Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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do imperador. Atualmente, só Hamburgo e Bremen permanecem como 
c'dades autônomas.
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Graças a seu gentil presente, vejo que sua Psicopatologia da 
Vida Cotidiana saiu em segunda edição \u2014 o que me dá sincero 
prazer. Foi bom que tivesse aumentado consideravelmente o texto \u2014 
quanto mais exemplos melhor. Espero que em breve também consiga 
lançar uma nova edição de A Interpretação de Sonhos;6 às vezes 
tenho a impressão de que a sua profecia, de que venceríamos em 10 
anos, está sendo cumprida. Todos os lados se mexem. O senhor há 
de também ter recebido o livro de Otto Gross;7 por certo não encampo 
a idéia dele de que o senhor será apenas um pedreiro a trabalhar 
na obra inacabada do sistema de Wernicke.8 Essa demonstração de 
que todas as linhas convergem sobre sua pessoa é, porém, muito 
gratificante. Excluindo-se isso, o livro de Gross é pródigo em idéias 
bizarras, embora no fundo ele seja muito inteligente. Estou ansioso 
por sua opinião.
Como anda o Gradival Saíram novas críticas?
Talvez lhe interesse saber que a paciente de D. pr. com trans­
ferência para o irmão começou subitamente a ter delírios de gran­
deza: declara que experimentou pessoalmente o conteúdo da Questão 
Sexual9 de Forel, pretende ser aparentada com as mais diversas pessoas 
importantes, suspeita que os médicos tenham as relações sexuais mais 
elaboradas, quer se casar com um assistente, diz que outro (que é 
casado) engravidou uma paciente, Fräulein Lüders, bem como outra, 
Fräulein Skudler, e tem portanto de se divorciar da esposa. (\u201cLuder\u201d, 
para nós, é uma mulher de má reputação sexual!). Por enquanto 
ainda não sei mais detalhes. O médico com quem quer se casar tem 
por acaso o mesmo nome dela (como o irmão!).
Minha experiência com a viagem foi pauvre. Tive uma conversa 
com Janet e fiquei muito desapontado. O conhecimento que ele tem
6 Die Traumdeutung (orig. 1900) = A Interpretação de Sonhos, Edição 
Standard Brasileira, IV e V. Para a 2.a ed., ver 112 F n. 8.
7 Otto Gross (1877-1919) estudou medicina em Graz e foi assistente na 
clínica de Kraepelin em Munique. Jung se refere a seu Das Freud\u2019sche Ideo- 
genitätsmoment und seine Bedeutung im manisch-depressiven Irresein Kraepelins 
(1907), que cuida de casos da clínica. / Jung dedicou um capítulo de Psycho­
logical Types (orig. 1921; ver CW 6, § 461 s.) às idéias tipológicas de Gross 
em Die zerebrale Sekundärfunktion (1902) e Über psychopathische Minder­
wertigkeiten (1909). A vida de Gross terminou em penúria, drogas e inanição. 
Ver Martin Green, The Von Richthofen Sisters (Nova Iorque, 1974); uma das 
irmãs \u2014 Frieda, que mais tarde se casou com D. H. Lawrence \u2014 teve um 
caso com Gross em Munique, em ou antes de 1907. Em suas memórias ele 
aparece como \u201c Otávio\u201d ; ver Frieda Lawrence: The Memoirs and Correspon­
dence, ed. E. W. Tedlock, Jr. (1964), p. 94-102. Ela descreve Gross como um 
vegetariano que se abstinha de álcool.
8 Cari Wernicke (1848-1905), professor de psiquiatria em Berlim, Breslau 
e Halle; descobriu o centro da fala no cérebro e publicou um importante 
livro sobre afasia (1874).
9 Die sexuelle Frage (1905); trad. C. F. Marshall, A Questão Sexual 
(1925).
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da Dem. pr. é dos mais primitivos. Dos últimos acontecimentos, nisso 
se incluindo o senhor, não entende nada. Vive apegado à rotina e, 
diga-se de passagem, é meramente um intelecto, não uma personali­
dade, um causeur vazio e um típico burguês medíocre. O grandioso 
traitement par isolement de Déjerine10 no Salpêtrière é uma péssima 
blague. Tudo se pareceu indescritivelmente infantil, isso para não 
falar da soberba confusão que enturva sem exceção as cabeças de 
tal clínica. Essa gente está com 50 anos de atraso. Irritei-me tanto 
que acabei por desistir da idéia de ir a Londres, onde decerto haverá 
menos, muito menos para ver. Em vez disso, consagrei-me aos 
castelos do Loire. Um complexo de Paris? Nem por sombra. Infeliz­
mente meu tempo é ainda solicitado em excesso. Para o verão e o 
outono, já há o pedido de três pessoas que querem trabalhar comigo; 
tudo muito internacional: um da Suíça, um de Budapest, um de 
Boston. A Alemanha, por enquanto, decepciona. Nessas circunstân­
cias, o lançamento de um Archive torna-se um problema mais urgente. 
Hei portanto de considerá-lo com maior atenção. Certamente será 
difícil encontrar uma editora. Mas antes de dar passos definitivos 
nesse sentido devo terminar o segundo volume dos Diagnostic Asso- 
ciation Studies. Isso implica em um volume ainda maior de trabalho, 
pois os escritos de alunos são muito mais aborrecidos que os da gente.
Binswanger Jr. anda agora psicanalisando em Jena. Espero que 
aí venha a deixar um rastro duradouro. O tio dele quer que eu vá 
visitá-lo. Infelizmente, por mais proveitoso que pudesse ser, não tenho 
tempo.
Com a mais sincera estima do
JUNG
34 F
1 de julho de 1907, Viena, IX. Berggasse 19
Caro colega,
Fico contente em saber que está de volta a seu trabalho no 
Burghõlzli e deleito-me com suas impressões de viagem. O senhor há 
de imaginar quão grande seria meu desagrado se seu complexo de 
Viena fosse obrigado a partilhar com um complexo de Paris a catexia
10 Joseph Déjerine (1849-1917), neurologista suíço, diretor do Salpêtrière 
de Paris.
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disponível. Por sorte, como me diz, nada disso aconteceu, o senhor 
pôde ver pessoalmente que os dias do grande Charcot findaram e 
que os novos rumos da psiquiatria estão conosco, entre Zurique e 
Viena. Saímos assim salvos e ilesos de um primeiro perigo.
Em sua última canta o senhor aborda um número incomum de 
assuntos de \u201cnegócios\u201d que exigem resposta. O senhor está certo, o* 
negócio vai bem. Resta naturalmente saber se levará dez anos e se 
terei condições de esperar tanto. Há sem dúvida uma tendência ascen­
dente. A atividade de nossos adversários não pode deixar de ser 
estéril; cada qual lança seu petardo e apregoa ter-me esmagado (e 
agora ao senhor também); mas isso é tudo. Aí termina a atividade 
deles. Já os que se juntam a nós são capazes de demonstrar os 
resultados de seu trabalho; após o que continuam a trabalhar e a 
demonstrar de novo. Compreensivelmente, cada um de nós trabalha 
a seu modo e talvez contribua com sua própria distorção específica 
para o entendimento da tarefa ainda inconclusa.
Nada sabia sobre Boite, em Bremen, antes de o senhor se referir 
a ele. Sobre o livro de Gross,1 o que mais me interessa é que provém 
da clínica do Super-Papa ou pelo menos foi publicado com a per­
missão dele. Gross é um homem muito inteligente; mas para meu 
gosto há teoria demais e observação de menos em seu livro. A aná­
lise que faz é incompleta \u2014 não por culpa dele, sem dúvida; o ponto 
principal, os passos que levariam ao roubo, inquestionavelmente con­
fere, mas a motivação é inadequada. Notou como ele abusa dos super­
lativos? Todo mundo é um \u201clídimo pioneiro\u201d, um \u201carauto de uma 
nova era\u201d, etc., exceto eu, o que já é uma distinção. Nisso sem dú­
vida se reflete a vida afetiva anormal de G., sobre a qual o senhor 
me falou. Ele também me lembra um pouco os antigos egípcios, que 
nunca modificavam seu panteão, mas sobrepunham novos deuses e 
conceitos ao que já existia, disso resultando uma confusão incrível. 
Gross faz uma síntese de mim e seus velhos deuses: Wernicke, Anton,2 
etc. Sou seguramente um mau juiz de meus colegas; a respeito do 
trabalho de Wernicke em psicologia, sempre achei que ele nunca teve 
uma idéia realmente nova, mas apenas estendeu à psique um hábito 
de anatomista que tem, qual seja, o de dividir tudo em seções e ca­
madas.
Sobre meu Gradiva quase nada há a dizer. O mesmo jornalista3 
que o criticou favoravelmente no Zeit de Viena dedicou-lhe outro 
artigo \u2014 muito melhor \u2014 no suplemento do Allgemeine Zeitung. Deve 
estar querendo alguma coisa de mim. Será possível que os melhores 
livros sejam os que não despertam atenção?
1 Das