Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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dar-lhe um 
aperto, não, mais de um aperto de mão. Espírito do meu espírito, 
posso dizer com orgulho, mas ao mesmo tempo algo artístico e terno, 
majestoso e sereno, algo cativante que eu nunca poderia ter produ­
zido, pois ainda sinto na carne o que o trabalho me custa. Farei todo 
o possível para o ter impresso logo\ as negociações com a editora 
estão chegando ao fim.
Como pode imaginar que eu jamais me queixasse de suas cartas 
demasiado freqüentes ou de sua atividade \u201cmaníaca\u201d? Suas cartas na 
realidade me fizeram falta, nessas últimas semanas, e no que se refere 
à atividade devo ter uma propensão semelhante, ainda que não desen­
volvida de todo, porque aprovo integralmente cada qual de seus 
gestos. Ótimo que o senhor seja impudente em atenção a mim; não 
é impudência o que me falta, são relações com pessoas que me per­
mitam demonstrá-la.
Para fazer companhia a Bezzola e Liepmann ofereço-lhe Meyer 
no número de Archiv für Psychiatrie que saiu hoje.1 Observações 
sobre seu Dementia praecox. A principal objeção dele: todo mundo 
tem delírios de ser insultado. Argumentos tolos como este só se 
tornam possíveis porque os senhores em questão não aprenderam 
nada, nunca desenvolveram um discernimento psicológico com base 
nos sonhos ou na vida cotidiana.2 Acho que se eles fossem analisados 
se evidenciaria que ainda estão à espera da descoberta do bacilo ou 
protozoário da histeria, tal como do messias que há de enfim vir um 
dia para todos os verdadeiros crentes. Quando isso acontecer, um 
diagnóstico diferenciativo da Dem. pr. será coisa banal, pois sem 
dúvida o parasita da histeria há de ter apenas um apêndice teso em
27 de janeiro de 1908
Viena, IX. Berggasse 19
Caro amigo e colega,
1 Ernst Meyer, \u201cBemerkungen zu Jung, \u2018Über die Psychologie der D e­
mentia praecox\u2019 \u201d , Archiv für Psychiatrie und Nervenkrankheiten, XLIII (1908), 
1312 s. Meyer (1871-1931) era professor de psiquiatria e neurologia na Univer­
sidade de Königsberg.
2 Daqui ao fim do parágrafo, citado em Jones, II, p. 488-438 (a data 
porém não confere e Jones supôs que \u201celes\u201d se referisse aos discípulos de 
Freud).
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forma de chicote, enquanto o da Dem. pr. mostrará regularmente 
dois, tomando ainda uma coloração diferente. Poderemos confiar 
então a psicologia aos poetas!
Tudo indica que receberemos trabalhos de mais, e não de menos, 
para o nosso Congresso. Hão podemos passar o dia inteiro só ouvindo 
palestras. Pedirei, em meu círculo, moderação e brevidade. Acho 
também que os prazos vão acabar muito cedo, tendo em vista que o 
encontro não se dará senão daqui a nove meses.3
Minha influenza não durou muito. O estado de minha filha 
permanece inalterado, interiormente ela se sente em forma.
Espero que toda a sua família passe bem. Prometo escrever-lhe 
algumas linhas depois de nossa sessão na quarta-feira. Com a estima 
de sempre do
FREUD
67 F
31 de janeiro de 1908 
Viena, IX. Berggasse 19
Caro amigo e colega,
Recebi.sua encomenda. Oito ou dez membros de minha Socie­
dade tencionam ir a Salzburg, mas podemos contar com algumas 
desistências. Aceitei os pedidos de inscrição. Mandar-lhe-ei direta­
mente os trabalhos e propostas. Temo que possam vir em excesso 
e estou fazendo o possível para refrear os ímpetos. Meu contingente 
oriental provavelmente será inferior ao seu, o do Ocidente, em mérito 
pessoal.
Espero a 2 de fevereiro os dois colegas de Budapest, Dr. Stein 
e Dr. Ferenczy [sic].
Segue amanhã uma pequena separata da Zeitschrift für Sexual­
wissenschaft.
Cordiais saudações do
FREUD
3 Um lapso (ou piada?') por "nové semanas\u201d.
160
68 F
The Content of the Psychoses foi hoje para a gráfica e aparecerá 
como o terceiro número dos Papers, publicado por F. Deuticke, Viena. 
Muito grato. Do
FR E U D
14 de fevereiro de 19081
Viena, IX. Berggasse 19
Caro amigo e colega,
69 J
Burghõlzli-Zurique, 15 de fevereiro de 1908
Caro Professor Freud,
Mais uma vez há de o senhor estranhar esse meu longo silêncio. 
O motivo é que me vi às voltas com um violento ataque de influenza. 
Hoje é a primiera vez em que me sinto mais ou menos normal e 
aproveito a oportunidade para lhe escrever. Embora continuasse a 
cumprir minhas obrigações na Clínica, sentia-me tão abatido e apático 
o tempo todo que tive de descurar de meus assuntos particulares. 
O trabalho científico se interrompeu por completo. Sinto a imperiosa 
necessidade de um descanso. Mas as férias de primavera ainda estão 
longe; em detrimento de minhas férias de verão, hei de então tomar 
agora uma licença de quinze dias. Complicações psicogênicas de todo 
tipo insinuaram-se em minha influenza e isso teve um efeito negativo 
na convalescença. Primeiro foi um complexo relacionado à família, 
que fez comigo o diabo, e depois o desânimo causado pelas conver­
sações sobre a revista. Morton Prince1 fez algumas propostas inacei­
táveis \u2022\u2014 nem com a melhor boa vontade do mundo se poderia fazer
1 Cartão de correspondência impresso.
1 Morton Prince (1854-1929), psiquiatra de Boston, fundador e editor do 
Journal of Abnormal Psychology (1906-29), onde recentemente Jung colaborara 
com \u201cOn Psychophysical Relations of the Associative Experiment\u201d, I (1907); 
em CW 2. Ver 59 J n. 6.
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algo com elas. Claparède continua firme, mas as perspectivas para 
a revista na França são praticamente nulas. A revista de Claparède, 
por exemplo, é sustentada pelo bolso dele, uma vez que os assinantes 
são em número insuficiente para mantê-la viva. A de Prince também 
sofre de escassez de assinantes. Pode ser que no fim tenhamos de nos 
fixar numa publicação alemã, mas não posso cuidar disso senão 
depois de concluir meus Diagnostic Association Studies, e de resto 
minha capacidade de trabalho encontra-se em seu limite extremo 
devido às atividades presentes. A isso somem-se ainda as crescentes 
solicitações de outros periódicos que desejam artigos meus. Tenho 
horror aos trabalhos produzidos em série.
Seus seguidores se excederam na inscrição de trabalhos, nosso 
lado, em comparação, parece estéril. Mas graças a isso já temos com 
o que encher uma manhã decente, de 8 a 1. Estou dando os retoques 
finais no programa. Suponho já lhe ter dito que Bleuler afinal 
resolveu ir.
O Dr. Brill,2 de Nova Iorque, que ainda se encontra aqui e agora 
traduziu para o inglês meu livro sobre Dem. prec., demonstra o 
maior entusiasmo pelos Studies de Breuer-Freud. Pede-me para lhe 
perguntar se concordaria com uma tradução. O interesse na América 
é atualmente muito grande. Não seria assim um mau negócio. O único 
problema é que ele não quer traduzir o livro todo, mas apenas as 
análises com as epicrises. Gostaria de deixar de fora a teoria de 
Breuer, por razões compreensíveis. Acho que se poderia fazer um 
livro excelente de seus históricos clínicos, se o senhor acrescentasse 
seu artigo sobre psicanálise3 (dos Artigos Breves) e se dispusesse a 
escrever talvez um curto epílogo definindo as mudanças já sofridas 
por ela e seu ponto de vista atual. A tradução de meu livro sobre 
Dem. prec. era tarefa ingrata para um iniciante e o Dr. Brill se saiu 
muito bem. Não hesito em recomendá-lo como tradutor. Com toda 
a propabilidade ele irá a Salzburg, caso ainda esteja na Europa.
Frank, que em geral corre a todos os Congresso, abstém-se por 
motivos ignorados de comparecer a Salzburg \u2014 o que não deixa de 
ser significativo!
Ainda não estou remis à neuf, comoaliás pode ver por meus 
garranchos deploráveis e o ânimo nebuloso dessa carta.
Cordiais saudações.
Atenciosamente, j u n g
2 Abraham Arden Brill (1874-1948), psicanalista americano nascido na 
Áustria e tradutor de muitas obras de Freud, bem como, em colaboração com 
Frederick W. Peterson, de The Psychology of Dementia Praecox de Jung (ver 
124 J n. 3 ). Fundou a Sociedade Psicanalítica de Nova Iorque (1911).
3 Provavelmente \u201cD ie