Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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desde 1903. O livro está cheio de citações e extensas discussões da 
obra de Freud, e no prefácio, datado de julho de 1906, Jung faz as 
seguintes declarações:
Mesmo uma leitura superficial de minha obra há de mostrar 
o quanto devo às brilhantes descobertas de Freud. Como Freud 
ainda não recebeu o reconhecimento e a apreciação que merece 
e, ao contrário, é combatido mesmo nos círculos mais compe­
tentes, espero que me seja possível definir minha posição em 
relação a ele. Tive a atenção atraída para Freud pelo primeiro 
livro seu que li, A Interpretação de Sonhos, após o que tam­
bém estudei seus outros textos. Posso garantir que, de início, 
mantive naturalmente todas as objeções que de ordinário são 
feitas contra Freud na literatura específica. Mas, finalmente me 
convenci de que Freud só poderia ser refutado por alguém que 
houvesse feito uso repetido do método psicanalítico e realmente 
investigasse como ele; isto é, por alguém que houvesse feito um 
longo e paciente estudo da vida cotidiana, da histeria e dos 
sonhos, do ponto de vista de Freud. Quem não age, ou não pode 
agir, desse modo, deve se abster de emitir julgamentos sobre 
Freud, pois do contrário há de se igualar aos notórios homens 
de ciência que se negaram a olhar pelo telescópio de Galileu. 
Correção para com Freud, como muitos temem, não significa, 
no entanto, sujeição incondicional a um dogma; é perfeitamente
16 Esses estudos já haviam sido publicados isoladamente no Journal fiir 
Psychologie und Neurologie, nos dois anos anteriores, mas não há evidência 
de que Freud tivesse tomado conhecimento deles.
17 \u201cPsycho-Analysis and the Establishment of the Facts in Legal Pro­
ceedings\u201d, SE IX, onde Freud se refere ao estudo de Jung sobre o mesmo 
tema, \u201cO Diagnóstico Psicológico da Evidência\u201d (1905). O texto de Freud 
também continha sua primeira referência a Alfred Adler (p. 105).
17
possível manter-se um julgamento independente. Embora eu 
reconheça, por exemplo, os mecanismos complexos da histeria 
e dos sonhos, não atribuo ao trauma sexual infantil a impor­
tância exclusiva aparentemente concedida por Freud. Minha 
posição indica ainda menos que eu coloque a sexualidade tão 
predominantemente em realce ou que a ela conceda a univer­
salidade psicológica que Freud postula, ao que parece, tendo 
em vista o papel reconhecidamente importante desempenhado 
pela sexualidade na psique. Quanto à terapia de Freud, ela não 
é, na melhor das hipóteses, senão um dos vários métodos possí­
veis, e talvez nem sempre ofereça na prática o que dela se espera 
em teoria. Não obstante, tais pontos adquirem uma significação 
mínima quando comparados aos princípios psicológicos cuja 
descoberta é o maior mérito de Freud e aos quais os críticos 
dão insuficiente atenção. Quem quiser ser honesto para com 
Freud deve ter em mente as palavras de Erasmo: \u201cUnumquem- 
que move lapidem, omnia experire, nihil intentatum relinque.\u201d 18
Findo o verão, Freud acabou de reunir o primeiro volume de seus 
Kleine Schriften zur Neurosenlehre, enviando um exemplar a Jung em 
outubro de 1906. Com a carta-resposta de Jung, a correspondência 
se estabelecia de fato \u2014 \u201cuma troca bem amistosa e mesmo íntima 
de idéias pessoais e reflexões científicas. . . por quase sete anos\u201d .19 
Ao ser publicado, em dezembro, seu Dementia Praecox, Jung enviou 
um dos primeiros exemplares a Freud, que expressara impaciência por 
vê-lo. I Os comentários de Freud ao receber esse livro fundamental 
foram infelizmente feitos numa carta que é uma das poucas ausentes 
dessa coletânea.20
Em seus escritos subseqüentes, Freud reconheceu, sem reservas, 
os serviços prestados à difusão da psicanálise pela Escola de Zurique, 
\u201cparticularmente por Bleuler e Jung\u201d. Revendo a hitória do movi­
mento psicanalítico em 1914, logo após o rompimento com Jung, 
Freud afirmou: \u201cSegundo o testemunho de um colega21 que presen­
ciou a marcha dos acontecimentos no Burghõlzli, parece que a psica­
nálise aí despertou interesse muito cedo. No trabalho de Jung sobre 
os fenômenos ocultos, publicado em 1902, já era feita alusão a meu 
livro sobre a interpretação de sonhos. De 1903 a 1904, diz meu infor­
mante, o interesse pela psicanálise esteve em primeiro plano.\u201d22 Após
18 CW 3, p. 3 s . /\u201c Mover cada pedra, experimentar tudo, não deixar de
tentar nada.\u201d \u2014 Erasmo, Adagia, I.IV.xxx. Ver também 142J n. 1.
19 Jones, II, p. 35/30 s.
20 Para a lista dos itens ausentes, ver apêndice 1, p. 562.
21 Karl Abraham. Ver Freud/Abraham Letters, 15-1-14, onde Abraham
deu a informação solicitada por Freud.
22 Ed. Standard Bras., XIV, p. 39.
18
descrever seu período de isolacionismo e o desenvolvimento gradual 
em Viena, a partir de 1902, Freud disse que \u201cem 1907 a situação 
mudou bruscamente, contrariando todas as minhas expectativas. . . 
Um comunicado de Bleuler me informara, antes disso, que minhas 
obras haviam sido estudadas e postas em uso no Burghõlzli. Em 
janeiro de 1907, veio a Viena o primeiro membro da clínica de 
Zurique \u2014 o Dr. Eitingon. Outros visitantes se seguiram, o que 
levou a uma animada troca de idéias. Finalmente, a convite de C. G. 
Jung . . . um primeiro encontro teve lugar em Salzburg na primavera 
de 1 9 0 8 .. .5,23
A história do relacionamento de Freud e Jung a partir de 1906 
está naturalmente contida nas cartas desse volume \u2014 o gradativo 
estabelecimento da consideração, da confiança e da afeição mútuas,
o intercâmbio contínuo de informação e opiniões profissionais, a 
rápida elaboração do movimento psicanalítico, a troca íntima de 
notícias familiares, as observações sobre colegas e adversários, não 
raro acerbas e cheias de espírito, e, a longo termo, a emergência de 
divergências, discórdias, mal-entendidos, sentimentos melindrados, até 
a ruptura e a separação finais.
*
Após a carta de Jung de 20 de maio de 1914, renunciando à 
presidência da Associação Internacional, há um longo silêncio nessa 
história epistolar.24 O próprio Freud não mais empreendeu contudo 
um aniquilamento maciço de papéis indesejáveis, como fizera em 
março de 1908, quando tomou posse de um apartamento contíguo 
e reinstalou seu gabinete de trabalho (fatos que, incidentalmente, não 
são mencionados em suas cartas a Jung). Na pasta destinada às 
cartas de Jung para ele, arquivou também alguns dos programas 
dos Congressos e as circulares de Jung aos presidentes das sociedades 
filiadas, bem como várias cartas de Jung a Ferenczi, por este mesmo, 
ao que parece, encaminhadas a Freud.25 As cartas que Freud recebeu 
de Emma Jung foram mantidas em separado. Não há evidência de 
que jamais voltasse a consultar a pasta de Jung, mas é provável que 
aí tenha posto, com as próprias mãos, a carta estritamente profis-
23 Ibid., p. 37. Escrevendo 21 anos depois, Freud fez um relato mais 
sucinto, se bem que ligeiramente menos exato: \u201c . . . meu isolamento chegou 
gradualmente ao fim. Antes de mais nada, um pequeno círculo de discípulos 
reuniu-se em torno de mim em Viena; depois de 1906, veio então a notícia 
de que os psiquiatras de Zurique, E. Bleuler, seu assistente C. G. Jung e outros, 
tomavam um vivo interesse pela psicanálise. Entramos em contato direto e na 
Páscoa de 1908 os amigos da jovem ciência se encontraram em S a lzb u rg ...\u201d 
( Um Estudo Autobiográfico, Ed. Standard Bras., XX, p. 48).
24 A carta de Jung de 1923 (359 J) é a única exceção.
2\u201c Três delas foram publicadas em Jung\u2019s Letters, ed. Adler, v. 1.
19
sional que este lhe mandou em 1923. A correspondência de Freud 
era arquivada cronologicamente em armários em seu gabinete de 
Berggasse 19. Aproximando-se o momento de sua família abandonar 
Viena, em 1938, Anna Freud e Marie Bonaparte vasculharam os 
papéis e a correspondência de Freud, queimando alguns itens poten­
cialmente perigosos se viessem a cair em mãos nazistas.28 As pastas 
restantes de papéis e cartas