Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith
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Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith


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e antiga.
Ainda existem jóias e a grande coroa de plumas de Montezuma, o último 
imperador. E a imensa pedra do calendário asteca, com 3,5 metros de diâmetro, 
preservada na Academia de Belas Artes da Cidade do México, é evidência de um 
complexo e profundo conhecimento dos movimentos planetários e da natureza do 
tempo.
Na véspera daquela que seria nossa expedição especial à cidade dos deuses, 
torci meu tornozelo. Ele inchou muito, e apesar de tê-lo enfaixado bem, acostumada 
que estou a tornozelos torcidos, tive muita dificuldade em pisar no chão. O grupo 
pensou em me deixar para trás, com meu pé sobre o sofá e as empregadas cuidando 
de mim no apartamento.
Estava determinada a ir. Pulei no carro. Janet, bastante sensata, objetou que 
eu estava incapacitada para suportar o terreno pedregoso da cidade parcialmente 
escavada. Mas Rodney disse "Joyce deve ir" e me ajudou a entrar no carro.
A cidade de Teotihuacán consiste numa longa avenida, com a grande Pirâmide 
do Sol \u2014 maior do que a pirâmide de Quéops \u2014 em uma extremidade e a Pirâmide da 
Lua, bem menor, na outra. A avenida é conhecida como Caminho dos Mortos. Em 
ambos os lados, há construções semi-soterradas, a maioria com câmaras 
subterrâneas revestidas de murais e esculturas do curioso tipo angular que os astecas 
criaram. Representam os deuses dos elementos: o Deus Chuva, Huitzilopochtli, por 
exemplo. E grandes cabeças emplumadas de pedra, datadas de uma antiga ordem 
conhecida como os Cavaleiros Águia e Tigre. Rodney compreendia a importância 
dessa ordem aparentemente religiosa, que parecia ligar as criaturas da terra às 
criaturas do ar. Ele também conhecia muitas lendas sobre Quetzalcoatl, o deus branco 
que teria surgido do Oriente, e que Montezuma supôs ter identificado, com os 
resultados trágicos que conhecemos. O imperador saudou os visitantes com presentes 
de ouro e jóias. Em poucos dias, o deus oriental se mostrou muito malvado, 
começando a pilhar, saquear e derramar sangue.
Enquanto estávamos na estrada, confesso que me senti bem contente e 
interessada. Ao chegarmos lá, porém, tive dificuldades. O grupo se dispersou, olhando 
as coisas. Fiquei apoiada numa só perna, olhando para a Pirâmide do Sol.
\u2014 O que você quer fazer? \u2014 perguntou Rodney.
\u2014 Subir até o alto \u2014 disse, rangendo os dentes.
\u2014 Ei, Joyce, não seja desagradável \u2014 disse Janet, exasperada. \u2014 Nós 
mesmos não vamos fazer essa escalada. Vamos apenas subir a Pirâmide da Lua, 
depois voltamos para o carro e fazemos nosso piquenique aqui com você. Fique 
sentada na sombra e espere por nós.
Olhei para Rodney. Ele estendeu sua mão, ignorando Janet.
\u2014 Venha, então \u2014 disse \u2014, se é o que você quer. 
Dolorosamente, pulando e lutando com cada passo, cheguei até a pirâmide 
com ele, e começamos a longa e árdua escalada dos muitos e muitos degraus 
encravados na pirâmide. Pareciam ir até o infinito. Rodney segurou minha mão com 
firmeza, erguendo-me, puxando-me constantemente, num ritmo que eu podia suportar.
Na metade do caminho, fizemos uma pausa e descansamos. Para meu 
espanto, naquele momento um peão coberto de quinquilharias surgiu do nada, 
caminhando sobre um patamar até nós, sorrindo muito.
\u2014 Buenos tardes, señor, señora! O senhor não deseja comprar algo para a 
senhora? Vai deixá-la contente.
\u2014 Já estou contente! \u2014 respondi.
Mas olhamos para a bandeja que trazia e escolhi um anel de prata mexicana 
que representava uma serpente enrodilhada. Pus o anel num dedo. Uso-o até hoje, 
mais de 30 anos depois, como lembrança daquele dia.
Finalmente, conseguimos chegar até o topo, e nos sentamos ao sol. Lá do 
outro lado do Caminho dos Mortos, podíamos ver as pequenas figuras do resto do 
grupo, reunidas no alto da Pirâmide da Lua.
Ficamos sentados em silêncio. Levantei-me por alguns instantes para observar 
a vista do outro lado. Rodney se levantou para me ajudar. Sua sombra se projetou 
sobre o topo da grande estrutura de pedra \u2014 uma sombra alta, de ombros estreitos e 
quadris um tanto largos que me pareceu vagamente familiar. Uma forma cortando o 
espaço. Sentamo-nos novamente, pusemos nossos chapéus de palha e olhamos um 
para o outro.
Subitamente, compreendi: uma sensação muito imediata e extraordinária de 
reconhecimento, reunida ao espanto de não ter percebido tudo antes. Este era o 
homem alto, o jovem alto, o menino alto, o amado.
\u2014 Você é meu irmão! Você é meu irmão! \u2014 gritei.
\u2014 Muito provavelmente \u2014 respondeu Rodney. \u2014 Você é muito, muito familiar 
para mim. Certamente há um vínculo cármico.
Fazia tanto tempo desde a última vez em que pensara em meu 'irmão' que o 
assunto havia se alojado no fundo da minha mente. Agora, porém, começou a 
borbulhar como um rio revolto, e quase gritei de alegria e satisfação pelo maravilhoso 
momento de re-união.
\u2014 O ar está cheio de anjos! \u2014 eu disse, meio chorando, meio rindo. Tinha a 
impressão de que presenças estranhas, benignas e desencarnadas nos rodeavam e 
nos tocavam com suas meigas asas.
Dali em diante, caminhamos sempre lado a lado, de mãos ou braços dados, 
nossos passos no mesmo ritmo, nossos pés sempre em harmonia. As conversas eram 
fáceis, livres e fluentes. Ele estava repleto de sabedoria, de bom senso.
\u2014 Não existe um 'deve' \u2014 ele disse, quando perguntei se deveria tomar certo 
curso de ação, se seria ou não benéfico.
"Tome o que quiser, e pague por isso" ele costumava dizer. "Há um momento 
para tudo, mas não há tempo a perder", aconselhava-me quando eu estava 
indevidamente apressada. "Não extravase tão facilmente, a menos que a pressão 
criativa esteja a sua volta", dizia quando eu mastigava resmas e resmas cheias de 
palavras em minha máquina de escrever portátil. "Espere. Você vai escrever sobre 
tudo isso mais tarde."
Esses comentários, talvez não muito notáveis devido ao contexto em que foram 
proferidos, foram para mim faróis luminosos, brilhando em certos intervalos ao longo 
dos muitos anos que se seguiram, toda vez que precisei ordenar meus pensamentos. 
Eles reverberavam em mim, com sua voz claramente recordada.
Logo depois, Rodney sugeriu que alguns de nós fizéssemos uma expedição 
que há muito tinha sido mencionada \u2014 ver o nascer do sol do alto do Popocatépetl. 
Popo e Izta, como as montanhas gêmeas de Iztaccihuatl eram afetuosamente 
chamadas, traduzem-se por Guerreiro Fumante e Mulher Adormecida. Aquele se 
parece com um índio mexicano envolto por um poncho, sempre fumando seu 
cachimbo \u2014 a tênue nuvem de fumaça azulada está sempre saindo da cratera do 
vulcão, que nunca se extinguiu completamente; esta se parece com uma mulher nua 
deitada de lado. O velho chefe aguarda tranqüilamente o despertar de sua mulher.
Você pode dirigir por uma estrada de terra, atravessando cinzas vulcânicas, até 
chegar perto do Passo Cortês, de onde os conquistadores espanhóis contemplaram a 
cidade de Tenochtitlán pela primeira vez. Agora, ao se olhar daquela grande altitude, 
vê-se a colossal cidade moderna construída sobre os leitos ressequidos de um lago 
firmados em cinza vulcânica.
Rodney e eu fomos até o precipício íngreme para contemplar a cidade de mãos 
dadas, como de costume. Contudo, quando fui caminhando confiante, ele me 
surpreendeu ao recuar bruscamente, dizendo:
\u2014 Não olhe para baixo.
\u2014 Por que não?
Ele não respondeu. Deu dois ou três passos para trás. Soltei minha mão da 
dele, fui para a frente e olhei da beirada para a magnífica vista. O pequeno incidente 
ficou alojado em algum recôndito de minha mente, sendo lembrado claramente
Jessica
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