Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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a arranjar acomo­
dações. Agradeço de antemão sua ajuda. Por volta de 5 de fevereiro 
saberei com quantas pessoas contar e os preparativos necessários
Caro Professor Freud,
1 Encontro anual da Sociedade Alemã de- Psiquiatria, 24/25 de abril. 
Bleuler leu um trabalho sobre demência precoce; ver Berliner Klinische Wochen- 
schrift, XLV:22 (1-6-08), p. 1.078 s.
,2 Riklin apresentou um trabalho próprio, \u201cSobre Alguns Problemas da 
Interpretação dos Mitos\u201d (não incluído no programa impresso, pode ter subs­
tituído a palestra de Morton Prince, que não compareceu; ver Jones, II, p. 44 s./ 
40 s., e apêndice 4 ), enquanto Jung falou \u201cSobre a Demência Precoce\u201d (ver 
85 J n. 4 ). O texto de Riklin foi publicado como \u201cÜber einige Probleme der 
Sagendeutung\u201d, Zentralblatt, 1:10/11 (agosto-setembro, 1911). Maeder (então 
diretor do hospital para epilépticos de Zurique) não compareceu, embora 
tenha escrito sobre o tópico sugerido por Jung; ver 132 F n. 1.
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poderão então ser feitos. É provável que no início de abril eu vá 
até o sul da França, para umas duas semanas com meus parentes, 
e gostaria de ter tudo em ordem antes disso.
Enviei-lhe 12 convites porque tinha em mente pedir-lhe que os 
distribua na próxima reunião de seus discípulos. Se precisar mais, 
diga-me. Espero que seja realmente numeroso o contingente de Viena.
Trabalho sem descanso na organização de nossa revista. Mas as 
negociações são muito lentas.
Aguardo ansiosamente o livro de Stekel. Ainda não fui capaz de 
alinhavar nada interessante, pois tenho todos os minutos tomados 
pelo trabalho experimental de meus alunos.
Antecipadamente agradeço uma resposta breve.
Cordiais saudações, j u n g
64 F
25 de janeiro de 1908 
Viena, IX. Berggasse 19
Caro amigo e colega,
Admiro sua energia e farei todo o possível para ajudá-lo nesse 
trabalho imenso. Podemos muito bem cuidar da acomodação em 
Salzburg; eu mesmo estou intimamente familiarizado com a cidade 
e os hotéis; resta apenas saber se o senhor prefere um lugar granfino 
ou simples e, por alto, o núbero de pessoas a instalar. Na quarta-feira 
apresentarei seu convite à minha Sociedade; poder-lhe-ei então dizer 
quantos de nossos companheiros estão dispostos a comparecer.
Saiba também que aceito a presidência (!), já que o senhor 
insiste, e que direi algumas palavras, só que não sei ainda o quê; o 
\u201cnada de especial\u201d a que se refere foi para mim um grande alívio. 
Agora mesmo cheguei a pensar que tinha em mãos uma idéia que 
realmente valeria a pena, a solução do problema da escolha da neu­
rose, que também entra em sua esfera de interesse, mas ela me escor­
regou entre os dedos como aliás já acontecera antes, há muitos anos. 
Hei, no entanto, de agarrá-la de novo.
Presumo que há mais de uma razão para que Bleuler não vá 
estar conosco. Ver todos vocês há de ser pa*ra mim uma alegria 
imensa e estou certo de que nosso encontro não será vazio nem 
meramente formal. Se o pessoal não conhecer Salzburg, poderemos 
passar uma tarde bem agradável pelos arredores (o forte, Hellbrunn); 
de noitinha então nos reuniríamos para tratar, digamos, de negócios.
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Até agora baldaram-se todos os meus esforços para encontrar 
um editor mais eficiente para os Artigos sobre Psicologia Aplicada. 
Mas nem por isso desisti; escreva-me por favor 1) quando pode 
enviar o manuscrito de seu \u201cContent of the Psychoses\u201d e 2) quando 
gostaria de o ter publicado. Heller está fazendo tudo para me segurar.
No primeiro número da Zeitschrift für Sexualwissenschaft o 
senhor encontrará um pequeno estudo meu com fórmulas de histeria.1 
Ainda não chegaram separatas. Caso estivesse de posse de seu estudo 
de Amsterdam, eu seria capaz, tomando-o por base, de produzir algo 
mais abrangente sobre a histeria. Do jeito que estão as coisas, sinto-me 
perdendo de vista todo o problema da histeria; as neuroses obsessivas 
me interessam mais no momento.
Esta semana a influenza fez um estrago em minha casa e eu 
mesmo já estou na mira dela, a não ser que me engane muito. Minha 
filha2 teve ao mesmo tempo uma irritação abdominal relacionada a 
um abscesso nos pontos, efeito secundário da apendicectomia que 
sofreu. Mas já se recuperou muito bem.
Precisarei realmente de uns convites a mais.
Queir aaceitar, por seu esforço, meu agradecimento mais sincero. 
E leve em conta, por favor, ao julgar a presente carta, meu estado 
de saúde.
Cordialmente, j u n g
Sinceramente não o invejo pela viagem ao sul da França antes 
de nosso Congresso.
65 J
Burghõlzli-Zurique, 25 de janeiro de 1908
Caro Professor Freud,
Ontem à noite (em nossa modesta reunião Freud) o Dr. A\u2014 
não só me transmitiu suas lembranças como também a exortação a 
que lhe escreva com maior freqüência. Eis-me, como vê, a fazê-lo!
1 "Hysterische Phantasien und ihre Beziehung zur Bisexualität\u201d, Zeitschrift 
für Sexualwissenschaft, 1:1 (Janeiro de 1908) = \u201cHysterical Phantasies and 
Their Relation to Bisexuality, SE IX. Freud da uma lista de formulas de his- 
teria na p. 163 s.
2 Mathilde, nascida em 1887; ver 112 F n. 1.
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Devo agradecer as lembranças \u2014 e também acrescentar que sempre 
temo molestá-lo com minhas cartas demasiado seguidas. O senhor 
seria forçado a se queixar, por fim, de minha atividade maníaca. 
Talvez até já o tenha feito noutra circunstância, ou seja, em relação 
ao pretensioso título da circular. Em Londres o Dr. Jones se mostrou 
escandalizado com ele.1 Ãs poucas pessoas convidadas enviei por- 
conseguinte uma circular especial, assinalando de maneira explícita 
o caráter absolutamente confidencial do projeto. Ainda que isso possa 
ser de fato supérfluo, acho que cuidado demais nunca é pouco. O 
Dr. Abraham já anunciou que está disposto a falar sobre as dife­
renças psicossexuais entre a Dem. precoce e a histeria.
Espero que as medidas sugeridas não o contrariem. Estou aflito 
por sua opinião. A essa altura há de o senhor ter recebido minha 
primitiva palestra2 e se intrigado com os sentiments que aqui e ali 
perpassam nela \u2014 sentiments d\u2019incomplétude compensados por afe­
tação .sentimental. O jeito é, talvez, buscar o coração, quando as 
pessoas não se deixam vencer pela cabeça. Sou uma estranha mistura 
de coragem e medo, ambos extremos, ambos desequilibrados.
Acabo de receber as provas da palestra de Amsterdam. Agora 
a publicação não deve tardar.
Por acaso leu a discussão de Berlim no Neurologisches Zentral- 
blatt?3 Verá que nosso amigo Bezzola descobriu o já erroneamente 
chamado método \u201cBreuer-Freud\u201d. Formidável, pois não? Liepmann4 
anda a abrir com astúcia uma portinhola pela qual há de irromper 
de supetão no palco como o que já há séculos sabia de todas essas 
coisas banais. Ele deu a nota: \u201cNotícias velhas!\u201d No purgatório de 
sua teoria, tal será a inscrição a encimar o pórtico do primeiro círculo. 
Pena é que nunca haja por perto homens dispostos a aplaudir em 
uníssono sempre que esses pobres coitados, uma mistura de água 
morna e esterco, são obrigados a se rebaixar.
Tenho um pecado a confessar: mandei ampliar sua fotografia. 
Ficou maravilhosa. E alguns de nossos amigos adquiriram cópias. O 
senhor já fez assim seu ingresso, queira ou não queira, em muitos 
gabinetes tranqüilos!
Cordiais saudações.
Atenciosamente, j u n g
1 Cf. Jones, II, p. 44-39.
2 \u201cThe Content of Psychoses\u201d ; ver 82 F n. 4.
3 Neurologisches Zeníralblatt, XXVII:2 (16-1-08), p. 88 s.: Juliusburger 
apresentou um trabalho sobre psicanálise à Sociedade Psiquiátrica de Berlim, 
em 14-12-07, incluindo, sob o termo, o \u201cmétodo de Bezzola\u201d. Liepmann entrou 
na discussão.
« Hugo Karl Liepmann (1863-1925), professor de neurologia na Univer­
sidade de Berlim e psiquiatra no hospital a ela pertencente, a Charité (fundado 
em 1785).
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66 F
Nem me venha com gracejos sobre seus sentimentsl Seu texto 
é fascinante; lamento apenas não o ter a meu lado para