Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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pessoas dizem 
que o tem, mas ela o nega. (Ou ainda: o encontro ocorreu durante 
a noite contra sua vontade. Mas essa não é a forma primária.)
O que terá acontecido nesse tipo de repressão e reaparecimento 
típico da paranóia? Uma idéia \u2014 o conteúdo de um desejo \u2014- des­
pertou e persistiu, deixou até de ser ics. e se tornou cs. Mas essa 
idéia que se originou no íntimo foi projetada para fora e reaparece 
como realidade percebida, contra a qual a repressão pode manifestar- 
se agora como oposição. A convicção no afeto-desejo é impedida; 
com o reaparecimento da idéia, manifesta-se um afeto contrastante, 
hostil.
A projeção requer explicação. Qual a condição para a projeção 
exterior de um processo íntimo afetivamente catexizado? Considere-se 
a situação normal: nosso cs. só registra originalmente dois tipos de 
experiência. Do exterior, percepções (P) que, como tais, têm quali­
dades e não são afetivamente catezixadas; do interior, as \u201csensações\u201d, 
que são manifestações de impulsos em certos órgãos. Estas são quali­
dades apenas em pequena escala, porém são capazes de forte catexia 
quantitativa. Dentro se localiza o que exibe tal quantidade; fora, 
o que é qualitativo e destituído de afeto.
Naturalmente isso é apenas esquemático. Todos os processos da 
representação mental, pensamento, etc. são compostos por elementos 
de ambos os lados.
O que acontece no extremo P. suscita uma convicção imediata; 
o que se origina no interior da psique é submetido a um teste de 
realidade (que consiste em redução a P.) e à tendência repressiva 
que se dirige contra as qualidades de desprazer das sensações.
O instinto sexual é originalmente auto-erótico; mais tarde em­
presta catexia afetiva, amor objetai, às imagens-memória. Uma fan- 
tasia-desejo como a pressuposta acima tem de ser considerada como 
catexia objetai libidinal, pois precisa submeter-se à repressão para 
se tornar consciente. Isso pode ocorrer de vários modos (de acordo 
com as características marcantes de várias ^Neuroses). Se o con- 
teúdo-imagem foi projetado sobre o extremo P., sua catexia libidinal
1 Escritas e remetidas entre 14 e 20-4-07. Em folhas de 28 x 22,2 cm.
2 Hológrafo: f. inserido antes de Person.
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há de antes ter sido removida dele. Tem então o caráter de uma 
percepção.8
Na paranóia a libido é retirada do objeto; uma inversão disso 
é o pesar, onde o objeto é retirado da libido.
A catexia perdida pela imagem do objeto é substituída de início 
por convicção. A indicação do paradeiro da libido é dada pela hosti­
lidade ao objeto,s encontrada na paranóia. Esta é uma percepção 
endógena da retirada da libido. Tendo em vista a relação de com­
pensação entre catexia objetai e catexia do ego, é provável que a 
catexia retirada do objeto tenha retornado ao ego, i.e., tenha se 
tornado auto-erótica.
O ego paranóide é por conseguinte hiper-catexizado, egoísta, 
megalómano. Uma contraparte do processo aqui suposto é fornecida 
pela histeria de angústia. A histeria se caracteriza muito comumente 
por um excesso de catexias objetais. É um amor objetai extremo e 
até mesmo encobre o período auto-erótico remoto com fantasias 
objetais (sedução). Toma por objeto tudo aquilo que mostre a mais 
tênue relação com um objeto normal, inclusive lugares, motivo pelo 
qual a histeria se vincula a lugares (agorafobia) ou à vizinhança da 
pessoa amada, nisso se opondo à instabilidade, à necessidade de 
viajar da demência precoce.
Na histeria de angústia ocorre o oposto do que presumimos 
quanto à paranóia. Os estímulos externos, i.e., P., são tratados como 
processos íntimos afetivamente catexizados, uma mera representação 
verbal tem o efeito de uma experiência interior; propensão ao medo. 
A mera retirada das catexias objetais para dentro do ego \u2014 para 
dentro da esfera auto-erótica \u2014 ocorre como um processo orgânico 
com transformação do afeto (em desprazer): a saber, na chamada 
hipocondria. É apenas o uso desse mecanismo com propósitos de 
repressão que resulta em paranóia. Assim, a hipocondria está rela­
cionada à paranóia como a neurose de angústia puramente somática 
à histeria que se move através da SM Com grande regularidade a 
hipocondria se aproxima da paranóia, nela se converte ou a ela se 
mescla.
Não se deve esquecer, porém, que na SMM sempre nos havemos 
com uma defesa mal sucedida. O mais certo é que, tentada na 
paranóia, ela inevitavelmente fracasse, i.e., que a libido retorne a seu 
objeto, tente prevalecer e, com uma inversão para o desprazer, 
aferre-se às percepções nas quais o objeto foi transformado.
A luta de retorno evidencia-se na paranóia de modo mais claro 
que nas outras neuroses. A catexia libidina! intensifica as imagens 
que se converteram em percepções, transformando-as em alucinações.
3 Hológrafo: sublinhado a lápis azul, ao que parece por Jung.
4 I.e., a histeria que é psicologicamente determinada.
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O quadro clínico corresponde a essa luta defensiva secundária contra 
a fantasia libidinal, que agora surge de uma parte do aparelho psíquico 
a qual só dá acesso, de ordinário, à realidade.
Convém considerar ainda que, via de regra, esse processo é 
apenas parcial, i.e., afeta apenas um componente da catexia objetai 
libidinal. Toda a libido reprimida é gradativamente transformada em 
convicção, o delírio é tão intenso porque sua fonte é a libido. O 
delírio é uma convicção inspirada pela libido na realidade.
Sumário. A projeção (como a conversão, etc.) é uma variedade 
de repressão na qual uma imagem se torna consciente como per­
cepção; o afeto a ela concernente é destacado e retirado para dentro 
do ego com uma inversão para o desprazer. Partindo do extremo 
perceptual, esse afeto (a catexia libidinal) tenta então se impor uma 
vez mais ao ego.
A paranóia pode ser explicada por ^ processos normais mais 
rapidamente que outras ^neuroses.
Como vê, uma fórmula para o tipo de repressão especialmente 
bem sucedido nas formas alucinatórias da insanidade por excelência 
(amência) pode ser derivada das relações aqui discutidas entre cate- 
xias objetais libidinais e catexias do ego. (Cf. a velha análise nos 
Collected Short Papers.)5
Com toda a estima do d r . f r e u d
Quem dá mais do que tem é um tratante.
23 F
21 de abril de 1907
Caro colega,
É ótimo que me faça tantas perguntas, embora saiba que só a 
poucas posso responder. Também eu começo a encarar nossa troca 
de idéias como uma necessidade, pelo menos aos domingos.
Vejo que o senhor se aproximou mais da minha idéia de que a 
regressão ao auto-erotismo também ocorre na Dem. p. Nada posso
5 Ver atrás, 11 F n. 5; em Sammlung kleiner Schriften zur Neurosenlehre,
I (1906).
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fazer sem o impacto direto do material e sei perfeitamente que três 
análises pormenorizadas sempre nos ensinam mais que tudo o que 
se consegue alinhavar sobre uma mesa de trabalho. O que lhe enviei 
recentemente, originário dessa fonte, só tem valor enquanto corres­
ponde ao que pode ser inferido do material das outras duas 
(estou certo que o senhor compreende essas abreviaturas e não há 
de levá-las a mal). De modo geral creio que devemos ser pacientes, 
renunciando a solucionar certas questões até que tenhamos aprendido 
bem mais. Mas isso não nos impede de fazer conjecturas, e.g., em 
relação a casos que começam de forma histérica ou obsessiva. Em 
termos teóricos, é fácil compreender que de início é tentada a forma 
de defesa habitual na histeria (a supressão, nos limites do incons­
ciente, da imagem catexizada com afeto libidinal) e então, caso isso 
não baste, o método bem mais radical e arriscado de dividir a catexia 
e retraí-la dentro do ego. Com base nessa suposição, o caso que 
começasse como histeria haveria de se desenvolver como D. pr.
Como decerto o senhor percebe, dizer que a histeria se desen­
volve como D. pr. soa incorreto; é melhor supor que a histeria chega 
ao fim