Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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e é substituída pela D. pr. Essas frases só se tornam signifi­
cativas quando levamos em conta certos aspectos do processo de 
repressão. Outro casos podem começar diretamente com o método 
de defesa característico da D. pr.; outros ainda não vão além da 
histeria, porque a complacência somática admite uma descarga ampla. 
Um exemplo análogo, no campo orgânico, seria a relação entre a 
ataxia locomotora e a paralisia geral. Via de regra a paralisia geral 
só ocorre em casos benignos de ataxia locomotora; é bem sabido que 
o processo terciário habitual não progride quando se desenvolve uma 
cegueira sifilítica típica. Mas só um diagnóstico sutil e uma grande 
experiência permitem determinar isso no começo do processo.
Muito me surpreende que em seus casos o retorno ao auto-ero- 
tismo se perfaça com tamanho sucesso. Com toda a probabilidade 
isso se liga ao fato de eles serem jovens; e o momento de predispo­
sição, o fator que nossos autores chamam de \u201cidiopático\u201d, seria uma 
transição incompleta do auto-erotismo para o amor objetai no pas­
sado. Grosso modo a demência corresponderia ao sucesso e a paranóia 
ao fracasso desse retorno, i.e., da libido que provém das percepções. 
Com todas as gradações intermediárias. Creio que o retorno ao auto- 
erotismo é de fato tão catastrófico como o senhor supõe para a 
integridade da personalidade. Ao longo do processo os vários compo­
nentes da libido, e especialmente a bissexualidade, devem ser levados 
em conta. Eu daria tudo para largar minhas ocupações rotineiras e 
juntar-me ao senhor no estudo dessa forma de ^N , sem dúvida alta­
mente instrutiva e suscetível de compreensão imediata; mas infeliz­
mente tenho de ganhar meu pão e continuar nessa roda-viva, o que 
agora me cansa mais que nunca.
L
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Não acredito que uma ^ determinante seja absolutamente indis­
pensável no caso de catatonía (terei de reler Riklin1). O desloca­
mento de catexia há de envolver modificações consideráveis na iner- 
vação, i.e., efeitos fisiológicos, como na histeria. Claro está que, 
consoante minha Teoria da Sexualidade, não interpreto o desloca­
mento da estimulação sexual para a região anal, na Dem. pr. e em 
outras perversões, como substituição das zonas erógenas, mas sim 
como reintegração de sua antiga força primária, a qual, segundo 
minha teoria, se torna acentuadamente clara na Dem. pr. A boca do 
estômago pertence à zona oral ou à seção superior do tubo digestivo 
que inclui o estômago; ver histeria. Não li o artigo de Sollier. Mas o 
que conheço do trabalho dele (histeria, memória) é uma lengalenga 
inepta, uma crassa e errônea interpretação da natureza. Devo dar-lhe 
a impressão de que de novo estou bancando o Papa, fulminando os 
herejes. Mas posso olhar essas coisas de dois modos?
O que o senhor me disse em sua penúltima carta sobre as reações 
de um paciente de Dem. pr. \u2014 falta de resistência na análise e fragi­
lidade de transferência \u2014 clama, a meu ver, por um diagnóstico de 
auto-erotismo. É evidente por si mesmo que esse auto-erotismo apre­
sente um quadro que difira totalmente do de uma criança. Afinal, 
a imbecilidade senil também é muito diferente do comportamento 
infantil, embora represente uma regressão a esse estádio. A capaci­
dade de progredir, em ambos os casos, faz-se ausente. Encontramos 
a mesma diferença entre um afásico e uma criança que aprende a falar.
Minha comparação entre neurose obsessiva e religião saiu ontem 
no primeiro número do novo Zeitschrijt fiir Religionspsychologie.- 
Mas ainda não recebi as separatas. Dá-se o mesmo com a Gradiva, 
que continuo a esperar.
Talvez lhe seja possível receber mais tarde o garoto de Gõrlitz. 
O caso há de ser dos mais instrutivos.
Não se desgaste em demasia na tarefa penosa de representar-me. 
Sua juventude e independência são de fazer inveja. Talvez o senhor 
se exponha ao ônus mas não ao ódio de nossa causa e colha daqui 
a mais uns anos a recompensa integral de seus esforços. Tenha em 
mente que, considerando-se a importância da causa, a resistência 
que lhe fazem talvez não seja tão exorbitante assim.
1 \u201cBeitrag zur Psychologie der kataleptischen Zustände bei Katatonie\u201d, 
Psychiatrisch-neurologische Wochenschrift, V II:32/33 (1906). Ver Jung, \u201cRe­
sumos\u201d, CW 18.
2 \u201cZwangshandlungen und Religionsübung\u201d = \u201cObsessive Actions and 
Religious Practices\u201d, SE IX. Freud lera parte deste estudo na reunião de 6 /3 
da Sociedade das Quartas-feiras, à qual Jung e Binswanger foram convidados 
(e não em 2 /3 , como Jones afirma, II, p. 36/32; também N. do E., SE IX, 
p. 116). Ver Minutes, I, p. 142.
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Mande-me sem demora mais notícias do Burghõlzli! Estou certo 
de que haverá uma grande agitação nos meios eruditos quando o 
senhor e Bleuler manifestarem seu apoio à teoria da libido.
Cordialmente, d r . f r e u d
24 J
Burghõlzli-Zurique, 13 de maio de 1907
Caro Professor Freud,
Antes de mais nada devo pedir desculpas pela longa pausa que 
me permiti. Eu não podia nem queria escrever-lhe senão depois de 
ter chegado a uma visão mais clara das coisas. Acima de tudo queria 
absorver e digerir suas \u201cObservações sobre a Paranóia\u201d. Mas pri­
meiro as novas! Há de, em breve, chegar a seu conhecimento que 
um assistente de Kraepelin massacrou-me numa crítica a meu livro 
sobre Dem. pr. na Zentralblatt de Gaupp.1 Naturalmente o senhor 
também é brindado. As desvalidas contorsões do autor inspiram dó! 
Caso não tenha a Zentralblatt, posso enviar-lhe, para sua edificação, 
uma separata. A despeito de tudo ele se sentiu impelido a escrever 
sobre o livro um artigo inteiro. Vê-se que pelo menos já começam 
a recorrer à artilharia pesada. Mas a coisa por fim me abateu de 
novo, pois vejo quão supremamente difícil é transmitir suas idéias 
ao público.
O auto-erotismo tem mais um triunfo a registrar. Obtivemos 
êxito, recentemente, ao analisar uma jovem catatônica muito inteli­
gente, instruída e dotada de ótima introspecção. Entorpecida e sem 
afetos, ela vagueia, e é difícil mantê-la numa dependência apropriada 
da Clínica, pois de quando em quando se lambuza de excrementos. 
Espontaneamente admitiu que desde a doença se vê em pensamento 
como se tivesse voltado a ser criança; massas de velhas lembranças 
infantis explodem e a submergem por completo. Diz que o hábito 
surgiu simplesmente por lhe ter ocorrido (num desses estados de 
\u201causência\u201d ) não mais ir à privada e defecar sobre um pedaço de
1 Max Isserlin, \u2018\u2018Über Jung\u2019s \u2018Psychologie der Dementia praecox\u2019 und 
die Anwendung Freud\u2019scher Forschungsmaximen in der Psychopathologie\u201d, 
Zentralblatt für Nervenheilkunde und Psychiatrie, n.s., XVIII (maio de 1907). 
Isserlin (1879-1941), neurologista de Munique, assistente de Kraepelin; adver­
sário da psicanálise, morreu na Inglaterra como refugiado de guerra.
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papel no assoalho. Por curiosa coincidência era isso o que fazia em 
criança: começara a defecar no papel porque sofria de constipação 
e se cansava muito de ficar sentada. Em sua doença ocorreram 
estados de excitação localizados, com masturbação. É significativo 
que a sexualidade sensu strictiori não tenha sobre a psique qualquer 
efeito, mas permaneça local, na grande maioria dos casos, e seja 
percebida como algo alheio e opressivo; seja como for, nenhuma 
repressão correspondente ocorre.
Debrucei-me várias vezes nas suas \u201cObservações sobre a Pa­
ranóia\u201d, inclusive junto com Bleuler. A derivação de idéias delirantes 
a partir de afetos ( = libido) ficou-nos perfeitamente clara. Parece- 
me contudo que com sua explicação da \u201cprojeção para fora\u201d o senhor 
pode abranger apenas a gênese da idéia de perseguição. Mas na D. 
pr. todo e qualquer elemento é projetado para fora. As idéias deli­
rantes são, de ordinário, a satisfação do desejo e o sentimento de 
ser ferido numa mistura desconexa. Há uma analogia que sempre me 
pareceu esclarecedora: ao extático religioso que anseia por Deus é