Correspondencia Completa entre Jung e Freud
674 pág.

Correspondencia Completa entre Jung e Freud


DisciplinaLivros17.014 materiais92.466 seguidores
Pré-visualização50 páginas
o que faz a menina de 6 anos de quem atualmente trato: 
conta histórias inventadas e evita com o maior cuidado os momentos 
traumáticos. Até agora só tive fracassos ao aplicar esse método a 
pessoas sem instrução. Frank,\u201cusando a sugestão hipnótica, concentra 
a atenção no momento traumático (supondo-se que haja um!) e faz 
com que o paciente o sinta repetidamente até a exaustão. Não com­
preendo inteiramente o efeito dos dois métodos. Mas suponho que 
ambos, pelo menos em parte, negligenciam a transposição que também 
entra em causa. Num caso meu que tratei desse modo isso ficou 
bem claro: o que a mulher elogiou sobretudo foi a gentileza com 
que me meti na vida dela. A outra, quase levei à morte, torturando-a 
em duas sessões sem obter a imagem visual mais apagada que fosse; 
e só quando lhe fiz perguntas diretas sobre sonhos e sexo ela 
começou a dar sinal de vida. O mais desagradável em tudo isso é 
que Bezzola, mergulhado na cegueira, cultiva a hostilidade ao senhor 
e também já propala mentiras sobre minha pessoa. Coube-lhe discernir 
melhor que eu o caráter dele \u2014 é uma alma pequena [ . . . ] . A 
oposição e a dissenção no próprio campo são o que há de pior.
4 \u201cÜber die Reproduktionsstõrungen beim Assoziationsexperiment\u201d, Jour­
nal für Psychologie und Neurologie, IX (1907) = \u201cDistúrbios de Reprodução 
no Experimento de Associação\u201d, CW 2.
5 Ver atrás, 19 J n. 2; provavelmente o primeiro ensaio.
91
Eis o que Bleuler diz do seu Gradiva: é de fato prodigioso \u2014 
ou bem essas conexões aí estão realmente, ou bem se as pode encaixar 
em qualquer parte. Essa ponta de dúvida ainda maltrata a carne de 
Bleuler, mas não há perigo. No momento ele trabalha num livro 
sobre Dem. prec., do qual podemos esperar muita coisa. A continua­
ção da grande \u201cbatalha Freud\u201d está garantida.
Heilbronner,6 em Utrecht, submeteu meu \u201cDiagnóstico de Evi­
dência\u201d7 a uma crítica pormenorizada no último número do Zeits­
chrift f.d. gesamte Strafrechtswissenschaft. Remeto-a ao senhor, junto 
com a crítica de Isserlin.
Atenciosamente, j u n g
27 F
26 de maio de 19071
Caro colega,2
Muito lhe agradeço o elogio ao Gradiva. Talvez não acredite, 
mas pouquíssimas pessoas se dispuseram a dizer alguma coisa assim; 
sua palavra amiga é praticamente a primeira que eu ouço a respeito 
(faço uma ressalva, pois de outro modo seria injusto, a seu primo (?) 
Riklin). Dessa vez sabia que meu trabalho merecia elogios; o livrinho 
foi escrito em dias ensolarados3 e me deu grande prazer. É verdade 
que para nós nada do que ele diz é verdade, mas acredito que nos 
habilite a desfrutar de nossas riquezas. Não espero, é claro, que 
abra os olhos de nossos tacanhos oponentes; há muito deixei de dar 
atenção a tais pessoas, e é por ter tão pouca esperança de converter 
os especialistas que, como o senhor notou, limitei-me a um interesse
6 Karl Heilbronner, \u201cDie Grundlagen der psychologischen Tatbestands­
diagnostik\u201d, em XXVII (1907). Heilbronner (1869-1914), psiquiatra alemão, 
então diretor da clínica da Universidade de Utrecht.
7 \u201cDie psychologische Diagnose des Tatbestandes\u201d, Juristisch-psychiatrische 
Grenzfragen, IV (1906) = \u201cO Diagnóstico Psicológico de Evidência\u201d, CW 2.
1 Publicada em Letters, ed. E. L. Freud, n.° 124; parcialmente citada e 
discutida por Max Schur, Freud: Living and Dying (N ova Iorque, 1972), p. 249.
2 Hológrafo: Lieber Herr College.
3 \u201cEle o escrevera ao ar livre durante suas férias de verão (1906). . . em 
Lavarone, no Trentino.\u201d \u2014 Jones, II, p. 383/341 e 16/15.
92
superficial por suas experiências galvanométricas pelo que, de resto, 
já me puniu. Para dizer a verdade, uma declaração como a sua 
significa mais para mim que a aprovação de todo um congresso 
médico; antes de mais nada, ela converte em certeza a aprovação 
de congressos futuros.
Mante-lo-ei informado, se tem interesse pela repercussão do 
Gradiva. Até agora só saiu uma crítica, num diário vienense;4 é favo­
rável mas não demonstra mais compreensão ou sensibilidade que, 
digamos, seus pacientes de demência precoce. Ao que parece, os 
jornalistas não conseguem compreender que um sujeito se interesse 
apaixonadamente por idéias abstratas; jamais lhes vem à cabeça 
escrever algo assim: Dizem os matemáticos que 2 X 2 costumam 
ser 4, ou: Garantem-nos que 2 X 2 não costumam ser 5.
O que diz Jensen?5 Ele foi mesmo um encanto. Na primeira 
carta, expressou sua satisfação, etc. e disse que em todos os pontos 
essenciais minha análise correspondia à intenção de sua história. 
Naturalmente não estava falando de nossa teoria, o velho cavalheiro 
parece incapaz de mergulhar em quaisquer idéias que não as suas 
próprias, poéticas. A concordância, no entender dele, deve ser atri­
buída à intuição poética e talvez, em parte, aos estudos médicos que 
efetuou no passado. Fui indiscreto, numa segunda carta, e perguntei- 
lhe pelo elemento subjetivo da obra, a origem do material, onde 
entrava sua pessoa, etc. Ele então me informou que o relevo antigo 
realmente existe e que possui uma reprodução comprada em Nanny,8 
em Munique, mas nunca viu o original. Foi ele mesmo quem con­
cebeu a fantasia de que o relevo representa uma mulher de Pompéia; 
e era ele também quem gostava de sonhar ao meio-dia no calor de 
Pompéia e certa vez entrou, ao fazê-lo, num estado quase visionário. 
Exceto isso, não tem idéia da procedência do material; o começo 
lhe veio bruscamente enquanto trabalhava noutra história. Pôs tudo 
de lado e começou a escrever. Nunca hesitava, o fluxo era contínuo 
e rápido, de uma estirada ele chegou ao fim. Isso sugere que, se 
prosseguia, a análise levaria, através de sua infância, à sua mais 
íntima experiência erótica. Em outras palavras, tudo não passa de 
mais uma fantasia egocêntrica.
Por fim, permita-me expressar o desejo de que em breve o 
senhor também encontre alguma coisa capaz, a seu ver, de interessar
4 De Moritz Necker, em Die Zeit, 19-5-07 (Jones, II, p. 384/343).
5 Para as cartas de Jensen, ver Psychoanalytische Bewegung, I (1929), 
207-11.
6 Ilegível no hológrafo de Freud; mas na carta de Jensen a que ele aqui
se refere consta Nanny, presumivelmente o antiquário Felix Nanny, Türken- 
strasse 92, Munique. A reprodução era provavelmente uma cópia em gesso.
(N a transcrição de Psych. Bewegung o nome aparece como Narny.) Ver foto II.
93
ao grande público, e a confie a mim, para os Papers, e não a Die 
Zukunft.7
O senhor tem razão, mantive silêncio sobre o \u201cpássaro\u201d pelos 
motivos que bem sabe, por consideração pelo editor e o público ou, 
se assim preferir, devido à sua influência apaziguante. Há uma pessoa 
trabalhando com o material que ficaria muito grata pela referência 
do artigo de Steinthal. R.iklin chamou-me atenção para um artigo 
no Zeitschrift de Steinthal de 1869.8 O senhor se refere ao mesmo?
Tenho a curiosidade aguçada pelo livro de Bleuler sobre demên­
cia. É provável que demonstre um avanço em relação à Teoria da 
Sexualidade, mas dificilmente do tipo que se faz necessário. Espero 
que ele não torne seu estudo supérfluo. Realmente suei sangue com 
as duas formulações teóricas que lhe enviei há pouco.9 Não estou 
habituado a trabalhar dessa forma, sem observação direta. Mas tenho 
certeza de que o senhor não foi logrado por esses teoremas. Se apenas 
eu fosse mais moço ou mais rico ou mais frívolo, qualquer dos três, 
iria passar uns meses em sua clínica; juntos, decerto, conseguiríamos 
solucionar o problema.
Realmente não vejo razão para considerar Bezzola e Frank 
como membros de nosso grupo. Se o senhor foi meio áspero ao 
repelir B., eu diria que ele mesmo foi responsável por isso; a julgar 
por suas ações sintomáticas, certamente não estamos sendo injustos.
O mecanismo dos tratamentos que ele aplica com êx ito__se é que
perduram, o que é mais que duvidoso \u2014 é com tocja a certeza, como 
lhe parece, a transferência, que o senhor