Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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quase impossível que não tenha começado a se masturbar muito 
novo.
Minha maior alegria é ver que o senhor não rejeita minhas 
observações sobre a demência. Embora eu costume falar de paranóia, 
friso bem que é a mesma coisa, pois afinal o elemento paranóico da 
demência ainda requer explicação. Hei de, assim, aproveitar o pró­
ximo momento de folga \u2014 hoje, domingo, a vontade é pouca \u2014 
para pôr minhas idéias em forma inteligível. Não as perderei de vista; 
verei o que posso fazer delas, embora esteja muito distante do 
material; espero que o senhor o receba o mais depressa possível.
Pela mesma razão deixo de responder hoje às perguntas que me 
faz sobre a demência. Nem sei de resto se as poderia responder 
adequadamente à distância. Apenas tive a impressão de que o senhor 
está certo ao realçar o fato de que tais pacientes revelam seus com- 
plexos sem resistência e são inacessíveis à transferência, isto é, não 
demonstram qualquer de seus efeitos. É exatamente isso o que eu 
gostaria de traduzir em teoria.
A propósito, parece perfeitamente possível que um caso autên­
tico de histeria ou neurose obsessiva, diagnosticado com o maior 
acerto, faça depois de algum tempo um desvio para a demência ou 
paranóia. Tal possibilidade é facilmente demonstrável em teoria \u2014 
algo do gênero talvez se evidencie no caso do garoto de Gõrlitz.
Minha mulher já está bem melhor e agradece os votos formulados 
pelo senhor e sua esposa. De minha parte, reafirmo a estima de 
sempre.
DR. FREUD
21 J
Burghõlzli-Zurique, 17 de abril de 1907
Caro Professor Freud,
Muito grato pelas novas! Infelizmente devo dizer-lhe logo que 
não dispomos no momento de um só quarto na Clínica, o que é de 
fato lamentável. Uma vez mais vivemos uma fase de pavorosa super­
lotação. Convém lembrar ao mesmo tempo que nossa seção de pa­
cientes internos, sendo uma instituição do Estado, não é pródiga em 
luxo e apenas se adequa às exigências do público em geral. A diária 
para estrangeiros é no máximo de 10-12 francos e há um acréscimo 
de pouco mais de 2 francos por dia para o acompanhante. Barato,
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portanto, e de sofrível a bom. Mas há gente em excesso, como disse, 
e assim é totalmente impossível recebermos seu paciente agora. Espero 
no entanto que o panorama se altere, pois gostaria imenso de inves­
tigar um caso com o qual o senhor já está perfeitamente familiarizado. 
Pode bem ser que dentro de algumas semanas haja de novo um 
quarto livre.
Compreendo quão desagradável lhe há de ser imiscuir-se em 
brigas de galo, pois é justamente assim que o público encara o espe­
táculo e sacia sua sede sublimada de sangue. Como não estou com­
promissado tão a fundo nem assumo a defesa de idéias próprias, aven­
turo-me às vezes a ingressar na arena. A identificação com o senhor, 
mais tarde, há de ser lisonjeira; por ora, é honor cum onere.
O caso de que me fala é do maior interesse. Os ataques parecem 
mais histeriformes que catatônicos. As vozes deixam muito a suspeitar, 
indicando uma divisão bem profunda e a instabilidade do niveau 
mental. Com freqüência tive casos que com aparente facilidade passa­
vam diretamente da histeria ou da neurose obsessiva para a D. pr. 
Mas não sei como lidar com eles. Por acaso já seriam D. pr., 
embora não o suspeitássemos? Ainda muito pouco sabemos, na ver­
dade nada, sobre a natureza íntima da D. pr., e assim pode suceder 
conosco o que se deu com os médicos antigos, os quais supunham 
que a pneumonia de crupe se convertia às vezes em tuberculose. 
Apenas constatamos que em certa fase do desenvolvimento de vários 
complexos interligados o rapport com o meio sofre uma parada total 
ou parcial, a influência do mundo objetivo se torna cada vez menor 
e seu lugar é tomado por criações subjetivas em hipertonía vis-à-vis 
da realidade. Esse estado permanece em princípio estável, flutuando 
apenas em intensidade. Há mesmo casos que chegam a morrer de 
auto-erotismo (estado agudo, sem achados post-mortem). Não faz 
muito voltei a ver um deles. (Morte simbólica?) Se em tais casos 
não há graves anomalias anatômicas, devemos presumir uma \u201cinibi­
ção\u201d. Mas esta é acompanhada por uma compulsão positivamente 
infernal ao auto-erotismo (manifestada também noutros casos) que 
vai muito além dos limites conhecidos; compulsão talvez devida a 
algum mau funcionamento orgânico do cérebro. O auto-erotismo é 
de tal forma destituído de propósito \u2014- um suicídio desde o início \u2014 
que tudo em nós há de se rebelar contra ele. Não obstante, acontece.
Esse \u201cnão obstante\u201d me lembra que não faz muito um jovem 
catatônico instruído bebeu com evidente satisfação meio urinol de 
um companheiro de infortúnio. Trata-se de um masturbador precoce 
que muito cedo manteve atividades sexuais com a irmã. Catatônico 
desde a puberdade. Tem alucinações com a referida irmã, que de vez 
em quando aparece como Cristo (bissexualidade). O quadro então 
se agrava; alucinações intensas, em parte avessas à identificação, em 
parte voltadas para a irmã. Excita-se em crescendo, masturba-se sem 
parar, enfia o dedo rítmica e alternadamente na boca e no ânus, 
bebe urina e ingere fezes. Uma bela celebração auto-erótica, não acha?
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Os seguintes fatos despertaram-me a atenção em vários casos: 
em pacientes (mulheres) de D. pr., as sensações de excitação sexual 
freqüentemente se deslocam da zona original para o ânus e sua 
periferia. Vi recentemente um caso em que se localizavam na boca 
do estômago. Freqüente masturbação anal na D. pr.! Porventura a 
boca do estômago é também abrangida pela teoria sexual infantil? 
Ainda não observei deslocamentos para outras partes do corpo.
A catalepsia é extraordinariamente freqüente nas fases agudas 
da catatonia. Na histeria observei apenas um caso onde um braço 
catalepticamente enrijecido era um símbolo do pênis. Mas o que é, 
na catatonia, a rigidez geral e jlexibilitas cereal É lógico que também 
isso deve ser psicologicamente determinado. Vai de par com os piores 
sintomas da fase mais grave, quando costumam surgir os auto-erotis- 
mos mais crassos. A catalepsia parece ser mais comum entre as 
mulheres; seja como for, é mais comum entre pessoas de ambos os 
sexos que adoecem cedo, demonstrando em geral uma desintegração 
mais profunda e suscitando um prognóstico pior do que as pessoas 
que adoecem tarde e de ordinário estavam em alucinações e idéias 
delirantes (hipótese de Lugaro).1
Bleuler cada vez mais se inclina ao auto-erotismo, mas só em 
teoria. Eis aí sua \u201cvérité en marche\u201d.
Por acaso o senhor tem acesso a The Journal of Abnormal 
Psychology? No Vol. I, n? 7, Sollier- fala de \u201ctroubles cénesthésiques\u201d 
no começo da D. Pr., associados à alteração da personalidade. Afirma 
ele ter observado a mesma coisa, na histeria, no momento de \u201cresti­
tuição da personalidade\u201d (transposição?): afetos em desordem, vasos 
sanguíneos latejantes, medo, explosões, assobios, dores agudas na 
cabeça, etc.* Já viu algo semelhante? Perdoe-me essa perguntação 
sem fim.
Cordialmente, j u n g 
* Rousseau (Confissões), um caso similar.3
1 Crnesto Lugaro (1870-1940), psiquiatra italiano. Foi impossível identi­
ficar sua \u201chipótese\u201d, mas o Dr. Assagioli sugere (em comunicação pessoal) 
que seja numa referência à teoria das pseudo-alucinações de Lugaro.
2 Paul Sollier, \u201cOn Certain Cenesthetic Disturbances, with Particular Re­
ference to Cerebral Cenesthetic Disturbances as Primary Manifestations of 
a Modification of the Personality\u201d, Journal of Abnormal Psychology, 11:1 
(abril-maio de 1907). (A citação de Jung está incorreta.) Sollier (1861-1933) 
era um psiquiatra de Boulogne-sur-Seine.
3 Confissões, Parte I, Livro VI, 1738.
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22 F
Algumas Observações Teóricas sobre a Paranóia1
A situação básica é esquematicamente esta: uma pessoa (f.)2 
concebe o desejo de um encontro sexual com um homem. O desejo 
é reprimido e reaparece da seguinte forma: outras