satisfação, há pouco tempo, que Lõwenfeld passou 
resolutamente para nosso lado, pelo menos no que concerne às 
neuroses de ansiedade. A voz dele, na Alemanha, há de repercutir 
mais que a minha. Sua entrada triunfal talvez comece mais cedo do 
que o senhor imagina.
Devo-lhe ainda uma explicação do termo \u201chistérico habitual\u201d.8 
Trata-se, na verdade, apenas de mais um recurso. Intriga-me o fato 
de haver histéricos que vivem em permanente conflito com seus 
complexos, mostrando uma excitação violenta, uma disposição de 
ânimo flutuante e uma drástica mudança de sintomas. Esses casos, 
em minha experiência limitada, merecem um prognóstico favorável, 
pois têm um componente que resiste à sujeição ao complexo patogê­
nico. Por outro lado, há histéricos que vivem em paz com seus 
sintomas, tendo não só se habituado ao sistema como também explo- 
rando-o em ações sintomáticas e manhas de todo tipo, e que medram 
como parasitas a depender da simpatia dos que integram o seu meio. 
Suscitando prognósticos desfavoráveis, tais casos lutam com extrema 
obstinação contra a análise. É a eles que chamo de \u201chistéricos habi­
tuais\u201d. Talvez essa descrição sumária lhe esclareça o que penso. 
Naturalmente é uma classificação muito grosseira e superficial, mas 
por enquanto ela tem tido valor em meu trabalho. Pode ser que,
\u2022 * Ver atrás, 6 J § 2.
62
também a esse respeito, o senhor me abra os olhos. Um número 
incontável de histéricos sem instrução (especialmente os parasitas de 
hospital) entra nessa categoria.
Ao meu caloroso agradecimento, junto os votos mais cordiais 
pelo Ano