Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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com epilépticos. 1910, sócio-fundador da Sociedade Psicanalítica de Berlim; 
1919, membro do \u201cComitê\u201d : o sexto (ver o comentário que se segue a 321 J). 
Fundador da Policlínica Psicanalítica de Berlim (1920) e, após estabelecer-se 
na Palestina em 1934, da Sociedade Psicanalítica da Palestina.
8 Freud comunicara à Sociedade das Quartas-feiras, em 28-11-06, que 
tinha em mente \u201cum estudo da vida amorosa do homem\u201d (Minutes, I, p. 66). 
Ver 209 F n. 6 e 288 F n. 1.
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Ficar-lhe-ia muito grato se me enviasse o retrato tirado por 
seus filhos. Pode também me informar onde se consegue a medalha? 
Gostaria de adquirir uma.
Aqui fundamos agora uma Sociedade Freudiana de Médicos1 
cuja primeira reunião será na próxima quinta-feira. Contamos com 
umas 12 pessoas. Os assuntos de discussão serão, naturalmente, 
materiais de casos.
Como não ignora, o plano de lançar um jornal me agrada muito, 
mas prefiro não me precipitar, pois antes tenho de me pôr em dia 
com as outras obrigações. Só quando tivesse tudo resolvido poderia 
dedicar-me a esse empreendimento. Estou também envolvido agora 
na questão de um instituto internacional de pesquisas sobre as causas 
das doenças mentais.2 A solução do problema pode vir a seu tempo. 
Seja como for, não me seria possível pensar no jornal antes do 
segundo semestre de 1908. A partir de então a coisa há de evoluir 
por si mesma.
Considero Eitingon um tagarela totalmente impotente \u2014 apenas 
me escapa esse julgamento pouco caridoso e me ocorre que tenho 
inveja da desinibida ab-reação que ele faz do instinto polígamo. 
Retiro portanto o \u201cimpotente\u201d, que é por demais comprometedor. 
Ele decerto nunca chegará a nada; a não ser que um dia se torne 
membro da Duma.3
Diz-me o Dr. Gross que, convertendo as pessoas em imoralistas 
sexuais, consegue impor à transferência uma parada brusca. A trans­
ferência para o analista e sua persistente fixação, no entender dele, 
são meros símbolos monógamos e como tais sintomáticas da repres­
são. O estado realmente saudável, para o neurótico, é a imoralidade 
sexual. Donde ele associar o senhor a Nietzsche. Parece-me contudo 
que a repressão sexual é um fator civilizatório importante e indispen­
sável, ainda que patogênico no que tange a muitas pessoas inferiores. 
Há certos pontos negativos, porém, de que o mundo jamais prescinde. 
Que é afinal a civilização, senão um fruto da adversidade? Tenho a 
impressão de que Gross está indo longe demais com a moda do 
curto-circuito sexual, que nem é inteligente nem de bom gosto, mas 
simplesmente cômoda, e portanto tudo menos um fator de civilização.
Cordiais saudações.
Atenciosamente, j u n g
1 Jung prestou informações sobre a Suíça alemã numa série de artigos sobre 
\u201ca situação atual da psicologia aplicada em vários países\u201d, Zeitschrift für 
angewandte Psychologie, I (1907-8), p. 469 s., declarando então: \u201cNo outono 
de 1907 estabeleceu-se uma Sociedade de Pesquisas Freudianas (com cerca de
20 membros), sob a presidência do Prof. Bleuler\u201d . (Ver CW 18).
2 Nada se apurou a respeito.
3 A Duma Imperial, o parlamento russo, reunira-se pela primeira vez no 
ano anterior; foi dissolvida pelo czar e duas assembléias sucessivas, na realidade 
ineficazes, foram eleitas em 1907.
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47 J
Burgholzli-Zurique, 1 de outubro de 19071
Não creio que tenha recebido minha última carta, enviada há 
quase uma semana para Roma. A primeira reunião de nossa Sociedade 
foi muito interessante. Compareceram 12 pessoas. Um de nossos 
assistentes2 discutiu o simbolismo sexual de um catatônico e Riklin 
fez a análise de \u201cAs Confissões de uma Bela Alma\u201d.3 A ambas as 
palestras seguiu-se uma discussão animada e frutífera. Da próxima 
vez o Diretor Bertschinger4 (aluno de Forel e agora um ativo defensor 
de suas idéias) falará sobre a \u201cpsicossíntese\u201d,5 com a qual só teve 
experiências negativas.
Cordiais saudações.
Atenciosamente, j u n g
Caro Professor Freud,
48 J
Burgholzli-Zurique, 10 de outubro de 1907
Caro Professor Freud,
Meu mais sincero obrigado pela excelente fotografia1 e a esplên­
dida medalha.2 Gostei imensamente de ambas. Mandar-lhe-ei de 
imediato um retrato meu, embora essa troca pareça quase absurda.
1 Cartão postal.
2 Hans Wolgang Maier (1882-1945), aluno de Forel e Aschaffenburg; 
no Burghõlzli a partir de 1905; sucedeu a Bleuler, como diretor, em 1927.
3 = \u201cDie Bekentnisse einer schõnen Seele\u201d, no Livro VI de Wilhelm 
Meisters Lehrjahre (1796), de Goethe. A palestra de Riklin não foi publicada.
4 Heinrich Johannes Bertschinger (1870-1935), psiquiatra suíço; no Burg­
hõlzli com Forel, foi depois, e até a morte, diretor do Sanatório Breitenau, 
Schaffhausen. Membro da Sociedade Psicanalítica de Zurique.
5 Uma teoria proposta por Bezzola; cf. sua intervenção no Congresso de 
Amsterdam, \u201cDes Procédés propres à réorganiser la synthèse mentale dans 
le traitement des névroses\u201d, Revue de psychiatrie, XII (1908). Ver 151 J n. 3, 
para um diferente sistema de psicossíntese desenvolvido por Roberto Assagioli; 
ver também 18 F.
1 Ver foto III.
2 Ver foto IV.
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Ontem, e de novo hoje, me enfureci com Weygandt,3 que 
publicou um artigo completamente estúpido no Monatsschrift de 
Ziehen. Além de ser uma das piores baboseiras que já pude ler, é 
também mesquinho! Conheço Weygandt pessoalmente, ele é um 
super-histérico cheio de complexos e assim não tem como articular 
uma só palavra sensata; chega a ser mais bitolado que Aschaffenburg. 
Nunca pensei que os acadêmicos alemães pudessem produzir tanta 
besteira.
Sob essa face melancólica da moeda há porém um maravilhoso 
reverso que me enche de satisfação: a análise de uma mulher, ainda 
jovem, com Demência precoce. Em cada caso analisável há algo 
esteticamente belo e isso se evidencia muito bem nesse, que é uma 
cópia exata da Senhora do Mar4 de Ibsen. A estrutura do drama e o 
desenvolvimento da ação coincidem com os de Ibsen; o desfecho e a 
solução, infelizmente, não levam à liberação da libido, mas sim ao 
crepúsculo do auto-erotismo, onde o velho dragão arranca de volta 
para si a libido que a ele mesmo pertence. O nó górdio não é desfeito, 
é cortado.
De longe, aparentemente sem ser correspondida, a paciente ama 
um jovem rico X. Induzem-na porém a ficar noiva de A, um homem 
correto e de boa índole, mas pouco atraente. Pouco depois do 
noivado, vem a saber, por um amigo de X, que a notícia o deixara 
transtornado. Violenta crise de paixão. Depressão profunda; só aceita 
o casamento por insistência dos pais, que a persuadem com agrados 
e força. Nega-se, por 9 meses, a ter relações com o marido. Este 
demonstra uma paciência inesgotável, a mãe a pressiona e afinal ela 
cede, permitindo de quando em quando um coito totalmente frígido. 
Concepção. A depressão aumenta aos poucos. Nasce uma menina, 
recebida com transportes de alegria e um amor supranatural. Há 
indícios de que a depressão enfraquece. Fases de exuberante alegria, 
louvores efusivos a seu feliz casamento. Coito frígido, tanto quanto 
antes. Logo após o parto, acessos de orgasmos arrebatados com 
masturbação compulsiva, acompanhados de visões do homem que 
amava antes. A menininha é vestida apenas de azul. Parece-se com 
o pai mas tem uma coisa diferente \u2014 os olhos-, não são os da mãe 
nem os do marido: são os olhos do amado, castanhos e \u201cmaravi­
lhosos\u201d. Após uma segunda gravidez a paciente dá à luz um menino, 
ao qual odeia desde o início, embora tivesse querido engravidar. 
Até então Ibsen. Mas vem agora a clássica catástrofe. A menininha 
morre com a idade de 2 anos. Caindo em furor, a paciente blasfema:
3 Wilhelm Weygandt (1870-1939), professor de psiquiatria em Wiirzburg; 
mais tarde em Hamburgo. Suas \u201cKritische Bemerkungen zur Psychologie der 
Dementia Praecox\u201d , Monatsschrift für Psychiatrie und Neurologie, XXII (1907), 
cuidam da monografia de Jung.
4 Publicada em 1888.
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