Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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a ver 
que sua terminologia (em especial a \u201cpan-sexualidade\u201d!) se justifica 
plenamente. Em relação a Rank, fica também a impressão incômoda 
de que ele \u201cjurat in verba magistri\u201d2 e carece de empirismo. Mais 
de uma vez, ao lê-lo, fui levado a pensar em Schelling e Hegel. Mas 
a teoria que o senhor postula é puro empirismo e empiricamente é 
que deve ser apresentada. Essa, seja como for, é a tarefa fundamental 
com que o futuro me acena. Procuro, por conseguinte, métodos 
capazes de desenvolver a psicanálise da maneira mais exata possível, 
esperando assim lançar as bases para uma popularização científica 
de seus ensinamentos. Uma de minhas próximas tarefas será documen­
tar os sonhos que exprimem desejos, na Demência precoce, com uma 
quantidade maior de dados empíricos. Só depois de realizados esse 
e outros trabalhos preparatórios idênticos, posso esperar chegar mais 
perto do âmago da teoria sexual. Como o senhor disse, os sonhos são 
decerto mais apropriados para uma \u201cconfirmação\u201d subjetiva, e o 
mesmo foi capaz de demonstrar recentemente com alguns exemplos 
muito bons. Não mais me assaltam dúvidas quanto à correção de sua 
teoria. Os últimos vestígios foram dispersos por minha estada em 
Viena, que para mim foi um acontecimento de importância imensa. 
Binswanger já deve ter lhe falado da tremenda impressão que o 
senhor me causou. Nada mais direi sobre isso, mas faço votos de 
que meu trabalho pela sua causa lhe demonstre a extensão de minha 
gratidão e respeito. Espero, chego mesmo a sonhar, que possamos 
recebê-lo em Zurique no próximo verão ou no outono. Pessoalmente 
eu me sentiria no auge da alegria com uma visita sua; foram efêmeras 
demais as poucas horas que passei a seu lado.
Riklin3 prometeu enviar-lhe o trabalho dele sobre contos de fadas 
tão logo o tenha terminado, embora isso não seja para já.
2 = \u201cjura pelas palavras do mestre.\u201d \u2014 Horácio, Epistulae, I, i, 14.
3 Franz Riklin (1878-1938), psiquiatra no Burghõlzli em 1902-4, época 
em que colaborou com Jung nos testes de associação de palavras; em 1904, 
publicaram em conjunto o estudo \u201cThe Associations of Normal Subjects\u201d (CW
2). 1905-10, no hospital cantonal de Rheinau (cantão de Zurique). Riklin era 
casado com uma prima de Jung. Permaneceu ao lado dele após a dissensão 
com Freud, mas não se dedicou ativamente à análise. / O trabalho sobre 
contos de fadas: Wunscherfüllung und Symbolik im Mãrchen (Schrijten zur 
angewandten Seelenkunde, 2; 1908) = Realização de Desejo e Simbolismo nos 
Contos de Fadas, trad. de William Alanson White (1915).
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Forel4 esteve recentemente em Zurique e aproveitei a oportuni­
dade para pedir a um amigo que se avistasse com ele. Vim a saber 
que o ignora por completo e que a objeção dele ao meu trabalho é 
que dou muito pouca atenção à hipnose. Aí é que está o problema.
Minha mulher e eu lhe agradecemos muito, bem como à sua 
esposa e a toda a sua família, pela maneira gentil com que nos 
receberam.
Cordialmente, j u n g
18 F
7 de abril de 1907
Caro colega,1
£ para sentir-me mais à vontade ao lhe falar que uso um papel 
diferente.2 Sua visita foi sobremodo prazeirosa e gratificante; gostaria 
de repetir por escrito várias coisas que lhe confiei verbalmente, em 
particular que o senhor me encheu de confiança em relação ao futuro, 
que agora me dou conta de ser tão substituível quanto qualquer outro 
e que não poderia desejar ninguém melhor do que o senhor, tal 
como o conheci, para continuar e completar minha obra. Estou certo 
de que não abandonará essa obra, pois já se aprofundou muito nela 
e com seus próprios olhos pôde ver como é belo, amplo e excitante 
o nosso tema.
Certamente tenho planos de fazer-lhe uma visita em Zurique, 
durante a qual espero que me demonstre seu famoso caso3 de Dem. 
precoce, mas não creio que isso ocorra em breve. Preocupa-me tam­
bém no momento a incerteza de nossas relações com seu chefe. A 
defesa de nossa posição recentemente feita por ele na Miinchener
4 Auguste Henri Forel (1848-1931), neurologista e entomóloeo suíco do 
cantão de Vaud; diretor do Burghõlzli antes de Bleuler. Era um celebrado 
especialista em hipnose e um líder do movimento de abstinência; rejeitava a 
psicanálise. Em 1899, falou na comemoração do décimo aniversário da Univer­
sidade Clark.
1 Hológrafo: Lieber und sehr geehrter Herr College. A primeira vez que 
Freud usou a saudação \u201cLieber\u201d.
2 Folhas de 20,3 x 16,5 cm, sem timbre.
3 Ver \u201cA Psicologia da Demência Precoce\u201d, CW 3, § 198 s. (caso de 
B. St.).
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medizinische Wochenschrift4 levara-me a considerá-lo digno de con­
fiança, mas eis que o senhor me fala de um grave desvio em direção 
contrária, desvio que, como eu, o senhor provavelmente interpreta 
como uma reação às convicções que o senhor levou quando regressou. 
Como o \u201ccomplexo pessoal\u201d obscurece todo pensamento puramente 
lógico!
Em relação à Dem. pr. tenho uma proposta a lhe fazer. Depois 
de sua partida esbocei algumas idéias sobre o assunto que discutimos. 
Gostaria de transmiti-las ao senhor, a não ser que prefira \u2014 por duas 
razões \u2014 ignorá-las. Primeiro, porque o senhor mesmo as pode ter, 
e segundo porque talvez não lhe agrade aceitar o que quer que seja. 
Devo dizer que considero uma fórmula altamente valiosa um tipo de 
comunismo intelectual, onde nenhuma das partes se preocupa em 
tomar nota do que dá e recebe. Diga-me por favor, com franqueza 
^ analítica, se gostaria ou não de examinar esse material, e peço-lhe 
que não superestime sem saber.
Compreendo suas razões quando tenta suavizar o assunto, mas 
não acredito que o senhor tenha êxito.5 Mesmo que chamemos o ics. 
de \u201cpsicóide\u201d, ele continuará a ser o ics.; mesmo que não chamemos 
de \u201clibido\u201d a força impulsiva da concepção mais ampla de sexuali­
dade, ela continuará a ser libido, e em cada inferência que tirarmos 
dela voltaremos ao ponto exato do qual tentáramos desviar a atenção 
com nossa nomenclatura. Se não podemos evitar as resistências, por­
que não enfrentá-las desde o início? O ataque é, em minha opinião, 
a melhor forma de defesa. É, talvez, por subestimar a intensidade 
dessas resistências que o senhor espera desarmá-las com pequenas 
concessões. O que nos pedem é, nem mais nem menos, que abjuremos 
nossa crença no impulso sexual. A única resposta é professá-la 
abertamente.
Estou certo de que Rank não irá muito longe. O modo como 
escreve é decididamente auto-erótico e ele carece completamente de 
tato pedagógico. Além disso, como o senhor observa, não superou a 
influência da dieta intelectual anterior e se perde em abstrações nada 
fáceis de seguir. Mas a independência de Rank em relação a mim 
é maior do que talvez pareça; é um homem capaz, muito moço e 
profundamente honesto, característica sobremodo valiosa na idade 
dele. Desnecessário dizer que esperamos muito mais do senhor e da 
maneira como tratará o assunto.
O estudo de Bezzola,6 que ele me enviou recentemente, de modo 
muito impessoal e talvez por pura \u201cpiedade\u201d, não me parece honesto.
4 Um artigo sobre Sammlung kleiner Schriften zur Neurosenlehre 1893- 
1906, na Wochenschrift, LIV:11 (1907).
5 Este parágrafo é citado por Jones, II, p. 486/436.
6 \u201cZur Analyse psychotraumatischer Symptome\u201d, Journal für Psychologie 
und Neurologie, VIII (1906-7). Criticado em Jung, \u201cResumos\u201d.
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As observações anexas são produto de uma covardia pessoal, o que 
justifica a expectativa de um fim melancólico para esse indivíduo. 
Encobrir o fato de que -^síntese é o mesmo que ^análise parece 
impostura grave. Afinal, se pela análise tentamos descobrir os frag­
mentos reprimidos, é apenas com o fim de juntá-los novamente. A 
diferença essencial \u2014 o fato de ele não fazer uso de associações, 
mas só de sensações \u2014 significa simplesmente que o trabalho dele se 
limita a casos de histeria traumática; em outros casos não se encontra 
esse material. E pelo que sei da