Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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70% da teoria da libido, depois que a demons­
trei a ele com alguns casos. A resistência que faz visa principalmente 
a própria palavra. A causa temporária dessa irresolução negativa foi, 
ao que parece, minha visita a Viena. Durante muito tempo Bleuler 
viveu como um solteirão empedernido que há de por certo se ter 
dado a um acúmulo de repressão; o inconsciente dele se tornou por 
conseguinte repleto \u2014 e influente. Ainda assim, nele o senhor 
encontra um firme sustentáculo, mesmo que de quando em quando 
venham a surgir várias restrictions mentales. Desde que se apega a 
algo que considera certo, Bleuler nunca volta atrás. Ele possui e 
leva a extremos as virtudes nacionais suíças.
Ficarei extremamente grato por suas idéias sobre D. pr., bem 
como por quaisquer sugestões de sua parte.
A propósito da \u201clibido\u201d, o senhor naturalmente está certo, mas 
minha fé na eficácia dos docinhos \u2014 por enquanto \u2014 tem raízes 
profundas.
Bezzola é um matraqueador confuso que precisa compensar uma 
situação altamente desagradável na vida e que acha que poderá enri­
quecer com as migalhas que caem da mesa do mestre. Um amon- 
toador de detalhes sem clara visão global, mas fora isso um bom 
sujeito ainda nas garras implacáveis do inconsciente. O estudo dele 
me deixou furioso.
Minha mulher e eu soubemos com profunda tristeza da doença 
de sua esposa e desejamos-lhe um pronto restabelecimento.
Com a mais grata estima do j u n g
20 J
Viena, 14 de abril de 1907
Caro colega,
Fique sabendo que o modo como encaro nosso relacionamento 
já se generalizou pelo mundo. Pouco antes de sua visita, fui convi­
dado a fazer em Amsterdam a exposição sobre a qual me fala. 
Declinei com presteza, temendo que viesse a abordar o assunto com 
o senhor e o deixasse me persuadir a aceitar. Mas acabamos conversan­
do sobre temas mais importantes e a coisa foi esquecida. Alegro-me 
agora por saber que a escolha recaiu no senhor. Quando fui convi­
dado, não se previa porém que Aschaffenburg fosse o outro orador;
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eram mencionados dois, Janet1 e um holandês. Parecia haver um 
duelo planejado entre Janet e eu, mas detesto os combates gladiatórios 
diante da plebe insigne e por mais que faça não me resolvo a submeter 
minhas descobertas ao voto de uma turba indiferente;2 meu principal 
motivo, no entanto, é que só penso em me alhear à ciência por uns 
meses e restaurar meu organismo, duramente maltratado, com 
prazeres extracurriculares diversos. Cabe-lhe então medir-se com 
Aschaffenburg. Recomendo-lhe que seja implacável; nossos oponen­
tes são paquidermes, o senhor tem de levar em conta o couro grosso 
que os reveste.
A propósito de outro assunto, devo igualmente saudá-lo como 
meu sucessor. Já estive para lhe falar do caso que vi em Górlitz na 
Páscoa. Dizem-me que a intenção agora é mandá-lo ao senhor, no 
Burgholzli, e que o senhor deseja informações de minha parte. Vou 
portanto escrever ao pai dele, dizendo que estamos em contato direto, 
e relatar o que já pude ver. O senhor há de achar o garoto interes­
sante; é provável que ele extraia de nós pouco benefício, mas que 
muito tenhamos a extrair dele; acima de tudo, será o primeiro caso 
diretamente exposto à nossa observação conjunta. Quero saber se 
o senhor confirma minha hipótese de que não se trata de Dem. pr., 
mas sim de uma obsessão inicial que se prolonga como histeria; 
várias vezes observei esse desenvolvimento inverso e quero saber o 
que seus experimentos de associação dirão do meu diagnóstico. É 
um indivíduo muito bem dotado, um tipo edipiano; ama a mãe, odeia 
o pai (o próprio Édipo original era um caso de neurose obsessiva \u2014 
o enigma da Esfinge) e está doente desde os 11 anos, quando os 
fatos da sexualidade lhe foram revelados; mesmo nos trajes dele há 
uma volta à infância, a rejeição do sexo é enorme, comme une maison, 
como costumava dizer Charcot.3 É difícil lidar com ele, e foi o que 
me impediu de o trazer para Viena, por causa dos acessos, dos gritos 
que dá quando se excita. Esse era, de início, o modo infantil de 
pressionar a mãe. Agora, os ataques são assim: de pé a uma porta, 
pelo lado de fora, grita, esbraveja, delira, cospe. Observando-se a 
cena, nota-se à primeira vista \u2014 embora um verdadeiro psiquiatra
1 Pierre Janet (1859-1947), neurologista e psicólogo francês, um dos pri­
meiros a reconhecer o inconsciente, embora fosse hostil à psicanálise. Jung 
estudou com ele em Paris, 1902-3, na Salpêtrière (estabelecimento para mulhe­
res velhas e insanas).
2 Citado por Jones, II, p. 125/112.
3 Jean-Martin Charcot (1825-93), neurologista francês, médico-chefe na 
Salpêtrière; famoso por seu trabalho sobre histeria e hipnose. Freud estudou 
com ele em Paris, em 1885-86, traduziu suas aulas para o alemão e deu seu 
nome a seu filho mais velho.
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não deva ver senão o que está em Kraepelin4 \u2014 que ele esfrega 
dois dedos da mão direita numa ranhura na almofada da porta (eu 
mesmo o vi) ou, em outras palavras, que imita o coito! Quando lhe 
falei disso, após o ataque, ele o negou; mas disse-me que os garotos 
da escola também gostavam de fazer assim com o dedo (na mão 
fechada). Ao mesmo tempo ele conta: dois, três, quatro, com pausas 
longas, o que de fato faz sentido em relação ao coito, e as cuspidelas 
que dá imitam obviamente a ejaculação. Entrementes ouve vozes (o 
que ocorre também nos intervalos; naturalmente isso apresenta um 
quadro diagnóstico duvidoso, mas não parece paranóia), a expressão 
é de extrema amargura e indignação; ele é, em síntese, o espectador 
de um coito ao qual reage com raiva; e é fácil imaginar a quem 
espia, sabendo-se que dormiu com os pais até a idade de 10 anos. 
Claro está que desempenha os dois papéis, o do espectador que se 
revolta e o do homem que ejacula. Mas o melhor ainda está por vir. 
Coube-lhe também a infelicidade de ser organicamente infantil, nisso 
se incluindo a formação dos genitais que, ele mesmo o informa com 
uma calma altiva, tiveram seu desenvolvimento interrompido aos 11 
anos. O orgulho levou-o a reprimir o desespero quanto a isso e todos 
os afetos relacionados, e aí está a causa dos ataques. Ele jamais 
admitiria dar qualquer importância a esse ato revoltante (para o 
qual, por sinal, não está capacitado)!
Não sei se essa é sua única forma de ataque, nem se a terá 
modificado desde nossa conversa. Quando o vir, trate-o mais ou 
menos como a um colega, ele é extremamente orgulhoso e se ofende 
logo, além de, em minha opinião, ser muito mais inteligente, por 
exemplo, que Aschafenburg.
Devo presumir um período de atividade sexual infantil; com os 
pais dele, nada pude descobrir a respeito. Mas como os pais deixam 
de ver as coisas! Como o garoto tem fimose (um caso para Adler!),5
4 Emil Kraepelin (1856-1926), psiquiatra clínico alemão, professor em 
Munique entre 1903-22; expandiu o sistema de classificação psiquiátrica e dife­
rençou a demência (um termo seu) da psicose maníaco-depressiva. Seu Psy- 
chiatrie: Ein Lehrbuch für Studierende und Aerzte ( l .a ed., 1883) foi muito 
cotado na psiquiatria moderna.
5 Alfred Adler (1870-1937), desde 1902 membro do grupo de Freud em 
Viena; primeiro presidente da Sociedade Psicanalítica de Viena, foi também
o primeiro dos seguidores importantes de Freud a romper com ele, em 1911, 
criando então a \u201cpsicologia do indivíduo\u201d . Após 1926 passou grande parte do 
tempo nos Estados Unidos e aí se estabeleceu em 1935. Morreu em maio de 
1937, em Aberdeen, na Escócia, durante um ciclo de conferências. / Em sua 
monografia Studie iiber Minderwertigkeit von Organen, publicada em fevereiro 
de 1907 e apresentada à Sociedade de Viena em 7-11-06 (ver Minutes, I, p. 36), 
Adler notara que a fimose, i.e., constrição do prepúcio, é freqüentemente 
encontrada em casos de enurese. Na tradução inglesa, Estudo de Inferioridade 
do Órgão e sua Compensação Psíquica (Nova Iorque, 1917), p. 72.
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