Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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47 Memorando de Eissler, 20-3-56.
48 Meier a Eissler, 3-8-56.
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Biblioteca do Congresso, em 1958, com a seguinte etiqueta: \u201cConfi­
denciai, só poderá ser aberto vinte anos após a morte de Cari Jung, 
com permissão dos Arquivos Jung, Küsnacht, Zurique.\u201d
%
Em 1956, o Dr. Gerhard Adler submeteu a Jung a idéia de 
publicar uma seleção geral de todas as suas cartas. Adler, primeiro 
em Berlim e, depois de 1936, na Inglaterra, era um dos mais desta­
cados discípulos de Jung. Alguns anos mais tarde, ele mesmo escre­
veu: \u201cA idéia de tal publicação não partiu originalmente de Jung, 
mas sim de amigos conscientes do valor sem par, literário e psico­
lógico, de sua correspondência. De início Jung se colocou contra o 
plano, pois parecia-lhe que a espontaneidade e o imediatismo de 
suas cartas não estavam destinados ao grande público; mas em seus 
últimos anos ele mudou de atitude. . . \u201d49 Respondendo à proposta de 
Adler, Jung logo vetou a inclusão da correspondência Freud/Jung. 
Numa carta de 24 de maio de 1956, escreveu: \u201cO tratamento em 
separado dessa correspondência se justifica, pois em certas partes ela 
aborda problemas muito pessoais, ao passo que a publicação plane­
jada se reporta a temas científicos. Considero inoportuno expor o 
material pessoal enquanto permanecerem tão altas as ondas de ani­
mosidade que se levantam ainda. Na data por mim sugerida, tanto 
Freud quanto eu seremos \u2018personalidades históricas\u2019 e o distancia­
mento necessário dos fatos há de então prevalecer.\u201d50
Em agosto de 1957, Jung confirmou sua concordância para a 
publicação de uma seleção de suas cartas. Em janeiro de 1958, 
recomendou que o trabalho fosse confiado a uma comissão composta 
por Aniela Jaffé, agora sua secretária, sua filha Marianne Niehus- 
Jung (um dos organizadoras da edição suíça das obras completas) e 
o Dr. Adler, que assumiria as funções de presidente e organizador da 
edição inglesa; ao mesmo tempo, Jung decidiu que \u201csó depois de 
198Q\u201d51 deveria ser publicada a correspondência com Freud.
A idéia da publicação da correspondência Freud/Jung veio de 
novo à baila no verão de 1958. Não se sabe ao certo quem conseguiu 
persuadir Jung a mudar de opinião, mal acabara ele de adiar o 
projeto para o futuro remoto. O impulso inicial pode ter partido do 
editor Kurt Wolff, que antes da Segunda Guerra realizada uma carrei­
ra invulgar na Alemanha e na Itália, e que no início da década de 
1940 fundou em Nova Iorque a firma Pantheon Books. Essa firma 
havia sido escolhida para publicar a Bollingen Series, um programa
40 Adler, introdução a Letters, v. 1 (1973), p. ix.
50 Ibid., p. xi-xii.
51 Cartas à Bollingen Foundation, 19-8-57, e a John D. Barrett, 29-1-58, 
nos arquivos da fundação. /Marianne Niehus-Jung morreu em março de 1965.
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da Bollingen Foundation, cuja pedra angular eram as Obras Com­
pletas de C G. Jung. Kurt Wolff, que já de há muitos anos conhecia 
Jung, convencera-o, em 1956, de que era imperioso que sua autobio­
grafia viesse a ser escrita. O projeto levou a uma colaboração entre 
Jung e Aniela Jaffé, que escreveu a maior parte do texto, baseando-se 
em entrevistas com Jung, enquanto este, do próprio punho, redigia 
outras passagens.52 Wolff se achava em Zurique, no verão de 1958, 
para contatos profissionais. E na Europa estavam, na mesma época, 
o editor e o editor-assistente da Bollingen Series, John D. Barrett e 
Vaun Gillmor, bem como Sir Herbert Read, um dos diretores da 
Routledge & Kegan Paul, a editora das obras de Jung na Inglaterra. 
Os três, com o próprio Jung, compunham a Comissão Editorial, que 
se reunia uma vez por ano para rever o andamento das obras com­
pletas e esboçar o programa futuro.
O primeiro documento é uma carta que Jung escreveu a Eissler 
em 20 de julho de 1958:
Como você não ignora, eu havia estipulado que minha cor­
respondência com Freud não deveria ser publicada senão pas­
sados trinta anos58 depois de minha morte, mas ultimamente fui 
procurado por diversas pessoas para permitir \u2014 nos limites de 
minha competência \u2014 a publicação de toda a correspondência 
em época mais próxima.
Essa mudança de minha vontade54 não é uma questão mui­
to simples. Por um lado, não sei como você encara o projeto; 
por outro, eu não poderia permitir uma publicação antecipada 
sem submeter as cartas a uma revisão necessária. Minhas cartas 
nunca foram escritas com o pensamento voltado para a hipótese 
de sua ampla divulgação. Claro está que muitas delas contêm 
assuntos não esclarecidos e altamente objetáveis, como os que 
surgem no decurso de uma análise, e emitem uma luz bastante 
dúbia e unilateral sobre determinadas pessoas às quais de ne­
nhum modo eu gostaria de ofender. Tais assuntos gozam da
52 Memories, Dreams, Reflections, \u201cby C. G. Jung, recorded and edited 
by Aniela Jaffé\u201d, foi publicado simultaneamente em Nova Iorque, Londres e 
Zurique, em 1963.
58 Em 12-8-60, o Dr. Franz N. Riklin, que sucedera a Meier como diretor 
do Instituto Jung, comunicou a Eissler uma disposição posterior, a de que 
Jung agora desejava que ninguém recebesse autorização para estudar a corres­
pondência até trinta anos depois de sua morte. Propunha ele que um protocolo 
fosse assinado entre os dois lados, estipulando esse limite, e Eissler o endereçou 
a Ernst Freud. O documento em pauta não foi localizado.
54 A última vontade e testamento de Jung não contém disposições relativas 
à correspondência com Freud. Não foi talvez em seu significado legal, mas 
sim no sentido não técnico de intenção, que o termo \u201cvontade\u201d lhe ocorreu 
aqui. (Informação dada pelo Dr. Hans Karrer e Franz Jung.)
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proteção do secretum mediei. E tais pessoas, ou seus descen­
dentes, estão ainda em vida.
Eu lhe seria extremamente grato se me desse sua opinião 
a respeito; queria sobretudo saber se você concordaria com 
uma publicação antecipada, sob a estrita observância da regra 
da discrição e o risco de libelo.55
O Dr. Eissler respondeu:
Há dois aspectos na questão em relação à publicação das 
cartas trocadas entre o professor Freud e o senhor: o aspecto 
legal e minha opinião pessoal a respeito de tudo. Não há dúvida 
de que qualquer coisa eventualmente ofensiva a pessoas sob seu 
tratamento, ou descendentes delas, deveria ser excluída de publi­
cação. No entanto, a permissão para publicar pelo menos as 
cartas escritas por Freud não depende dos Archives, uma vez 
que os Archives nunca adquiriram o Copyright. Essa questão 
tem de ser discutida com Sigmund Freud Copyrights, Ltd., a /c 
Mr. Ernst Freud, . . . em Londres.
Como considero uma indiscrição ler cartas ainda não publi­
cadas, criei o hábito de não ler as cartas adquiridas pelos 
Archives, a não ser que haja uma necessidade objetiva de o 
fazer. Não tendo acontecido isso, no caso de sua correspondên­
cia com o professor Freud, jamais tomei a liberdade de ler as 
cartas, e não posso dizer se me parece ou não oportuno publicar 
a correspondência no momento atual. Lembro-me, porém, da 
opinião do falecido Dr. Kris, o organizador da correspondência 
Freud/Fliess, que leu as cartas a pedido dos Arquivos Jung56 de 
Zurique. Sua opinião era que seria conveniente publicar, no 
momento, as partes da correspondência que contêm problemas 
estritamente científicos, como as questões do narcisismo e da 
esquizofrenia, que, ao que parece, vieram freqüentemente à baila 
em suas comunicações com Freud.
Essa é a única contribuição que posso dar em resposta à 
sua carta de 20 de julho. As questões mais importantes, a meu 
ver, têm de ser resolvidas entre o senhor e Ernst Freud.57
Em 23 de agosto, em sua casa de Küsnacht, Jung se reuniu com 
Barrett, Miss Gillmor, Read e Wolff. Chegou-se então, em princípio, 
a um acordo para publicar a correspondência Freud/Jung. Wolff 
tinha lido toda a correspondência, preparando um sumário de cin­
55 Letters, ed. Adler, v. 2.
56 Ou seja, o Instituto