Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith
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Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith


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acentuando os olhos. 
No instante seguinte, tudo cessou. Não consegui dar aos rostos um nome ou atribuir-
lhes um período.
Após o incidente no estúdio de Rodney, tudo começou a acontecer muito 
depressa. Tive a curiosa sensação de que o tempo se expandira de algum modo, de 
forma que 60 segundos eram preenchidos com muito mais coisas do que um minuto 
de experiência poderia dar, tendo a cada dia mais impressões do que alguém poderia 
receber normalmente numa semana. A impressão que tinha era a de que estava 
entrando e saindo do tempo, vendo a mim e às pessoas que me rodeavam numa 
variedade de papéis diferentes, todos antigos papéis, todos eles familiares.
Rodney comentou em resposta a minha pergunta:
\u2014 Penso que pode existir algo como alma-grupo. Encarnamos ao alcance uns 
dos outros, mas em relacionamentos diferentes. Antigos amantes são hoje mãe e filho, 
pai e filha ou apenas amigos e colegas... essa coisas.
Contudo, o momento de reconhecer o próprio Rodney ainda não tinha 
chegado. Estava preocupada não só com os mistérios de outras possíveis identidades, 
mas também (e muito) com a questão de minha própria identidade. Quem era eu? O 
que devia fazer aqui?
Várias pessoas vieram dos Estados Unidos para ver Rodney. Na verdade, 
havia um fluxo contínuo de visitantes em sua casa, e Rodney ficava enclausurado com 
várias pessoas, conversando em particular. À noite, entre onze e meia-noite, os 
membros do grupo e os convidados saíam para jantar em algum lugar. A mesa variava 
de 4 a 20 pessoas. A conversa girava sempre em torno de filosofia, do crescimento do 
ser, desenvolvimento do conhecimento, despertar da consciência e métodos e 
caminhos que levassem a esses fins.
Rodney experimentara maratonas de resistência, caminhando longas 
distâncias sob o sol, sem água ou descanso, às vezes prosseguindo por dias a fio. 
Seu fiel braço direito, John Grepe, que na época administrava a Libraria Britannica, e 
um punhado de pessoas que o seguiam, caminhavam o mais que podiam antes de 
caírem exaustas.
Havia algo de extremo nessas experiências, e elas não aparentavam qualquer 
efeito visível em ninguém, salvo o próprio Rodney. Ele estava ficando cada vez mais 
exausto. De algum modo, as pessoas ficavam sempre conscientes de que ele era um 
'grande homem'. Não que desse qualquer indicação de se sentir assim, pois sua 
atitude era modesta e humilde ao extremo. Mas ele era muito impressionante, 
chamando a atenção onde quer que estivesse.
Uma noite, o grupo do jantar incluía Hugh Ripman, que trabalhara com O. e 
com Madame em Nova York e que estava fazendo uma visita de passagem. 
Estávamos sentados um diante do outro numa longa mesa. Sendo um homem tímido, 
controlado e autodisciplinado, pensei que seria um pouco difícil conversar com ele. 
Isso se aplicava a muitas das pessoas que se dedicavam há tempos à Obra. Elas 
desenvolviam tamanha autoconsciência e seriedade de propósitos que suas vidas 
ficavam um tanto circunscritas, sem espaço para amenidades.
Estava perguntando a Hugh alguma coisa acerca da natureza da consciência, 
o verdadeiro significado da Obra no sentido de Gurdjieff. O que era a Grande Obra? 
Gurdjieff dissera que, para estar ''na Obra'', a pessoa devia ser útil para si mesma, 
para seu mestre e para a Grande Obra.
Hugh Ripman começou a explicar cuidadosamente aquilo que pensava sobre 
esse assunto bastante incômodo e que o próprio Gurdjieff nunca havia definido 
claramente, mas que todos acreditavam que teria alguma relação com a evolução da 
humanidade. Eu o estava observando e ouvindo com atenção. Ele era um homem 
inteligente, e tinha se esforçado muito ao longo de todos aqueles anos. Contudo, ele 
tinha, assim como muitas pessoas pareciam ter, dificuldade para formular a base de 
suas próprias crenças.
De repente, a intensidade de nossa concentração mútua teve um efeito 
curioso. Hugh disse:
\u2014 Gostaria muito de ajudá-la. Estou tentando explicar... 
Nesse instante, suas palavras ficaram completamente perdidas no que me 
pareceu uma vasta e instantânea abertura das portas interiores da minha mente. 
Lembro-me de ter dito:
\u2014 Eu sei! Eu sei! Sempre soube. Apenas tinha me esquecido. Como é que 
alguém poderia se esquecer de algo tão óbvio?
Senti que tinha me expandido a ponto de ocupar a sala, de ocupar todo espaço 
disponível. De estar centralizada em toda parte e em nenhum lugar. De fazer parte de 
tudo e de todos à minha volta. De ser, de algum modo, Deus. Após um período vago, 
talvez alguns segundos, voltei à normalidade do restaurante, da tagarelice das mesas 
próximas, do garçom juntando os pratos. A expressão de Hugh foi um sorriso amarelo 
causado pelo nervosismo. Evidentemente, ele tinha dito uma série de coisas que nem 
sequer escutei, mas nenhuma delas teria provocado essa forte explosão emocional. 
Senti meus olhos lacrimejarem.
\u2014 Você me deu uma chave que vai abrir todas as portas \u2014 falei. Ele pigarreou 
e disse ansiosamente que ficaria muito feliz se tivesse me ajudado a entender alguma 
coisa.
Muitas vezes depois, tentei em vão me lembrar dos detalhes das palavras que 
foram trocadas entre nós. Nunca mais vi Hugh Ripman. Pode ser que não tenha tido 
nenhum sentimento pessoal por mim, nem eu por ele. Mas a óbvia concentração de 
todos os seus recursos numa tentativa disciplinada de me ajudar combinou-se, ao que 
parece, com a intensidade de minha própria fome e necessidade de conhecimento, 
ativando alguma reação interna em minha mente. Por um momento, eu 'entendi'. Mas 
a mente consciente ainda não captou a natureza do segredo, nem entendeu a fonte do 
súbito afluxo de felicidade.
Durante vários dias, senti que sabia de algo, mas não sabia o que sabia: um 
curioso paradoxo, familiar para aqueles que passaram pelas portas da percepção e 
vislumbraram a verdade das verdades. Tal como o ouro das fadas, descobre-se na 
manhã seguinte que eram pedregulhos. Não é a moeda do nosso cotidiano, e jamais 
pode ser usada como presente ou pagamento.
Ao mesmo tempo, agora 'sabia' qual era a natureza da 'coisa urgente mas 
esquecida' que tinha me assustado na infância, apesar de não ter sido capaz de 
comunicar sua natureza aos demais. O melhor que pude fazer foi dizer: "É alguma 
coisa que tem a ver com o fluxo da criatividade: com a cooperação consciente com 
tudo o que flui do Criador, de modo que as 'criaturas' se tornam cientes de sua própria 
natureza inata e retornam deliberadamente à fonte de sua existência".
Daquele momento em diante, fiquei imensamente feliz por todo o restante de 
meus meses no México.
Rodney tirou alguns dias de férias e anunciou que iria me levar, junto com 
muitos outros, para um dos lugares astecas e toltecas, Teotihuacán, a cidade dos 
deuses. As extraordinárias pirâmides e os restos das antigas civilizações espalhados 
em regiões inabitadas do México eram de grande interesse para mim, e ele já havia 
me mostrado vários. Ele achava que os astecas, que sacrificavam prisioneiros em 
rituais no alto de algumas das pirâmides, eram os remanescentes decaídos da cultura 
tolteca, muito mais antiga. Os toltecas eram o povo que detinha o conhecimento, de 
cujos complexos ensinamentos, transmitidos oralmente, restavam apenas fragmentos 
na época da conquista espanhola. Torres e cúpulas douradas tinham se erguido das 
ilhas nas águas do então inundado Vale do México, e longas passagens os uniam às 
terras ao redor. A bela e dourada cidade de Tennochtitlán, que Hernán Cortês e os 
conquistadores pilharam e saquearam, tinha evidentemente sido o lugar de uma 
cultura muito elevada
Jessica
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