Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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lhe realizasse
todos os próprios desejos irrealizáveis. Para tanto, naturalmente, pri­
meiro eu teria de deixar \u201co pássaro escapar\u201d. (Em alemão suíço, 
dizemos assim: \u201cSeu passarinho já cantou?\u201d )
Um encadeamento interessante, não acha? Por acaso conhece o 
desenho pornográfico de Kaulbach:3 \u201cQuem Compra os Deuses do 
Amor?\u201d (Falos alados que parecem galos, envolvendo-se com as 
moças em macaquices diversas.)
Não faz muito pedi sua opinião sobre uma paciente histérica
que nunca consegue terminar o café. Como eu, o senhor deduziu
uma analogia excrementicia. Evidencia-se agora que até os 6 anos (?) 
ela sofreu de um prolapso anal que às vezes se manifestava mesmo 
sem evacuação e sempre tinha de ser reposto no lugar pela mãe. 
Mais tarde, um prurido no ânus, que a paciente remediava sentando- 
se com o traseiro nu no fogão. É também aquecendo o traseiro que 
ela alivia as atuais dores histéricas, embora essas dores se localizem 
nos quadris e na perna esquerda. As parestesias anais perduraram até 
quase os 30 anos. Para tentar aliviá-las, posteriormente, metia-se na 
cama da irmã e se esquentava contra ela. Durante a análise tive a 
atenção voltada para o caso do ânus quando a paciente me disse que 
era preciso alguém ouvir-lhe a parte inferior das costas, havia um 
\u201crangido\u201d muito estranho nos ossos. Aos 20 anos teve um grave ata­
que de diarréia. A mãe quis chamar o médico, mas ela caiu num 
estado de excitação nervosa, negando-se a ser examinada porque 
temia que o doutor lhe visse o ânus. Mas que luta medonha para 
trazer à tona a história toda!
E agora um pouco de misticismo histórico!
Viena produziu 3 reformadores médico-antropológicos: Mesmer, 
Gall,4 Freud. Mesmer e Gall sentiram-se oprimidos em Viena, Freud 
(em sintonia com a época) não foi reconhecido. Mesmer e Gall mu- 
daram-se então para Paris.
3 Um desenho (sem data) de Wilhelm von Kaulbach (1805-74), na 
Staatliche Graphische Sammlung de Munique, que ilustra o poema de Goethe 
\u201cWer kauft Liebesgötter (1795). Reproduzido em Eduard Fuchs, Das erotische 
Element in der Karikatur (Berlim, 1904), p. 221.
4 Franz Mesmer (1734-1815), médico austríaco, pesquisador do magnetis­
mo animal, o chamado mesmerismo; Franz Joseph Gall (1758-1828), médico 
alemão, fundador da frenologia. Ambos se formaram na Universidade de Viena 
e mais tarde emigraram para Paris.
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As idéias de Mesmer permaneceram confinadas em Paris até 
que Lavater5 de Zurique as introduziu na Alemanha, a começar por 
Bremen. O hipnotismo reviveu na França e foi introduzido na Ale­
manha por Forel de Zurique. O primeiro discípulo de Forel, com 
muitos anos de serviço, é Delbrückc de Bremen; agora é ele quem 
dirige o hospício lá.
O reconhecimento clínico, para Freud, começou em Zurique. O 
primeiro hospício alemão a reconhecer Freud foi Bremen (indepen­
dentemente de relações pessoais conosco). À exceção de Delbrück, o 
único assistente alemão no Burghõlzli (tanto quanto sei) é o Dr. 
Abraham7 de Bremen. Veio para aqui de Berlim e não mantém rela­
ções com Delbrück.
Dirá sem dúvida o senhor que pensar por analogias, tão bem 
proposto por seu método analítico, dá poucos frutos. Mas achei graça 
nisso.
A Dem. pr., por enquanto, entra em repouso forçado. O serviço 
militar8 me obriga a partir para Lausanne, por 3 semanas, a 14 de 
julho. Depois disso meu chefe deve passar um mês fora. Volto então 
a ter toda a Clínica sobre meus ombros. A perspectiva é, assim, ne­
gra. O ensaio de Binswanger,9 espero, sairá em breve. Verá então 
que também o senhor absorveu os segredos do galvanômetro. Suas 
associações são de fato excelentes!
Com a mais sincera estima do
JUNG
Neurose de angústia, histeria de angústia 
ainda estão meio obscuras para 
mim \u2014 infelizmente \u2014 por falta 
de experiência.
5 Johann Kaspar Lavater (1741-1801), clérigo, poeta e filósofo místico 
suíço; fundador da fisiognomonia.
6 Anton W. A. Delbrück (1862-1932), psiquiatra alemão formado no 
Burghõlzli; diretor do hospício de Bremen a partir de 1898.
7 Karl Abraham (1877-1925); estudou psiquiatria em Berlim, passou a 
integrar a equipe do Burghõlzli no fim de 1904 e se tornou primeiro assistente 
de Bleuler. Seu primeiro contato com Freud ocorreu em junho de 1907, quando 
Abraham lhe enviou um trabalho; ver a próxima carta, n. 4, e Freud/Abraham 
Lelters (1965), p. 1. Em nov. de 1907 demitiu-se do Burghõlzli e retornou 
a Berlim; conheceu Freud pessoalmente em dezembro (ver 55 F, 57 F ) e 
logo se tornou um íntimo colaborador. Em 27-8-08 Abraham fundou a Socie­
dade Psicanalítica de Berlim. Um dos membros originais do \u201cComitê\u201d (ver o 
comentário que se segue a 321 J).
8 Na Suíça o serviço militar é compulsório. Jung servira de início na 
infantaria, em 1895, e em 1901 tornou-se oficial do corpo médico. Capitão em 
1908, comandante de unidade em 1914, reformou-se em 1930. Anualmente 
eram obrigatórias duas semanas de serviço.
9 Em seu ensaio sobre o fenômeno psicogalvânico (ver 61 F n. 1), Bins 
wanger inclui várias citações da obra de Freud.
115
36 F
10 de julho de 1907, Viena, IX. Berggasse 19
Caro colega,
Escrevo-lhe \u2014 brevemente e às pressas \u2014 a fim de o alcançar 
antes de sua partida e desejar-lhe um período de descanso do esforço 
mental. Será bom para o senhor.
Os \u201ctrifles\u201d1 de sua última carta, todos deliciosos, lembram-me 
que também eu chego ao fim de mais um ano de trabalho. A 14 do 
corrente parto para:
Lavarone in Vai Sugana2 
Tirol do Sul
Hotel du Lac
Não gostaria de ficar todo esse tempo sem notícias suas \u2014 não 
estarei de volta antes do fim de setembro \u2014 pois suas cartas já se 
tornaram uma necessidade. Hei de, assim, mantê-lo a par de minhas 
andanças. Quando o senhor estiver lendo sua conferência em Amster- 
dam, espero estar na Sicília. A despeito de todas as distrações, uma 
parte de meu pensamento estará voltada para lá. Espero que o se­
nhor conquiste o reconhecimento que deseja e merece; para mim, 
também, isso significa muito.
Já me correspondo com o Dr. Abraham. Tenho todos os motivos 
para estar profundamente interessado no trabalho que faz. Que tal 
é ele? A carta e o artigo3 dele predispuseram-me muito a seu favor. 
Conto receber um dia desses o manuscrito de seu primo Riklin. Pa- 
rece-me ter encontrado uma mina de homens singularmente delicados 
e capazes, ou será que deixo a satisfação pessoal toldar-me o julga­
mento?
1 = assuntos circunstanciais, coisas de somenos; em inglês no original.
2 A sudoeste de Trento; hoje Itália.
3 \u201c Uber die Bedeutung sexueller Jugendtraumen für die Symptomatologie 
der Dementia praecox\u201d, Zentralblatt für Nervenheilkunde und Psychiatrie, n.s., 
XVIII (1907) = \u201cDo Significado do Trauma Sexual na Infância para a Sinto­
matologia da Demência Precoce\u201d \u201d, Clinicai Papers (1955).
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Ainda hoje recebi a carta de um estudante de Lausanne que de­
seja falar sobre minha obra numa reunião científica em casa do Do­
cente Sternberg.4 As coisas estão ficando animadas na Suíça.
Aceite a estima de sempre. E não se esqueça, durante a longa 
ausência,
deste que muito o preza, d r . f r e u d
37 J
Burghõlzli-Zurique, 12 de agosto de 1907
Caro Professor Freud,
Perdoe-me o longo silêncio. As três semanas de serviço militar 
não me deixaram um só momento livre. Ficávamos em ação das 5 da 
manhã às 8 da noite e depois disso um cansaço de cão me dominava 
sempre. Quando voltei, problemas aos montes me esperavam na Clí­
nica e ainda por cima o Prof. Bleuler e o primeiro assistente1 entra­
ram em férias. Assim tenho trabalho de sobra para me manter ocupa­
do. Para completar o secretariado do Congresso de Amsterdam pas­
sou-me a exigir meu manuscrito, que por sinal não existia ainda. Tive 
de me lançar de corpo e alma no preparo de minha experiência. É 
um osso duro de roer! A proeza mais difícil é lixiviar a riqueza de 
suas idéias, condensar a essência e