Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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C. G. Jung.
57 Carta de 13-8-58 (cópia nos arquivos da Bollingen Foundation).
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qüenta páginas que apresentava uma primeira visão global das cartas 
e testemunhava sobre a importância de publicá-las.58
Pouco tempo depois, Aniela Jaffé, a secretária de Jung, escrevia 
a John Barrett: \u201cO Dr. Jung disse concordar integralmente com a 
idéia do Dr. Eissler de \u2018publicar no momento as partes da correspon­
dência que contêm problemas estritamente científicos e pediu-me que 
informasse a esse respeito o Dr. F. Riklin, presidente do Instituto
C. G. Jung. (O Dr. Jung doou as cartas de Freud ao Instituto.) 
Ontem o Dr. Jung me falou rapidamente sobre sua conversa de sá­
bado, 23 de agosto, e acrescentou que gostaria muito de reler ou, 
pelo menos, passar os olhos pelas cartas em questão antes de dar seu 
placet definitivo.\u201d 59
Aniela Jaffé se lembra de que Jung não chegou a olhar as cartas 
\u2014 na realidade, ao que lhe consta, ele nunca demonstrou desejo 
de reler qualquer item de sua correspondência com Freud \u2014 , mas 
pediu a outro de seus discípulos que as examinasse e desse sugestões. 
A conseqüência foi a seguinte carta de Jung a Barrett, uma semana 
depois:
Re: publicação da correspondência-Freud, devo lhe informar 
que decidi nada mais fazer. As cartas são por demais pessoais 
e muito pouco contêm de interesse geral, de modo que o grande 
trabalho que precisaria ser feito, para delas se extrair algo de 
válido, seria tempo perdido.
Tive muito prazer em revê-lo e me alegro por poder livrá-
lo de uma preocupação supérflua. A situação volta assim a ser 
a mesma de antes, ou seja, a publicação da correspondência 
fica adiada ad calendas graecas.eo
No ano seguinte, o escritor inglês John Freeman (mais tarde 
embaixador nos Estados Unidos) filmou para a British Broadcasting 
Corporation uma entrevista com Jung, perguntando-lhe: \u201cQuando 
serão publicadas suas cartas a Freud?\u201d
Professor Jung: \u201cBem, não enquanto eu for vivo.\u201d 
Freeman: \u201cEntão não se opõe a que sejam publicadas 
depois disso?\u201d
Professor Jung: \u201cOh, não, de jeito nenhum.\u201d
Freeman: \u201cProvavelmente porque são de grande impor­
tância histórica.\u201d
58 Gentilmente a Sra. Helen Wolff permitiu acesso ao sumário das cartas 
preparado por seu falecido marido e confirmou outros detalhes em seu diário.
59 A. Jaffé a J. D. Barret, 27-8-58, nos arquivos da Bollingen Foundation; 
citada com permissão da Sra. Jaffé.
60 Carta de 5-9-58, nos arquivos da Bollingen Foundation.
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Professor Jung: \u201cNão, não creio.\u201d
Freeman: \u201cEntão por que não as publicou ainda?\u201d 
Professor Jung: \u201cPorque não são suficientemente importan­
tes. Não vejo nenhuma importância especial nelas.\u201d 61
O discípulo que tinha lido as cartas a pedido de Jung, no verão 
anterior, veio a escrever-lhe casualmente mais tarde, citando suas 
surpreendentes observações sobre o cristianismo na carta de 1 1 de 
fevereiro de 1910 (178 J ) . Jung respondeu (9 de abril de 1959):
Muito grato pela citação desentranhada nessa correspon­
dência maldita. Para mim ela é um lembrete infelizmente inextin­
guível da loucura incrível que encheu os dias de minha juven­
tude. A volta do reino da fantasia para a realidade foi uma longa 
jornada. O Progresso do Peregrino, em meu caso, consistiu na 
obrigação de descer milhares de escadas para poder estender a 
mão e tocar o torrão pequeno que eu sou.82
No outono de 1960, Ernst L. Freud deu à luz o volume Letters 
of Sigmund Freud, uma seleta de cartas organizadas por ele. Graças a 
um acordo com o Instituto Jung, incluiu sete das cartas de seu pai 
a Jung (27, 38, 42, 45, 71, 129, 340, três delas com supressões).
Um velho amigo de Jung, enquanto isso, escrevia seu depoi­
mento sobre o homem que conhecera: tratava-se do Dr. E. A. Bennet, 
um psiquiatra e analista de Londres, cujo livro, C. G. Jung, se baseava 
em grande parte nas conversas e correspondência que haviam man­
tido até pouco antes da morte de Jung. Em seu capítulo sobre as 
relações de Jung com Freud, Bennet escreve: \u201cCada vez mais Freud 
passou a confiar em Jung e lhe escrevia com freqüência, não raro 
toda semana. Quando Jung não respondia, ele passava um telegrama 
perguntando se houvera algo de errado. Jung conservou essas cartas, 
embora nunca tenha pensado em publicá-las; são cartas pessoais, 
basicamente sobre fatos corriqueiros e, em qualquer hipótese, sem 
importância especial ou interesse publico.\u201d 63 Essa convicção se funda­
mentava no que o próprio Jung dissera ao Dr. Bennet, sendo que 
além do mais o primeiro revisara o livro em manuscrito.
61 Transcrição a ser publicada em C. G. Jung Speaking. Uma versão resu­
mida, que não inclui essa passagem, encontra-se em Face to Face, ed. Hugh 
Burnett (Londres, 1964), p. 48-51.
62 Citada numa nota à carta de Jung a Freud de 11-2-10 em Letters, ed. 
Adler, v. 1, p. 19.
63 C. G. Jung (Londres e Nova Iorque, 1961), p. 39.
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Até o falecimento de Jung, em 6 de junho de 1961, não mais se 
cogitou da correspondência com Freud, e Jung não alterou sua von­
tade de que a publicação fosse adiada para muito depois de sua 
morte. Prosseguira no entanto o trabalho de organização de Memories, 
Dreams, Reflections, onde se decidira publicar, em apêndice, partes 
de três cartas de Freud a Jung (139, 255, 260) que abordavam o 
ocultismo. Jung dera seu consentimento expresso e a permissão de 
Ernst Freud fora devidamente solicitada e obtida.
Em agosto de 1961, pouco após a morte de Jung, realizou-se 
em Zurique um novo encontro de Barrett, Miss Gillmor e Read, 
dessa vez com o casal Walther Niehus-Jung, Franz Jung, Aniela Jaffé, 
Franz Riklin e Max Rascher, o editor suíço de Jung. O encontro 
manteve a tradição das costumeiras reuniões de verão para rever o 
progresso das edições das obras de Jung em língua inglesa. Jung 
designara Walther Niehus como seu executor literário, e sua mulher 
Marianne Niehus-Jung, na qualidade de organizadora das Gesammelte 
Werke e das cartas seletas, desempenhava um papel proeminente. 
O principal tema da reunião de 1961 foi, com efeito, as cartas sele­
tas, em relação às quais deveria começar então um trabalho editorial 
intensivo. Segundo os apontamentos, \u201cfoi sugerido que se tentasse 
preparar três volumes: (1) correspondência com Freud, (2) cartas 
concernentes a religião e, teologia, e (3) balanço das cartas cientí­
ficas.\u201d Essa retomada da correspondência Freud/Jung receberia, no 
entanto, uma contra-ordem tão logo as partes interessadas fossem 
advertidas de que por vontade de Jung ela permaneceria lacrada até 
1991. As cartas seletas foram enfim postas em ordem cronológica 
e Adler declarou que se \u201csentia justificado em publicar apenas umas 
poucas incontroversas cartas de Jung a Freud, ao todo oito\u201d, apro- 
ximando-se assim da atitude de Ernst Freud, que incluíra sete das 
cartas de Freud a Jung na seleção por ele organizada.64
Antes disso, a correspondência de Freud começava a vir à luz 
em diferentes coletâneas. The Origins of Psychoanalysis, um volume 
de cartas a Wilhelm Fliess e papéis relacionados, foi publicado ainda 
em 1950, enquanto a já mencionada seleção de Ernst Freud aparecia 
em 1960. Seguiram-se então as cartas trocadas com Pfister (1963), 
Abraham (1965), Lou Andreas-Salomé (1966) e Arnold Zweig 
(1968).65
*
64 Adler, introdução a Letters, v. í, p. xii. As cartas a Freud na seleção 
de Adler (e também na de Jaffé, na edição suíça) são as de n.° 138, 170, Í78, 
198, 224, 259 e 315, três delas com supressões. A trad. é de R. F. C. Hull, 
como na edição inglesa do presente volume. A edição suíça das Briefe de Jung 
apareceu em três volumes, em 1972-73, e a edição anglo-americana em dois, 
em 1973-4.
65 Em fevereiro de 1965, Eissler escreveu a Riklin dizendo ter sabido que
o Instituto Jung gostaria de publicar as cartas de Freud/Jung, mas acreditava
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J
Na primavera de 1969, Norman Franklin, presidente da 
Routledge