Correspondencia Completa entre Jung e Freud
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Correspondencia Completa entre Jung e Freud


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& Kegan Paul, a editora de Jung na Inglaterra, foi ter à 
casa de Ernst Freud em Londres. Mostrando um armário em seu 
escritório, esse último lhe disse que ali estavam as cartas de Jung a seu 
pai, cartas que a família pensava em vender junto com o direito de 
publicar as de Freud a Jung. Norman Franklin escreveu à Princeton 
University Press, a editora americana de Jung, transmitindo a notí­
cia. Na época, a biblioteca da Universidade de Princeton, com cuja 
direção o assunto foi discutido, não estava em condições de fazer 
uma oferta pelas cartas, que não se enquadravam automaticamente 
nas coleções universitárias. Na editora, no entanto, preocupamo-nos 
com a hipótese de as cartas serem dispersas ou desaparecerem talvez 
numa coleção particular. Por outro lado, embora estivéssemos adver­
tidos do veto de Jung à publicação, havia uma esperança tênue de 
que, de algum modo, ele pudesse ser suspenso. Na qualidade de 
editor executivo das obras de Jung em inglês, escrevi então a Ernst 
Freud, em 23 de maio: \u201cCaso sua família realmente esteja consi­
derando a idéia de vender as cartas de Jung, eu lhe agradeceria muito 
se me desse uma oportunidade de tentar efetuar sua compra, a fim 
de as colocar nos Arquivos Jung de Zurique.\u201d Ao mesmo tempo, 
escrevi à família Jung, através de seu consultor legal, o Dr. Hans 
Karrer, perguntando: \u201cPor que as famílias Freud e Jung simples­
mente não permutam os direitos respectivos que detêm sobre as 
cartas originais?\u201d
Em 22 de junho, Ernst Freud respondeu-me, perguntando se se 
poderia fazer uma oferta pelas cartas de Jung, que sua família então 
consideraria. E acrescentava: \u201cNão é correto que exista qualquer 
restrição em relação à publicação das cartas de Freud \u2014 apenas Jung 
(infelizmente) julgou necessário reter o direito por 30 anos depois 
de sua morte. Embora eu tenha prova de que em seu último ano de 
vida ele se mostrou inclinado a alterar essa cláusula, os Arquivos 
Jung não foram capazes de liberá-las antes dessa data. Claro está que 
seria uma lástima publicar apenas as cartas de seu pai.\u201d
Pouco tempo depois, em Zurique, participei de reuniões com 
membros da família Jung e seus consultores. Das discussões então 
mantidas surgiu a proposta de que as cartas de Freud e as de Jung 
fossem trocadas entre o Instituto C. G. Jung e a família Freud. 
Observou-se que Jung deixara instruções conflitantes acerca das res­
trições à publicação \u2014 por trinta anos, por vinte, por cinqüenta, 
por cem, ou até 1980. A família concordou que seria bom que a
que a família Freud se opunha, enquanto ele estava ciente de que os Sigmund 
Freud Copyrights não faziam objeção. Riklin respondeu que o embargo de 
trinta anos teria de ser mantido.
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correspondência fosse preparada sem demora, enquanto ainda viviam 
pessoas capazes de contribuir para uma anotação abalizada. Findo o 
trabalho editorial preliminar, as cartas seriam guardadas em segurança 
e só publicadas em 1980. Comuniquei tais pontos de vista a Ernst 
Freud, que me respondeu em 2 de agosto: \u201cConcordaremos de bom 
grado com uma permuta de originais. Já dei os primeiros passos para 
obter a referência à declaração [de que Jung estava inclinado a alterar 
as restrições] mas naturalmente não sei que tempo isso poderá exigir, 
nem se serei bem sucedido.66 Partilho a opinião de que seria conve­
niente realizar sem demora o preparo editorial das cartas. . . \u201d A 
partir de então, os dois lados se puseram em contato direto.
O Dr. Karrer escreveu-me em 2 de dezembro de 1969: \u201cMeus 
clientes tomaram uma decisão de considerável importância. Chegaram 
à conclusão de que esse assunto não deve ser decidido com base nas 
várias e possivelmente contraditórias declarações do falecido profes­
sor Jung, mas sim à luz da situação que agora se apresenta. Sob esse 
ângulo, dão grande importância à idéia de que a publicação seja feita 
enquanto ainda há, disponíveis para o trabalho editorial, pessoas que 
conheceram Jung e Freud. Naturalmente resta saber como a parte 
Freud encara esse ponto de vista.\u201d
A parte Freud o encarou de igual modo. E em 25 de fevereiro 
de 1970 Franz Jung voou de Zurique para Londres, com as cartas 
originais de Freud na valise, e bateu à porta de Ernest Freud em 
St. John\u2019s Wood. Ernst, que estava passando mal do coração, vestiu- 
se e deixou seu quarto para receber a visita. Em 6 de março, escreveu- 
me: \u201cO Sr. Jung \u2014 de quem muito gostei \u2014 veio me ver e não só 
permutamos as cartas de nossos pais como também traçamos planos, 
de comum acordo e sem qualquer dificuldade, para a rápida publica­
ção da correspondência.\u201d Ambos eram arquitetos e rapidamente se 
estabeleceu entre eles uma simpatia mútua. A carta de Ernst Freud 
dizia ainda: \u201cA fim de preservar a imparcialidade, as cartas deverão 
ser impressas como documentos históricos, ou seja, sem quaisquer 
comentários e absolutamente na íntegra, a não ser que a discrição 
para com antigos pacientes ou colegas torne certas omissões inevi­
táveis. As cópias datilográficas existentes hão de ser uma vez mais 
comparadas aos originais, acrescentando-se notas necessárias para a 
explicação de nomes, títulos de livros, citações, etc.\u201d Mais tarde, 
Franz observou: \u201cFoi na realidade um momento histórico. Decidimos 
que as cartas deveriam ser dadas à publicação enquanto ainda estão 
em vida pessoas que conheceram a personalidade dos dois homens.\u201d 67 
Ernst Freud morreu subitamente em 7 de abril de 1970, mas as 
disposições contratuais para a publicação foram devidamente com­
66 Esse ponto nunca foi aclarado. / (A Sra. E. L. Freud gentilmente deu 
permissão para a publicação de trechos das cartas de seu marido.)
67 Artigo de Henry Raymont, New York Times, 15-7-70, p. 41.
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pletadas e a notícia veio a público em meados de julho. Pouco após 
as cartas originais de Freud eram compradas de seus herdeiros pela 
Biblioteca do Congresso, graças a fundos concedidos por um benfei­
tor anônimo, e agora se encontram em sua Divisão de Manuscritos. 
As cartas originais de Jung permanecem no Instituto C. G. Jung de 
Zurique e, segundo os termos da doação por ele feita, sua venda está 
proibida.
*
Como já foi explicado, as transcrições das cartas foram datilo­
grafadas em 1955, e são fotocópias dessas transcrições que fornecem 
o texto do presente volume. As transcrições foram uma vez mais 
comparadas às cartas hológrafas (ou a fotocópia delas) por Anna 
Freud e sua irmã Mathilde Hollitscher e por Kurt Niehus-Jung, genro 
do professor Jung. De ambos os lados, prepararam-se memorandos 
destinados a explicar abreviaturas e a assinalar correções feitas a 
mão e lapsos eventuais dos dois correspondentes.
Ambos os tradutores da edição inglesa \u2014 Ralph Manheim para 
as cartas de Freud e R. F. C. Hull para as de Jung \u2014 trabalharam 
a partir das transcrições assim preparadas. Durante o andamento da 
tradução e do trabalho editorial, as transcrições voltaram a ser com­
paradas aos originais para solucionar dúvidas de leitura, às vezes 
com a assistência de outras pessoas familiarizadas com a caligrafia.
Na presente edição, os problemas textuais não foram apresenta­
dos de maneira exaustiva, o que poderia provocar distração ou tédio 
na maioria dos leitores. No entanto, a edição alemã das cartas, que 
é publicada simultaneamente (pela S. Fischer Verlag, de Frankfurt), 
estará ao alcance de quem queira estudar os usos originais de Freud 
e Jung, especialmente no que se refere às fórmulas de saudação e 
despedida. Tais fórmulas epistolares, em alemão, permitem possibi­
lidades mais amplas do que em inglês (e em português [N. do T. bra­
sileiro]) e algumas delas, traduzidas ao pé da letra, soariam estranhas 
e empoladas. A diversidade e a literalidade foram sacrificadas em pro­
veito de frases que ocorrem naturalmente em inglês (idem para o por­
tuguês [N. do T. bras.]). Mas em geral são mencionadas nas notas as 
principais e mais