Correspondencia Completa entre Jung e Freud
674 pág.

Correspondencia Completa entre Jung e Freud


DisciplinaLivros14.839 materiais90.599 seguidores
Pré-visualização50 páginas
\u201cPor que logo a minha filha, por que só as crianças bonitas, e não 
as aleijadas, são levadas por Deus? Dizem que ele leva as crianças 
para o céu, mas não é verdade, e mesmo que fosse ninguém sabe 
o que é que ele faz com elas lál\u201d (Já uma qualificação de seu amor 
pela criança!) A partir de então, excitada, colérica, esmurra o marido, 
ameaça \u201catirar o menino contra a parede\u201d. Tendências suicidas. 
Internamento. Ora profundamente deprimida, ora serena, com trans­
ferência para mim, porque sou alto e tenho olhos castanhos. Che- 
gando a análise à sexualidade reprimida durante o casamento, brusca 
explosão de feroz excitação sexual, acalmada depois de algumas horas.
Os sonhos são interessantes por demonstrarem que, na realidade, 
o inconsciente dela não só queria matar o garoto como também a 
menina querida (por serem filhos do marido?); a menina parece ter 
sido apenas um símbolo do amado. Fica-me a impressão de que há 
nesse caso uma distinta causalidade psicogênica.
Particularmente interessante, do ponto de vista teórico, é o fato 
de a vitoriosa repressão do amado perturbador, após o primeiro parto, 
ter sido a causa eficiente da doença. Foi então que os orgasmos se 
tornaram autônomos, embora não impedissem permanentemente que 
a personalidade se adaptasse ao casamento.
Gostaria de ouvir seus sábios conselhos ainda sobre outra coisa. 
Uma senhora curada de neurose obsessiva agora me converte em 
objeto de suas fantasias sexuais, que admite serem excessivas e um tor­
mento para ela. Dando-se conta de que o papel que desempenho nes­
sas fantasias é mórbido, está disposta a desligar-se de mim e reprimi- 
las. Como agir com acerto? Convém que eu continue o tratamento, que 
lhe dá um prazer voluptoso, segundo ela própria reconhece, ou é 
melhor que a dispense? Tudo isso há de lhe ser muito familiar; o 
que faz o senhor em tais casos?
Há duas semanas realizamos a primeira reunião de nossa Socie­
dade \u201cFreudiana\u201d, com 12 participantes; palestras de Riklin sobre 
\u201cAs Confissões de uma Bela Alma\u201d e do Dr. Maier sobre um caso 
de catatonia. Segunda reunião amanhã:5 o Dr. Bertschinger, diretor 
do Sanatório de Schaffhausen, falará de suas experiências negativas 
com os truques de Bezzola e o Dr. Abraham sobre a intencionalidade 
nos sonhos eróticos. A coisa está indo muito bem, há grande interesse 
por toda parte, as discussões são animadas. Tenho a grata impressão 
de participar de um trabalho intensamente fecundo. Converti também 
à nossa causa o primeiro teólogo (o capelão de nossa Clínica!).6
5 Nada menos de 20 pessoas presentes, segundo Abraham (Freud/Abraham 
Letters, 13-10-07).
6 Eduard Blocher (1870-1942), anteriormente capelão na Legião Estran­
geira da França. Não permaneceu ativo no movimento psicanalítico. (Essa 
informação foi gentilmente prestada por seu filho, o pastor Wolfram Blocher, 
de Wald, cantão de Zurique). Ver também 175 J n. 1.
Uma verdadeira proeza. Um aluno meu, o Dr. Stein de Budapesí, 
contagiou por sua vez um alemão do norte (o primeiro?), o conhe­
cido Dr. Juliusburger.7 J. é uma dessas pessoas decididas, sem meias- 
tintas.
Provavelmente já terá sabido que Abraham decidiu deixar-nos. 
Esperemos que tenha sucesso. Invejo Eitingon, que agora nos regala 
com lendas da cidade sagrada; essa história da Fontana Trevi é 
historicamente verdadeira?9 A análise aqui não teve êxito.10
Às minhas saudações cordiais junto o agradecimento mais 
sincero.
Atenciosamente, j u n g
49 J
Burgholzli-Zurique, 28 de outubro de 1907
Caro Professor Freud,
Pus imediatamente em prática, com bons resultados, seu opor­
tuno conselho1 sobre o caso de neurose obsessiva. Muito obrigado!
O caso Nãcke2 é de fato muito divertido. Seja como for, não 
vale a pena se preocupar com ele. N. é uma ave estranha que se 
alvoroça sobre as águas estagnadas da neurologia, da psiquiatria, da 
psicologia, e que em sua leitura há de ter aparecido com misteriosa
7 Otto Juliusburger (1867-1952), membro fundador da Sociedade de 
Berlim (1908); mais tarde se afastou da psicanálise. Em Nova Iorque após 1940.
8 Abraham se demitiu do Burghõlzli em novembro e mudou para Berlim 
no mesmo mês (Freud/Abraham Letters, p. XV e 13).
9 Anna Freud sugere que a frase se refere ao fato de Freud ter jogado 
uma moeda na Fontana de Trevi e, segundo a superstição, formulado um 
voto de voltar a Roma (cf. Jones, II, p. 22-19 s.).
Alusão inexplicável.
1 Faltam duas cartas de Freud, desde a de 19 de set.; uma delas evidente­
mente comentava o caso descrito por Jung em sua última. Ver também o § 3.° 
da presente carta.
2 Paul Nãcke (1851-1913), psiquiatra alemão nascido na Rússia, diretor 
de um hospício em Colditz, na Saxônia. Autor prolífico, atribui-se-lhe a intro­
dução do termo \u201cnarcisismo\u201d. Escreveu vários artigos sobre a cãibra; cf. 
\u201cDas Vorkommen von Wadenkrämpfen in orientalischen Gebieten in alter 
und neuer Zeit\u201d, Neurologisches Zentralblatt, XXIV (1907), 792 s. A crítica 
a que Jung se refere é provavelmente \u201cÜber Kontrast-Träume und speziell
136
freqüência. É absolutamente bizarra e idiota a monografia \u201chistórica\u201d 
que ainda há pouco escreveu sobre a cãibra nas pernas. Cap. 1: 
A Cãibra no Antigo Egito. Cap. 2: A Cãibra na Assíria, e assim 
por diante. Nada me surpreende que ele tivesse de acabar metendo 
o nariz no grande debate Freud. Como não consegui o Gross Archiv,3 
desconheço a crítica.
Suas duas últimas cartas contêm referências à minha preguiça 
de escrever. Devo-lhe certamente uma explicação. Uma das razões 
é meu acúmulo de trabalho, que mal me deixa tempo para respirar 
à noite; já a outra há de estar no domínio do afeto, no que o senhor 
chamou de meu \u201ccomplexo de autopreservação\u201d \u2014 uma expressão 
maravilhosa! E com efeito é de seu conhecimento que esse complexo 
já me pregou muitas peças, inclusive em meu livro sobre Dem. prec. 
Tento honestamente,4 mas o espírito mau que (como vê) enfeitiça-me 
a pena não raro impede que eu escreva. Na verdade \u2014 e é preciso 
um grande esforço para confessar isso \u2014 tenho pelos sonhos uma 
admiração ilimitada, quer como homem, quer como estudioso, e não 
lhe voto o menor rancor consciente. Decerto não é aqui que reside 
a origem do meu complexo de autopreservação; mas dá-se que a 
maneira como o venero tem algo do caráter de um embevecimento 
\u201creligioso\u201d. Se bem que a coisa realmente não me aflija, ainda a 
considero repulsiva e ridícula devido a seu inegável fundo erótico. 
Esse sentimento abominável provém do fato de eu ter sido vítima, 
quando garoto, de um assalto sexual praticado por um homem a 
quem adorara antes. Mesmo em Viena as observações das senhoras 
(\u201cenfin seuls\u201d, etc.) me deixavam doente, embora a razão disso, na 
época, não me fosse clara.
Esse sentimento, do qual ainda não me livrei por completo, 
molesta-me consideravelmente. Outra de suas manifestações é que 
acho que o discernimento psicológico torna absolutamente desagra­
dáveis as relações com colegas com uma forte transferência para 
mim. Tenho portanto medo de sua confiança. E também tenho medo 
de que o senhor reaja de igual modo quando lhe falo de meus 
problemas íntimos. Passo por conseguinte ao largo dessas coisas, 
tanto quanto posso, pois pelo menos em minha opinião não há
sexuelle Kontrast-Träume\u201d, Archiv für Kriminalanthropologie und Krimina­
listik, XXIV: 1-2 (julho de 1906), onde Näcke critica a teoria dos sonhos de 
Freud e diz: \u201cInfelizmente Jung se deixou influenciar muito por Freud.\u201d No 
mesmo número publicou resenhas desfavoráveis dos Três Ensaios de Freud e de 
\u201cO Diagnóstico Psicológico da Evidência\u201d de Jung.
3 Archiv für Kriminalanthropologie und Kriminalistik (Leipzig), funiado 
e editado por Hanns Gross (1847-1915), professor de criminologia na Univer­
sidade de Graz. N o tocante a seu filho Otto, ver 33 J n. 7.
4 Hológrafo: redch, que não faz sentido, riscado e substituído por (!) 
redlich ( / ) .