Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith
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Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith


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da mente humana está 
acessível e em uso consciente. Em seus últimos dias, porém, Ouspensky começara a 
dizer que não estava chegando a parte alguma, que estava desapontado com seus 
resultados e com os seus seguidores. Ele achava que seria preciso encontrar algum 
tipo de 'método direto', externo a si mesmo.
O conceito de Gurdjieff, que Ouspensky aceitara, dizia que já existem muitos 
níveis de 'homem', desde o primitivo até o tecnologicamente avançado, e ele os 
chamava de Homem números 1, 2, 3 e 4. Era preciso um esforço para desenvolver o 
Homem número 5, um homem cada vez mais consciente, mais em controle de seu 
próprio destino do que nos estados inferiores. Além deste, porém, deveria haver \u2014 em 
tese \u2014 o Homem número 6 e o Homem número 7, ambos conceitos levemente 
nebulosos de estados superiores de existência.
A idéia de um método direto atraiu Rodney desde o princípio, daí seus 
vigorosos esforços e tentativas pessoais para elevar, acima do nível de seu 
conhecimento e do nível de seu ser, o que o homem em si é.
Estas duas linhas devem, conforme Gurdjieff, manter-se lado a lado. Quando o 
conhecimento ultrapassa o ser, temos o caos inerente à sociedade moderna, onde o 
conhecimento científico e tecnológico é detido por homens de pequena estatura 
interior que estão levando o mundo a um estado cada vez mais perigoso. Quando o 
ser suplanta o conhecimento, porém, o resultado seria aquilo que Gurdjieff chamou de 
um "santo estúpido". Essas pessoas teriam a tendência a não fazer nada pelo 
desenvolvimento a longo prazo do homem, pois ficariam cada vez mais inativas e 
satisfeitas com o status quo.
Rodney, sempre ativo e vigoroso, resolveu manter as duas linhas na mesma 
medida, desenvolvendo seu próprio caminho segundo suas convicções íntimas. Logo 
depois de emergir do intenso período de escrita em sua casa, na rua St. James, 
decidiu mudar-se para o México, pelo qual se sentira atraído durante suas viagens 
para a Comissão Britânica de Compras. De certa forma, ainda estava meio 'alto', e 
aparentava uma atitude infantil, inocente e confiante no contato com as pessoas, bem 
diferente de suas maneiras anteriores, levemente peremptórias.
Aqueles que queriam continuar a seguir a obra de Ouspensky, exatamente 
como ele a havia deixado, estavam razoavelmente satisfeitos com Francis Roles. No 
entanto, Francis não confiava na transformação de Rodney e se aborrecia ao ver que 
as pessoas pareciam gravitar na direção dele. Na verdade, Rodney não estava 
buscando discípulos. Ele era um homem disposto a 'chegar em algum lugar', e se os 
outros quisessem segui-lo podiam fazê-lo, mas estava bastante indiferente a isso.
Francis era um homem cauteloso e cuidadoso. Lentamente, desenvolveu a 
nítida tendência de limitar seus seguidores. Dizia-lhes com quem poderiam e com 
quem não poderiam ter contato, e o que deviam ou não ler. Criou uma lista de livros 
proscritos, quase como a da Igreja Católica Romana. Incluíam-se as obras de Maurice 
Nicoll, cujos Commentaries on the teachings of Gurdjieff and Ouspensky (Comentários 
sobre os ensinamentos de Gurdjieff e Ouspensky) e The mark (O alvo) eram 
considerados leitura inadequada. Além deles, toda a obra de J.G. Bennett. Os dois 
autores, inteligentes e claramente 'auto-realizados', foram encorajados por Ouspensky 
a desenvolver suas próprias linhas, em vez de ficar nos calcanhares dos outros.
A teoria da vida eterna e A teoria da influência celestial foram logo incluídos na 
lista de leituras proibidas, aparentemente por seu conteúdo não ser passível de 
comprovação, podendo ser cientificamente imprecisa.
Além disso, todas as pessoas que trabalharam com Ouspensky e deixaram o 
grupo, ou que ainda trabalhavam com Gurdjieff, foram declaradas persona non grata, 
e logo os seguidores de Rodney Collin foram adicionados à lista.
A situação chegou a um exagero tal que maridos e mulheres, pais e filhos em 
ramos diferentes ou grupos isolados da Obra foram proibidos de se comunicar.
Disseram a Sergei, o filho anglicanizado de uma idosa e erudita senhora russa, 
madame Kadloubowsky, que ele não podia mais conversar com sua própria mãe. 
Madame K, como era afetuosamente conhecida, era extraordinariamente culta e muito 
respeitada. Ela traduzira o Philokalia para o inglês. Tinha acesso a todos os 
apontamentos das palestras de Ouspensky, muitos dos quais ela mesma preparara. 
Com o tempo, foi selecionado e editando esse material, acabando por publicá-lo num 
grande volume com o título simples de The fourth way (O quarto caminho).
O nome veio de Gurdjieff, que descrevera os diversos métodos de 
desenvolvimento com que estava familiarizado, como: 1. O Caminho do Faquir: 
desenvolvimento por meios físicos. 2. O Caminho do Iogue: desenvolvimento por 
meios mentais. 3. O Caminho do Monge: desenvolvimento por meio das emoções. E o 
Quarto Caminho: uma amálgama dos três, que permitiria a cada um realizar-se no 
mundo, na vida, em vez de fazê-lo por intermédio da dedicação a estados como os de 
um recluso.
Quando Ouspensky disse, em seus últimos dias, "Abandono o sistema", 
instruiu as pessoas ao seu redor para que nada mais de seus escritos ou palestras 
fosse publicado. Por isso, Francis Roles ficou muito irritado com a atitude de Madame 
K., que ele considerou uma desobediência direta aos desejos do mestre. Em sua 
sabedoria, Madame K. sumiu de cena e, em seu apartamento na praça Edwardes, em 
Kensington, continuou com a tarefa a que se tinha proposto. Seu filho Sergei, um 
arquiteto que tinha abandonado seu nome russo e que era agora conhecido como 
George Kadleigh, ficou aborrecido, e ele e sua mulher Lesbia ficaram divididos entre o 
desejo de seguir Francis Roles e o instinto de que o filho não deveria se afastar 
arbitrariamente da mãe. Muitos outros parentes e companheiros íntimos de Obra 
também se atormentaram por causa de suas ligações pessoais \u2014 tal como ocorreu 
com os Cientologistas e com os moonies, mais tarde.
Certa vez, alguns anos mais tarde, perguntei a Francis Roles o que achava 
desses problemas com relacionamentos, e ele disse que seu dever era o de "manter o 
sistema puro" e de "proteger as pessoas dedicadas à Obra".
\u2014 Por que você baniu o pessoal de Rodney? Não poderia haver seguidor mais 
fiel de O.
\u2014 Ele é um homem violento \u2014 disse Francis Roles. \u2014 Morrerá de forma 
violenta.
Recordando-me dos modos suaves e gentis de Rodney, fui mais a fundo e 
descobri que, em certa ocasião do passado, Rodney perdera a calma com Francis e 
lhe arremessou uma xícara de café. Havia a questão da escada empurrada da janela. 
Uma terceira história dizia que Rodney teria lhe dado um tapa tão forte no rosto 
durante um exercício de percepção ou resistência que seu tímpano foi rompido. Este 
incidente também foi exposto por meu amigo James Webb em O círculo harmônico, 
com a informação adicional de que Roles teria ficado permanentemente surdo em 
função do tapa.
Pessoalmente, nunca observei o menor sinal de violência em Rodney. 
Tampouco me recordo de Francis Roles sofrendo de alguma deficiência, salvo, depois, 
a leve surdez natural da idade.
Quando conheci meus cunhados, foi Janet, não Rodney, quem me despertou o 
interesse pelas idéias da Obra. Com a mente menos clara que a de Rodney, porém, 
ela se atrapalhou ao falar de coisas como crescimento da percepção, e foi incapaz de 
explicar o sistema com sensatez.
Rodney e eu conversávamos sobre jornalismo, livros, arte, filosofia e religião 
em geral, sem qualquer propósito ou padrão aparente
Jessica
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Todos deveriam ler!
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