Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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outro lado, devo acabar o segundo volume 
de meu \u201cDiagnostic Association Studies\u201d antes de assumir novas 
obrigações. Enquanto isso, deixemos a coisa amadurecer.
Os problemas se avolumam em minha clínica de pacientes exter­
nos. Analisar pessoas sem instrução é uma tarefa ingrata. Vejo-me 
ainda agora às voltas com uma mulher que é incapaz de acabar seu 
café sem vomitar, caso caia dentro uma milha de pão. \u201cÉ que comicha 
na garganta.\u201d Se lhe acontece ver um defunto, passa vários dias 
cuspindo sem parar. Esse sintoma, ao que parece, manifestou-se 
quando da morte da mãe dela. Pode dar-me alguma pista?
4 = \u201cabaixamento do nível mental\u201d ou \u201c baixa tensão de energia\u201d ; termo 
introduzido por Janet (Les Obsessions et la psychasthénie, 1903) e não raro 
empregado por Jung em seus escritos posteriores.
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É curioso ver como as pacientes externas falam de seus com­
plexos eróticos, diagnosticando-se umas às outras, muito embora não 
tenham nenhum discernimento sobre elas próprias. Com pacientes 
sem instrução, o principal obstáculo parece ser a transferência indis- 
farçadamente grosseira.
Reitero meu apreço e lhe agradeço por tudo.
Cordialmente, j u n g
32 F
14 de junho de 1907, Viena, IX. Berggasse 19
Caro colega,
Uma boa nova essa, a de que Genebra encampa nossa causa. 
Claparède e Flournoy sempre demonstraram uma atitude amistosa 
em seu jornal. Folgo muito em saber que pretendem despertar atenção 
para seu trabalho num artigo pormenorizado. Estou certo de que 
também eu me beneficiarei com isso.
Só hoje recebi Sobre a Psicologia e a Terapia dos Sintomas 
Neuróticos, livro escrito por um homem que sem dúvida faz jus ao 
nome que tem, A. Muthmann.1 Leva o subtítulo de \u201cUm estudo 
baseado na teoria das neuroses de Freud\u201d. M. foi assistente em 
Basiléia. Não é inesperado: os suíços parecem de fato ter mais cora­
gem pessoal que os cidadãos livres da Alemanha. Com históricos 
interessantes, curas excelentes, o livro é bom \u2014 sério, modesto. 
Tenho esperança de que o homem se torne um dia um colaborador 
fiel. Ainda lhe falta perspectiva, ele trata em pé de igualdade desco­
bertas feitas em 1893 e os desenvolvimentos mais recentes, e não 
diz uma só palavra sobre a transferência.
Quanto à revista, fio-me na sua palavra. Cada vez mais o 
senhor há de sentir sua necessidade; leitores não nos faltarão. Não 
deveríamos esperar muito, que tal o outono de 1908 para o primeiro 
número?
Sem dúvida o senhor acerta em cheio com o que diz a respeito 
de seus casos de ambulatórios. Tendo em vista os hábitos que adqui­
riram e a vida que levam, a realidade está tão próxima dessas mu­
1 Arthur Muthmann (1875-19\u2014 ), Zur Psychologie und Therapie neuro­
tischer Sym ptom e: eine Studie auf Grund der Neurosenlehre Freuds (Halle, 
1907). Em alemão, Muth = coragem.
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lheres que não lhes permite acreditar em fantasias. Minhas teorias 
seriam todas negativas, se eu as tivesse baseado em declarações de 
criadas. E tal comportamento coincide com outras peculiaridades 
sexuais da classe; pessoas bem informadas garantem-me que essas 
moças hesitam muito mais em se deixar ver nuas do que em praticar 
o coito. Para a felicidade de nossa terapia, aprendemos tanto com 
outros casos, previamente, que podemos contar a tais pessoas sua 
própria história sem ter de esperar por sua contribuição. Embora se 
mostrem propensas a confirmar o que lhes é dito, nunca nos ensi­
nam nada.
É lamentável que meu caso da xícara de chá ainda esteja incom­
pleto, pois poderia lançar luz sobre sua paciente que vomita quando 
há no café uma migalha de pão. A julgar por certas indicações, esses 
sintomas apontam para o excrementicio (urina e fezes). O caso deve 
ser abordado através do nojo inspirado à paciente pelo cadáver da 
mãe. O nojo da mãe provavelmente remonta ao período de esclare­
cimento sexual. Sim, pois esqueci de dizer que também o sangue 
menstrual deve ser contado como excremento. O fator tempo é o 
que torna quase impossível um breve tratamento de ambulatório. 
Nenhuma modificação psíquica pode ser efetuada em períodos tão 
curtos e além disso uma mulher não confia num homem que conheceu 
por tão pouco tempo.
Muito obrigado por enriquecer meu conhecimento com suas 
comunicações de casos de Dem. pr. Ao último, a mulher de 36 anos 
com fixação na mãe, pode-se chamar de ideal. A pergunta: Para onde 
vai a libido que se desligou da mãe? talvez encontre resposta no 
prosseguimento da análise, caso ela tome o mesmo rumo de alguns 
outros casos seus: o do auto-erotismo.
E interessante que essa ç.atexia materna reprimida tivesse desde 
o início um componente patológico (compensativo). Na revulsão 
do pai está a origem de seu excesso; seria de se presumir um estado 
preliminar de afeição infantil normal por ele. Teoricamente signifi­
cativo, quem sabe.
Alegro-me em saber, já que planeja visitar Paris e Londres, que 
seu período de excesso de trabalho findou. Desejo-lhe um bom com­
plexo de Paris, mas não gostaria de o ver reprimindo seu complexo 
de Viena. É provável que nossas dificuldades com os franceses sejam 
principalmente devidas ao caráter nacional; nunca foi fácil exportar 
para a França o que quer que seja. Janet tem uma boa cabeça, mas 
prescindiu da sexualidade no início e agora não tem como ir mais 
longe; a volta, em ciência, não existe. Mas não há dúvida de que 
você terá coisas interessantes para ouvir.
Com as mais cordiais saudações do
DR. FREUD
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33 J
Burghõlzli-Zurique, 28 de junho de 1907
Caro Professor Freud,
Antes de tudo, falemos de \u201cnegócios\u201d : o Dr. Stein,1 de Budapest, 
e outro especialista mental, o Dr. Ferenczi,2 querem visitá-lo em 
Viena e pediram-me para lhe perguntar quando seria mais conve­
niente. O Dr. Stein é ótima pessoa, muito inteligente, e já realizou 
trabalhos experimentais comigo. De certo modo é um principiante 
na arte, mas assimilou com surpreendente rapidez e pôs em prática 
seus fundamentos. Penso que seria melhor se entrasse diretamente 
em contato com ele (Dr. Stein, Semmelweisgasse 11, Budapest).
Muthmann foi médico-assistente no hospício de Basiléia. La­
mento nunca o ter conhecido pessoalmente. Encomendei de imediato 
o livro dele. Bleuler me disse que há uma curiosa passagem (corri­
gida) muito característica da coragem viril do Prof. Wolff.3 Muth­
mann, a propósito, não é suíço, mas pode ser que tenha temperado 
os nervos na Suíça.
Boite,4 médico-chefe em Bremen, que há pouco assumiu sua 
defesa e cujo estudo sairá no Zeitschrift fiir Psychiatrie, é, por tudo 
quanto sei, um bremenense, vindo portanto de uma cidade livre?
O ambiente, é claro, faz uma grande diferença.
Envio-lhe nessa data um estudo de uma aluna minha no qual
talvez o senhor encontre interesse. Creio que as idéias básicas pode­
riam ser desenvolvidas numa teoria estatística dos complexos.
1 Philip (Fiilóp ou Philippe) Stein (1867-1918), psiquiatra húngaro for­
mado em Viena. 1906-7, pesquisas sobre as experiências de associação no 
Burghõlzli, tendo encontrado Bleuler no Congresso Internacional de Antialcoolis- 
mo, Budapest, 1905. Fundou na Hungria o movimento contra o álcool. Ao 
que parece, afastou-se da psicanálise após 1913; foi neurologista-chefe no 
Hospital dos Trabalhadores de Budapest.
2 Sándor Ferenczi (1873-1933), Fraenkel de nascimento, neurologista e 
psiquiatra húngaro, tornou-se amigo íntimo e colaborador de Freud. Fundador 
da Sociedade Psicanalítica Húngara, em 1913, e membro original do \u201cComitê\u201d 
(ver o comentário que se segue a 321 J).
3 Gustav W olff (1865-1941), professor de psiquiatria em Basiléia, expo­
ente do neovitalismo e da teleologia.
4 Richard Boite, \u201cAssoziationsversuche ais diagnostisches Hilfsmittel\u201d, 
Allgemeine Zeitschrift für Psychiatrie, LXIX (1907), sintetizado por Jung em 
seus \u201cResumos\u201d, CW 18.
5 As \u201ccidades livres\u201d alemãs, na Idade Média, estavam sob a proteção 
direta