Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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Freud\u2019sehe Ideogenitätsmoment.
2 Gabriel Anton (1858-1933), psiquiatra e neurologista austríaco; profes­
sor em Graz, depois em Halle; renomado como cirurgião cerebral.
3 Moritz Necker.
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O novo desenvolvimento da paciente de demência que encontra 
seu irmão no médico é um esplêndido exemplo de transferência pa- 
ranóide. Fráulein Lüders naturalmente outra não é senão a própria 
paciente.
Li o estudo de sua aluna4 com grande interesse e respeito pelas 
formulações dela sobre questões de psicologia individual. Claro está 
que em tudo noto o reflexo de suas idéias e de sua serenidade. Acre­
dito sem dúvida que a atitude em relação ao examinador é um fator 
primário na determinação do conteúdo das reações. Essa seria a me­
lhor maneira de realizar \u201cestudos de transferência\u201d. Por simples brin­
cadeira, eu mesmo me examinei deixando-me reagir às palavras \u2014 
estímulo que ela emprega no texto. Deu muito certo e fui capaz de 
explicar as mais estranhas respostas. Um erro perturbador foi que, 
enquanto eu copiava uma palavra, minha reação a ela era afetada 
pela palavra seguinte. Reagi a Buch \u2014 Buschklepper, por exemplo, e 
depois a Frosch \u2014 Busch,5 Naturalmente, tudo então me ficou claro. 
Frosch havia codeterminado minha reação a Buch ao me lembrar de 
nosso amigo Busch.6
\u201cPor seis longas semanas o sapo esteve doente,
Mas agora ele fuma decididamente.\u201d
Passei ontem meu primeiro bom dia após várias semanas de 
dispepsia. Antes disso estive reagindo exclusivamente a complexos 
da libido pessoais, não raro de modo muito obscuro e artificial. O 
\u201cKlepper\u201d procede da cleptomania no livro de Gross.
Quanto à revista, estamos então combinados. A decisão sobre a 
data pode ficar para depois.
Segue pelo correio outro breve trabalho meu,7 um folhetim que 
um colega de Hamburgo me forçou a fazer. Submeta-o por favor a 
seu crivo.
Pelo que me adianta, deduzo que o senhor andará muito ocupa­
do durante os próximos meses quentes de verão. O número de alunos 
que o procurou é respeitável e as experiências de associação pro­
4 Emma Fürst, \u201cStatistische Untersuchungen über Wortassoziationen und 
über familiäre Übereinstimmung im Reaktionstypus bei Ungebildeten\u201d, Journal 
für Psychologie und Neurologie, IX (1907) = \u201cInvestigações Estatísticas sobre 
Associações de Palavras e sobre Acordo Familial em Tipo de Reação entre 
Pessoas sem Instrução\u201d, Estudos em Associação de Palavras (1918). Após 
1913, a Dra. Fürst permaneceu na escola freudiana.
5 = livro \u2014 salteador; sapo \u2014 moita.
6 Wilhelm Busch (1832-1908), poeta humorístico e ilustrador alemão. Os 
versos são de \u201cDie beiden Enten und der Frosch\u201d, Münchener Bilderbogen, 
n.° 325.
T \u201cZur sexuellen Aufklärung der Kinder\u201d , Soziale Medizin und Hygiene,
II (1907) = \u201cThe Sexual Enlightenment of Children\u201d (An Open Letter to 
Dr. M. Fürst), SE IX. (Não confundir com Emma Fürst.)
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piciam um excelente meio de manter os jovens ativos. Espero an­
siosamente que a 14 do mês em curso eu me transforme num viajante 
desimpedido; esse ano foi duro para mim, embora também tenha 
trazido algumas coisas boas, a começar por sua visita e as expecta­
tivas que a ela se ligam. Acho que realmente mereço passar algum 
tempo com um mínimo de coisas na cabeça, luxo que outros se per­
mitem depois de menos trabalho. Até que eu esteja refeito, portanto, 
não espere de mim uma só palavra inteligente. A despeito disso, tenho 
o vislumbre de uma idéia para um estudo sobre o \u201cproblema episte­
mológico do ics.\u201d8 e não deixarei de levar comigo alguns livros, para 
ver no que dá.
O Dr. Stekel,® a quem o senhor conhece e cujo forte não é, de 
ordinário, a faculdade crítica, enviou-me um trabalho sobre casos de 
ansiedade, escrito a pedido do Berliner Klinik10 (!). Persuadi-o a 
considerar esses casos de \u201chisteria de angústia\u201d lado a lado com a 
\u201chisteria de conversão\u201d . Um dia desses pretendo fazer uma defesa 
teórica desse procedimento11 e entrementes o recomendo ao senhor. 
Ele nos permitiria a inclusão das fobias.
Com toda a estima do
DR. FREUD
35 J
Burghõlzli-Zurique, 6 de julho de 1907
Caro Professor Freud,
Importa-se que o aborreça com algumas experiências pessoais? 
Gostaria de contar-lhe um fato instrutivo, algo que me aconteceu em 
Paris. Lá conheci uma mulher germano-americana que me causou 
uma impressão muito boa \u2014 a Sra. St.,1 de mais ou menos 35 anos.
8 Nunca escrito.
9 Wilhelm Stekel (1868-1940), um dos quatro membros originais da So­
ciedade das Quartas-feiras (1902), anteriormente analisado por Freud; tido 
como escritor brilhante e psicanalista intuitivo. Foi editor (a princípio com 
Adler) da Zentralblatt, que continuou por um ano após separar-se de Freud 
em 1911. Passou depois a viver em Londres. Para o desenvolvimento de seus 
estudos de casos de ansiedade, ver 61 F n. 5 e 98 J n. 3.
10 Presumivelmente o Medizinische Klinik, onde o artigo de Stekel não 
pôde ser localizado.
11 Freud a fez em \u201cAnalysis of a Phobia in a Five-year-old Boy\u201d (1909), 
SE X, 115.
1 Abreviatura de Jung.
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Estivemos juntos numa festa, por algumas horas, e falamos de paisa­
gens e outros assuntos pouco importantes. Serviram-nos café. Ela 
recusou, dizendo-se incapaz de tolerar essa bebida pura, só um gole 
já a levava a se sentir mal na manhã seguinte. Adiantei-lhe que isso 
era um sintoma nervoso; talvez apenas em casa o café lhe parecesse 
intragável, ela decerto o saberia apreciar muito bem estando \u201cem 
outras circunstâncias\u201d .1^ Bastou que essa frase infeliz me escapasse 
para que eu me sentisse completamente embaraçado, mas logo des­
cobri que \u2014 por sorte \u2014 \u201cnão foi notada\u201d por ela. Devo observar 
que não sabia absolutamente nada sobre a vida da senhora em ques­
tão. Logo depois outra senhora sugeriu que cada um de nós dissesse 
um número \u2014 números esses que teriam sempre um significado. A 
Sra. St. disse \u201c3\u201d. Uma conhecida dela então exclamou: \u201cSó pode 
ser você, seu marido e o cachorro.\u201d A Sra. St. retrucou: \u201cOh, não, 
eu estava era pensando que as coisas boas sempre vêm três a três!\u201d 
Isso me fez compreender que seu casamento era infecundo. A Sra. St. 
tinha caído em silêncio mas bruscamente me disse com uma ponta 
de melancolia na voz: \u201cEm meus sonhos meu pai sempre aparece 
numa transfiguração mágica.\u201d Vim a saber que o pai dela é médico. 
Alguns dias depois, apesar de meus protestos, ela me deu uma gra­
vura maravilhosa. Sapienti sat! Minha mulher, que não é nada boba, 
disse recentemente: \u201cVou escrever um manual psicoterapêutico para 
cavalheiros.\u201d
Uma paciente histérica contou-me que não lhe saía da cabeça 
um verso de um poema de Lermontov.2 O poema se refere a um
ia Hológrafo: \u201cin andere Umstande kommem\u201d, que também equivale ao 
nosso \u201cem estado interessante\u201d = grávida.
2 De acordo com V. Nabokov, há dois erros na referência ao pássaro 
libertado: \u201cO poema não é de Lermontov e a paráfrase é absurda. O autor do 
poema é Pushkin, que o escreveu em Kishinev, em 1822, dois anos após sua 
expulsão de São Petersburgo:
Ptichka (passarinho)
Em qualquer outro país, 
mantenho um costume antigo 
de minha terra natal: 
dou liberdade a um pássaro 
de primavera em radioso dia.
Ganho, portanto, um consolo.
Por que zangar-me com Deus?
Se a pequena criatura 
Como essa, posso ainda 
Regalar com a liberdade!\u201d
(Tradução para o inglês de Vladimir Nabokov)
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prisioneiro cuja única companhia é um pássaro engaiolado. Uma só 
vontade anima esse prisioneiro: nalgum momento da vida, como feito 
mais nobre, conceder liberdade a uma criatura. Abre então a gaiola 
e deixa escapar o pássaro a que tanto se apega. Já a paciente, sabe 
qual é a maior vontade que tem? \u201cUma vez em minha vida, gostaria 
de ajudar alguém a atingir a liberdade perfeita através do tratamento 
psicanalítico.\u201d Em sonhos ela se condensa comigo. Admite que de 
fato a maior vontade que tem é ter um filho meu que