Correspondencia Completa entre Jung e Freud
674 pág.

Correspondencia Completa entre Jung e Freud


DisciplinaLivros14.653 materiais90.406 seguidores
Pré-visualização50 páginas
meiro; ele teve outro ataque idêntico a esse antes, em 1909, 
precedente a nosso embarque para a América em Bremen, e em 
circunstâncias psicológicas muito semelhantes.38
Na esperança de que você continue a levar uma velhice 
tranqüila, permaneço, etc.39
Jones pôde, assim, ler as cartas de Freud a Jung, mas a outra 
parte do diálogo foi dada por perdida. Em 22 de março de 1954, no 
entanto, Eissler escreveu de novo a Meier: \u201cPara minha grande 
alegria devo lhe dizer que acabo de ser informado, por Anna Freud, 
que as cartas do professor Jung ao professor Freud foram encontra­
das. Estou certo de que ela não levantará objeções ao envio de 
cópias, posto que concordara com isso, de início, na hipótese de a 
descoberta ser feita. É provável que eu a encontre em Londres, nesse 
verão, e discutiremos o assunto juntos.\u201d Mais recentemente, Anna 
Freud lembrou que, durante os anos de guerra, os vários pacotes 
de correspondência levados de Viena foram postos a salvo em sua 
casa e na de seu irmão Ernst. Foi preciso tempo para juntar e cata­
logar todo o material e, enquanto esse trabalho se processava, as 
cartas de Jung foram colocadas à parte, em segurança, para surgirem 
no momento oportuno.393,
Na mesma carta, Eissler sondava o Instituto Jung para saber 
de seu eventual interesse por uma publicação conjunta da corres­
pondência. A resposta de Meier, com efeito, foi favorável à idéia.
Durante uma visita a Nova Iorque, em novembro de 1954, 
Meier se encontrou com Eissler, que lhe deu as cópias fotostáticas 
das cartas de Jung, e o assunto foi discutido entre eles. Meier obteve, 
por empréstimo, a transcrição não corrigida das cartas de Freud e, 
ao voltar para Zurique, leu a correspondência completa. Foi, sem dú­
vida alguma, a primeira pessoa a fazê-lo, e escreveu então a Eissler:
A impressão inicial é, com efeito, a de uma tragédia em 
fragmentos. E é justamente por isso que me ponho, sem reser­
vas, a favor da publicação de tudo. Ê verdade que Jung, ainda 
há pouco, achou melhor esperar até depois de sua morte; mas 
na realidade ele nem quis olhar as cartas. Minha opinião, assim, 
é que será possível persuadi-lo a mudar de idéia. Acho que o
38 Jones escrevera sobre o desmaio de 1912 no volume I (p. 348/317). 
Jung recebera um exemplar de seu amigo E. A. Bennet, de Londres, no mês 
anterior. Ver Letters, ed. Adler, v. 2, 21-11-53, a Bennet, para a versão junguiana 
do fato; também Memories, p. 157/153. Jones se referiu brevemente ao desmaio 
de 1909 no volume II (p. 61/55, 165/146); Jung dá uma descrição mais 
ampla em Memories, p. 156/152 s.
39 Letters, ed. Adler. v. 2, 19-12-53.
39a Comunicação pessoal de Anna Freud.
23
mundo deve aprender alguma coisa com essa tragédia, como 
também acho que boa parte do nonsense corrente há de, enfim, 
ser sepulto pela publicação em pauta, o que apenas poderá ser 
benéfico para limpar a atmosfera. Mais difícil que a conside­
ração por Freud e Jung, a meu ver, é a consideração por outros 
colegas que aparecem freqüentemente nas cartas e são, de certo 
modo, brindados com expressões pesadas e nada lisonjeiras. . . 
De minha parte, creio que devemos dar ao mundo uma bela 
amostra de objetividade científica, para o bem comum.40
Eissler se inclinava pela publicação da maior parte possível, \u201cà 
exclusão do que moleste ou deponha contra os indivíduos citados\u201d.41 
A seu ver, transcrições de toda a correspondência deviam ser prepa­
radas e lidas pelas pessoas de cuja decisão a publicação dependeria. 
O trabalho de transcrição das cartas de Jung prosseguiu e o Instituto 
de Zurique, insatisfeito com a transcrição nova-iorquina das cartas 
de Freud, começou a fazer a sua própria, Meier acreditava que Anna 
Freud leria os textos autorizados e permitiria sua publicação.
Em 1955, Jones publicou o volume II de sua biografia de Freud, 
dedicado aos \u201cAnos de Maturidade\u201d, 1901-1919, Tivera acesso a 
cerca de quinhentas cartas da correspondência de Freud, as mais 
valiosas das quais haviam sido trocadas por Freud e Abraham, 
Ferenczi, Jung e ele mesmo. Não se sabe ao certo em que momento 
Jones pôde ler as cartas de Jung a Freud; no volume II, há apenas 
três citações diretas delas, contra cerca de cinqüenta das cartas de 
Freud a Jung, em adição a dezesseis longas citações num apêndice 
(embora Jones se abstenha de dar, na íntegra, cartas dessa corres­
pondência).42 Com a publicação do segundo volume, cheio de refe­
rências a ele, Jung já não fez comentários ao Freud de Jones, tanto 
quanto se sabe, nem em suas cartas, nem em seus textos publicados.
No verão de 1955, a penosa tarefa de transcrever ambas as 
partes da correspondência continuava a ser levada a cabo no Insti­
tuto Jung de Zurique. Entretanto, em 1 de outubro, Meier comunicou 
que tivera uma conversa com o casal Jung e o professor e sua esposa 
discordavam ainda da publicação. Primeiro, Jung queria ver as cartas. 
Talvez elas pudessem ser editadas por contemporâneos dos dois cor­
respondentes e publicadas no futuro remoto, para a geração dos 
netos. Por enquanto, até que Jung as visse, nada ficava decidido.43
40 Meier a Eissler, 14-1-55, citada com a gentil permissão do D r. Meier.
41 Eissler a Meier, 18-1-55.
42 O volume III contém cinco citações das cartas de Freud e uma das de 
Jung. O volume II também contém várias citações das cartas de Jung a Jones, 
que atualmente estão extraviadas.
43 A. Jaffé, em nome de Meier, a Eissler, 1-10-55.
24
Eissler respondeu com toda a simpatia, pois ele também tinha 
dúvidas sobre a publicação integral. Muitas passagens, no seu enten­
der, pediriam eventuais comentários, sem o que poderiam não ser
inteligíveis para as gerações futuras. Mas haveria alguém disposto
a devotar tempo ao trabalho, sem a perspectiva de o ver realizado 
em vida?44 Meier se empenhou a fundo para obter comentários de 
contemporâneos; em Zurique, Aniela Jaffé logo se dispôs a ajudar; e 
Jung afinal concordara com a publicação, desde que ela viesse a ser 
feita depois de sua morte. Meier, não obstante, esperava ainda dis­
cutir esse ponto com a Sra. Jung.45 Não havia dúvida de que o Instituto 
estava realmente autorizado a publicar a correspondência, tendo em 
vista a declaração que Jung fizera ao confiar-lhe as cartas.46 No fim 
de outubro, o Instituto enviou a Eissler as transcrições das cartas de 
Jung e Freud feitas em Zurique, bem como a transcrição nova-ior- 
quina não corrigida das de Freud.
Só em março de 1956 estabeleceu-se um plano de trabalho
entre os Freud Archives, Anna Freud e o Instituto Jung: \u201cA trans­
crição . . . deverá ser submetida à apreciação das seguintes pessoas: 
Anna Freud, Heinz Hartmann, Ernst Kris, Ernest Jones e Hermann 
Nunberg. O plano é obter e preservar dados disponíveis junto a infor­
mantes que tenham um conhecimento particular dos fatos e a pessoas 
que desempenharam um papel de relevo no tempo em que o professor 
Freud trabalhou com o professor Jung. Como a maior parte dessa 
informação é, provavelmente, de natureza pessoal, não se pretende 
publicá-la. A idéia é que os informantes enriqueçam o manuscrito 
com notas ou, conforme o caso, com comentários mais longos. Tais 
acréscimos ao manuscrito serão depositados em caráter estritamente 
confidencial na Biblioteca do Congresso, pelo prazo que, em cada 
caso, o próprio informante estipule.\u201d47
Em agosto de 1956, Meier comunicou a Eissler que a vontade 
de Jung era que suas cartas a Freud fossem publicadas, no mínimo, 
vinte anos após a sua morte, o que, no entender de Meier, não 
impedia porém que se desse andamento aos comentários.48 Mas nunca 
se fez um comentário ou uma nota. Kris morreu em 1957, Jones em 
1958, Nunberg e Hartmann em 1970. As cópias fotostáticas das 
cartas originais e as transcrições de Zurique foram depositadas na
44 Eissler a Meier, 4-10-55.
45 Meier a Eissler, 7-10-55.
46 Meier a Eissler, 21-10-55. /A Sra. Jung morreu em 27-11-55.