Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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estrutura das neuroses é geralmente 
impossível solucionar o problema terapêutico pela mera revelação 
das cenas traumáticas. Conseqüentemente, ele retorna aonde Breuer7 
e eu estivemos, há doze anos, e desde então nada terá aprendido. 
Pela \u201cpiedade\u201d, merece um puxão de orelha, mas temos mais o 
que fazer.
Ainda esse mês você há de receber duas pequenas publicações 
minhas, uma das quais é a Gradiva,s que talvez o estimule, espero 
que sem demora, a contribuir com algo de apelo mais geral para os 
Papers.9 Muito grato pela promessa de Riklin. Espero que o trabalho 
dele corresponda às nossas exigências especiais. Entrarei em contato 
direto com o senhor quando lhe enviar Gradiva.
Na Páscoa estive em visita ao estabelecimento de Kahlbaum10 
em Gõrlitz e vi um caso dos mais instrutivos, sobre o qual lhe falaria 
ainda se essa carta, a primeira desde sua visita, já não tivesse se 
alongado tanto.
Minha mulher11 gostou muito da carta que sua esposa lhe escre­
veu. Cabe ao anfitrião, não à visita, agradecer pelo prazer e a honra. 
Infelizmente ela não pode responder agora, pois sofre de iridociclite 
(benigna), conseqüência de uma indisposição estomacal.12
Na expectativa de sua resposta, subscrevo-me
Cordialmente, d r . f r e u d
7 Josef Breuer (1842-1925), médico e fisiologista austríaco; autor, com 
Freud, dos Estudos sobre a Histeria (orig. 1895; Edição Standard Brasileira, 
II); os dois, mais tarde, divergiram.
8 Ver 24 J n. 4; quanto à outra, ver 23 F n. 2.
9 Schriften zur angewandten Seelenkunde (Artigos sobre Psicologia Apli­
cada), contendo obras de vários autores editadas por Freud. Os dois primeiros 
números, publicados por Hugo Heller, foram o estudos de Freud sobre \u201cGra­
diva\u201d e o de Riklin sobre contos de fadas (ver 17 J n. 3); Franz Deuticke 
assumiu a publicação com o terceiro número, Der Inhalt der Psychose (1908), 
de Jung. Ver 82 F n. 4. Para a lista completa, ver apêndice 5.
10 \u201cDr. Kahlbaum\u2019s Aerztliches Pädagogium für jugendliche Nervenkranke\u201d 
(centro médico-educativo para doenças nervosas da juventude), em Görlitz, no 
leste da Alemanha, fundado por Karl Ludwig Kahlbaum (1828-99), eminente 
psiquiatra que cunhou o termo \u201cparanoia\u201d. Ver também os adendos.
11 Martha Freud, née Bernays (1861-1951).
12 Hológrafo; einer Stomakake.
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19 J
Burghõlzli-Zurique, 11 de abril de 1907
Caro Professor Freud,
Muito obrigado por sua longa e tão amistosa carta! Só temo 
que o senhor me superestime e às minhas forças. Com sua ajuda 
passei a olhar as coisas em profundidade, mas ainda estou longe de 
as ver com clareza. Não obstante tenho a impressão de que fiz um 
considerável progresso interior desde que o conheci pessoalmente; a 
meu ver, o real conhecimento de sua ciência não pode prescindir 
jamais de um contato pessoal com o senhor. Onde a escuridão é tão 
grande para nós, ainda estranhos a ela, só a fé pode ajudar; mas a 
melhor fé, e a mais positiva, é o conhecimento de sua personalidade. 
Minha visita a Viena foi, por conseguinte, uma confirmação genuína.
Uma excelente análise que há pouco fiz de uma paciente de 
Demência prec. trouxe-me à lembrança muitas das coisas sobre as 
quais conversamos. Gostaria de lhe colocar um problema que me tem 
intrigado particularmente. A estrutura do caso era totalmente \u201chiste- 
riforme\u201d, a tal ponto que durante a análise perdi toda a consciência 
de estar falando a uma paciente de Dem. prec. O rapport (transfe­
rência) foi excelente, a tal ponto que em apenas uma hora pude 
extrair-lhe toda a história: nada além de ocorrências sexuais a partir 
dos 6 anos, sempre bem típicas. A paciente aceitou com o maior 
afeto a transposição.1 O discernimento quanto à natureza e origem 
da doença tornou-se-lhe bem claro no decurso da análise, justificando 
a expectativa de um razoável progresso. No dia seguinte, porém, 
nenhum sinal disso; pode ser que ainda venha algum. Tudo se mos­
trava, até então, como na histeria. Mas a paciente não tem associa­
ções \u201chistéricas\u201d. Reage muito superficialmente, tem os tempos de 
reação mais curtos que já vi. As palavras-estímulo, assim, não ecoam 
através da afetividade dela como sempre o fazem na histeria. Não 
há libido objetai \u2014 dirá o senhor \u2014 mas sim auto-erotismo. Durante 
os testes de associação, nenhum afeto foi despertado, pois os com­
plexos se revelaram em separação muito rígida. Mas durante a aná­
lise deu-se justamente o inverso: complexos fragmentários fluíram 
de contínuo sem qualquer resistência. Em tal situação poder-se-ia 
esperar que as palavras-estímulo também atingissem os complexos, 
mas isso não aconteceu. Tenho a impressão de que na Dem. prec.
1 Hológrafo: Transposition. Nessa carta e alhures Jnng também emprega 
os termos Rapport, \u201crelação\u201d, e Übertragung, \u201ctransferência\u201d, sem aparente 
distinção, embora acabasse por se fixar no último. Cf. 27 F, pouco antes 
da n. 10.
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o complexo constela a personalidade com um número de estímulos 
associáveis muito menor que na histeria, havendo em conseqüência 
uma sensível redução na \u201celaboração\u201d da personalidade pelo com­
plexo. Na histeria sempre ocorre uma síntese entre o complexo e 
a personalidade como um todo. Mas na D. pr. os complexos parecem 
coalecescer apenas esporadicamente \u2014 muito menos, seja como for, 
que na histeria, sem levar em conta os normais. Os complexos se 
mantêm em grande parte isolados. O senhor dirá que eles se tornam 
auto-eróticos e contêm toda a libido. Mas como acontece isso? 
Encontramos mais ou menos o mesmo nos delírios tóxicos (alcoolis­
mo, etc.); complexos fragmentários combinados a alucinações elemen­
tares devidas a estímulos neurais, um mixtum compositum não-anali- 
sável que eu nunca poderia (psicologicamente!) compreender. Nesses 
estados vêm à tona aspectos insípidos do cotidiano \u2014 uma ponta 
de complexo, estímulos sensoriais endógenos, etc. \u2014 mas se nota 
a ausência de qualquer constelação significativa. Será isso análogo 
ao isolamento dos complexos na Dem. prec.? Naturalmente ter-se-ia 
de tomar por muito brando o efeito da toxina. Mas por que a regres­
são ao estádio auto-erótico? O auto-erotismo é decerto algo infantil 
e no entanto o infantilismo difere fundamentalmente da D. pr. Vi 
inclusive que nas investigações galvanométricas2 a separação de afetos 
na Dem. prec. vai tão longe que estímulos físicos fortes já não exer­
cem a menor influência, enquanto estímulos psicológicos ainda pro­
vocam afetos. Assim, nem com análise completa e transferência 
ocorre um revolucionamento da personalidade, como na histeria. Via 
de regra nada em absoluto acontece; os pacientes nada aprendem, 
nada esquecem, mas continuam a sofrer impassíveis. É como se a 
personalidade tivesse se desintegrado em complexos separados que 
não mais exercem qualquer influência mútua. Ficaria muito grato 
se me desse sua opinião a respeito.
Há de interessar-lhe saber que fui convidado a falar sobre \u201cMo­
dernas Teorias da Histeria\u201d no Congresso Internacional desse ano em 
Amsterdam. E devo enfrentar justamente Aschaffenburg! É evidente 
que me manterei nos limites de sua teoria. Tenho a certeza íntima 
de que a discussão será altamente depressiva. A. me escreveu recente­
mente; ele ainda não entendeu nada.
Acabei há pouco o livro de Rank.3 É de se crer que contenha 
algumas boas idéias, mas na verdade não compreendi tudo. Pretendo 
relê-lo atentamente noutra ocasião.
2 Em 1907 Jung publicou \u201cOn Psychophysical Relations of the Associative 
Experiment\u201d, Journal of Abnormal Psychology, I; \u2018\u2018Psychophysical Investigations 
with the Galvanometer and Pneumograph in Normal and Insane Individuals\u201d, 
com Frederick Peterson, Brain, XXX; \u201cFurther Investigations on the Galvanic 
Phenomenon and Respiration in Normal and Insane Individuals\u201d, com Charles 
Ricksher, Journal of Abnormal and Social Psychology, II; todos em CW 2.
3 Der Künstler. Ver 17 J n. 1.
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Bleuíer já aceita