Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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relacionamento íntimo que depois de algum tempo escape de ser 
sentimental e banal, ou exibicionista, como se dá com meu chefe, 
cujas confidências são ofensivas.
Penso que lhe devo essa explicação, embora preferisse não dá-la. 
Saudações cordiais.
Atenciosamente, j u n g
50 J
Burghõlzli-Zurique, 2 de novembro de 1907
Caro Professor Freud,
Estou sofrendo todas as agonias de um paciente em análise, 
permitindo que os mais diversos medos concebíveis sobre as possíveis 
conseqüências de minha confissão me torturem. Há uma conseqüência 
que talvez lhe interesse, e por isso a exponho logo. O senhor há de 
se lembrar que lhe contei um breve sonho que tive quando estava 
em Viena. Fui incapaz de decifrá-lo na época. E ocorreu-lhe que a 
solução pudesse estar num complexo de competição. (Sonhei tê-lo 
visto como um velho fraco, muito fraco, que ia andando a meu lado.)1 
Desde então esse sonho se manteve a me afligir a mente. A solução 
só veio (como de hábito) depois de eu lhe ter confessado minhas 
preocupações. O sonho tranqüiliza minha mente acerca de sua + + + 
periculosidade!2 Essa idéia não me poderia ter ocorrido na época, 
é óbvio que não! Espero que os deuses subterrâneos desistam enfim 
de suas tramóias e me deixem em paz.
Não sei se lhe digo alguma coisa de novo ao afirmar que a 
história da infância de Jensen está clara para mim agora. Uma belís­
sima solução se evidencia nos contos \u201cO Guarda-chuva Vermelho\u201d e 
\u201cNa Casa Gótica\u201d.3 Ambos, e particularmente o primeiro, são para­
lelos maravilhosos do Gradiva, às vezes até nos mínimos detalhes.
O problema é um amor irmão-irmã. Será que Jensen tem uma irmã? 
Abstenho-me de entrar em detalhes, isso só estragaria o prazer da 
descoberta.
1 Cf. um sonho similar que Jung relata em Memories, p. 163-158.
2 Hológrafo: Jung inseriu as três cruzes depois de ter escrito Gefährlich­
keit!. (periculosidade!). Ver 11 F n. 7.
8 Ambos enfeixados no volume Übermächte (Forças Superiores; Berlim, 
1892).
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Devido a meus serviços como ocultista fui eleito \u201cHonorary 
Fellow of the American Society for Psychical Research\u201d.4 Voltei a 
me envolver, nessa qualidade, com estudiosos amadores de fantasmas. 
Também aqui suas descobertas são brilhantemente confirmadas. 
Como encara o senhor esse vasto campo de pesquisa?
Tenho a firme esperança de que o Natal o traga a Zurique. 
Posso contar com a honra de hospedá-lo em minha casa?
Cordiais saudações.
Atenciosamente, j u n g
51 J
Burghõlzli-Zurique, 8 de novembro de 1907
Caro Professor Freud,
Muito obrigado por- sua carta,1 que surtiu em mim excelente 
efeito. Julgo-o absolutamente certo quando celebra o bom humor 
como a única reação que se adequa ao inevitável. Esse foi também 
meu princípio até que a melhor parte de mim, felizmente só em 
momentos esporádicos, sucumbisse ao material reprimido. Em segre­
do, minha velha religiosidade havia encontrado no senhor um fator 
compensatório com o qual eu tinha, eventualmente, de chegar a bons 
termos, e só falando-lhe a respeito foi que o pude fazer. Esperava 
impedir, assim, que isso interferisse em meu comportamento em geral. 
Tenho confiança, seja como for, de que o bom humor não me aban­
donará nas situações difíceis. O objetivo de nosso esforço comum 
serve--me de salutar contrapeso e vale consideravelmente mais.
Seria ótimo se pudesse aproveitar o Natal \u2014 isto é, de 26 em 
diante \u2014 para a visita a Zurique. De nenhum modo incomodará meu 
chefe, nem pense nisso; \u201caffairé\u201d como sempre anda, é certo que ele 
o receba com uma grande exibição de interesse científico, dedicado 
e despretensioso, que sempre confunde os não iniciados. Meu chefe 
é o mais notável exemplo de uma pseudopersonalidade brilhante­
mente bem sucedida, um problema digno do suor dos nobres.2
4 = \u201cMembro Honorário da Sociedade Americana de Pesquisas Psíqui­
cas\u201d ; em inglês no original. Sediada em Nova Iorque, a Sociedade era então 
presidida por James Hervey Hyslop, que provavelmente abonou o nome de Jung.
1 Falta.
2 Hológrafo: das Schweisses der Edeln wert, uma citação da ode \u201cDer 
Ziirchersee\u201d (1750), de F. G. Klopstock.
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Infelizmente a Páscoa ainda está longe \u2014 motivo imperioso que 
me leva a preferir o Natal.
No tocante ao Zeitschrift für Sexualwissenschaft,3 muita coisa 
depende da editoria. Pouca será a garantia de sua atitude científica 
caso estejam no comando os \u201c 175\u201d.4 É estranho, para começar, que 
não o tenham convidado a ser um colaborador regular. Duvido que 
lá prevaleça uma abertura verdadeira para as suas idéias. Acho que 
eles farão uma transição menos brusca, via psiquiatria. O progresso 
de nossa causa na Suíça seguiu esse caminho e, dada a brevidade do 
tempo, os resultados foram bons. Acabam de me convidar para falar 
sobre a significação de seus ensinamentos na Sociedade Médica Can- 
tonal. E ainda agora está aqui, para ser iniciado, o 2? médico do 
Hospício Préfargier.8 O Dr. Jones, de Londres, já me anunciou que 
chega a 25 de novembro com o mesmo objetivo. Tudo assim vai 
tão bem quanto se poderia desejar. Se a Alemanha insistir em sua 
relutância, outros tomarão a frente. Binswanger me escreve que publi­
cará uma análise proveniente da Clínica de Iena com prefácio do 
tio dele \u2014 idéia que dá margem a muitas interrogações,6 mas que 
em si mesma seria muito proveitosa. Uma coisa é certa: jamais a 
causa há de adormecer novamente. A morte pelo silêncio é o que 
há de pior, mas essa etapa está liquidada e finda.
Queira aceitar meu agradecimento e as saudações mais sinceras.
Cordialmente, j u n g
52 F
15 de novembro de 1907 
Viena, IX. Berggasse 19
Caro amigo e colega,1
Sempre acho que meu dia começou bem quando o correio me 
traz um convite para uma reunião da sociedade à qual o senhor deu
3 Ver 74 F n. 2.
4 Expressão coloquial para homossexuais, em virtude de o § 175 do Código 
Penal Alemão tratar então (e ainda hoje) do homossexualismo.
5 Em Marin, cantão de Neuchâtel. A identidade do 2.° médico não pôde 
ser estabelecida.
8 \u201cVersuch einer Hysterieanalyse\u201d ; ver 167 F n. 2.
1 Hológrafo: Lieber Freund und College. A primeira vez que Freud usa 
essa saudação, a não ser que o tenha feito numa das cartas precedentes que 
faltam. / Aqui começa a usar também um papel novo, com \u201cWien\u201d no timbre.
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meu nome; é uma pena que seja tarde para que eu tome o expresso 
e chegue a tempo. O que diz de seus progressos interiores é tranqüi­
lizador; uma transferência de base religiosa, a meu ver, seria abso­
lutamente funesta e só poderia terminar em apostasia, graças à uni­
versal tendência humana de se ater a sucessivas reimpressões dos 
clichês que nós trazemos no íntimo. Farei o possível para lhe mostrar 
que não estou talhado para ser um objeto de adoração. Talvez o 
senhor pense que eu já tenha começado. Mas é que estava sonolento 
e irritadiço em minha última carta; pouco depois me refiz e disse-me 
praticamente o que o senhor agora observa, a saber, que não nos 
faltam motivos de satisfação. E ademais não devemos cometer o erro 
de julgar o fermento exclusivamente pelas bolhas literárias que 
emite. As transformações mais significativas nem sempre resultam 
de uma publicação explícita. Simplesmente se nota, um belo dia, que 
ocorreram.
A despeito do prefácio tranqüilizador do tio, a publicação de 
Binswanger, vindo de uma das cidadelas da ortodoxia, há de fazer 
furor na Alemanha. Nem há dúvida de que foi um passo brilhante 
o que o senhor fez do rapaz. O senhor acha que sua firmeza e 
persistência são capazes de estabelecer, um dia, um foco de infecção?
Recebi ontem um estudo de Warda2 que figura no volume em 
honra de Binswanger tio. Ele tem boas intenções, como aliás o 
demonstrou em publicações anteriores, mas não parece ter talento, 
é uma dessas pessoas que não sabem dar um passo sozinhas, e assim 
o estudo deixa uma impressão patética.