Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith
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Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith


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ordem dos mestres, sendo posto em prática com estardalhaço. A observação "você 
não deveria comer tanto creme" era traduzida como "sr. Ouspensky diz que não 
devemos comer creme". Quando comentou, numa exposição de arte, que Turner era 
pálido e incompreensível, isso se transformou em ''sr. Ouspensky não aprova o estilo 
de Turner".
Certo dia, enquanto passava algumas semanas no apartamento, estava 
sentada lendo quando ouvi os passos de um homem que se aproximava da longa sala 
de estar. Olhando por sobre o livro, fiquei atônita ao perceber que o 'homem' era, na 
verdade, Mema, caminhando com um passo pesado e calculado, diferente de seu 
caminhar feminino, de passos curtos. Tomando de uma cadeira à minha frente, ela se 
sentou com os joelhos afastados, numa postura nada característica para uma mulher 
tão feminina, e, com suas mãos plantadas firmemente sobre os joelhos, pôs-se a me 
observar. Olhando-a com certa surpresa, percebi que seu rosto estava se 
transformando gradualmente no de Gurdjieff. Numa voz gutural, o fenômeno se dirigiu 
a mim. O impacto das palavras foi menos profundo do que o da aparição. Ele/ela me 
disse que eu era vã e arrogante, que eu só escrevia livros porque queria aplausos, e 
que deveria usar bijuterias pesadas, em vez dos colares e pulseiras leves que usava.
Poucos instantes depois, Mema cruzou as pernas, relaxou as mãos sobre o 
colo, olhou-me de modo absolutamente normal e me perguntou se tivera um bom dia e 
se o livro que estava lendo era interessante.
Tantas e variadas foram as experiências de todos os tipos que estava 
recebendo naquela época, que o fenômeno Mema Dickins pareceu se encaixar, a 
princípio, em um de diversos, novos e interessantes desdobramentos, e não dei ao 
assunto muita atenção. Contudo, Mema iria se mostrar, mais tarde, um desastre para 
Rodney.
Ocorreu-me que muitas das pessoas que faziam parte do grupo de Rodney não 
mais o freqüentavam. Quando alguém perguntava sobre elas, recebia respostas 
evasivas. Elas foram varridas para debaixo do tapete com comentários do tipo ''não 
concordaram com o modo como a Obra estava sendo conduzida".
Apesar de a maioria dos visitantes de fora estarem aparentemente 
interessados nos livros de Rodney e nas idéias da Obra, havia um círculo fechado em 
torno de Rodney a cujo respeito eu estava um tanto insegura. Eram mexicanos, na 
maioria, e Mema Dickins era o centro de seu trabalho. Eles se reuniam no estúdio de 
Rodney a portas fechadas, gravando alguma coisa em fita. Não fui convidada a fazer 
parte desse grupo, e como as conversas devem ter sido em espanhol, isso me 
pareceu natural e não me aborreceu nem um pouco. Tinha mais do que o suficiente 
com que me preocupar para querer fazer parte de um pequeno grupo que, 
evidentemente, estava trabalhando junto há algum tempo em algum projeto específico. 
Mas logo comecei a descobrir que as atividades desse grupo é que causaram o 
desaparecimento de muitos dos seguidores originais.
Um dia, Rodney me disse que, com o advento de Mema, seria possível 
descobrir os vestígios da Escola do Quarto Caminho ao longo das eras, formando um 
documento que teria grande valor no futuro. Ele tinha a intenção de partir em breve 
para a Europa e o Oriente Médio, para acompanhar evidências que estariam se 
acumulando. Era um projeto interessante, e teria gostado de fazer parte dele. 
Contudo, estava claro que precisaria voltar logo para minha casa, para meu marido e 
minha filha.
Quando fui de Cuernavaca para a Cidade do México, também estava num 
estado mental mais tranqüilo. Comecei a meditar bastante sobre alguns aspectos do 
trabalho e atividades de Rodney e sobre o que poderia estar acontecendo 
pessoalmente com ele. Ele parecia muito cansado. Ainda estava trabalhando vigorosa 
e continuamente, mas tive a impressão de que seus recursos estariam, de algum 
modo, se esgotando. Ele adquirira o hábito de se colocar à disposição de todos, 
chegando a sair da mesa ou da cama para atender a todos os que pedissem para vê-
lo. Certa vez, vendo-o deixar o almoço novamente na mesa para conversar com uma 
senhora bastante tagarela, cujos propósitos não pareciam merecer tanta atenção, 
perguntei-lhe se ele não deveria descansar mais, terminando suas refeições 
sossegadamente e pedir que eu ou alguma outra pessoa mantivesse seus visitantes a 
certa distância.
\u2014 Quanto mais se exige de mim, melhor \u2014 respondeu. \u2014 Tenho de fazer o 
que preciso fazer.
\u2014 E o que é isso?
\u2014 Obedecer à vontade de O.
Quis perguntar-lhe alguma coisa a respeito de sua própria vontade, suas 
próprias necessidades, sua própria contribuição para a Obra. Mas havia uma 
expressão de não-me-toque em seu rosto que eu estava começando a conhecer bem, 
e achei melhor não fazer mais nenhum comentário. Ao mesmo tempo, a idéia de 
obedecer à vontade de um mestre do além me causava um pouco de desconforto. 
Imaginei que ele podia perder seu senso de direção se continuasse assim.
Voamos da Cidade do México juntos e nos separamos em Nova York. Rodney, 
Janet e Chloe, Mema e um ou dois outros foram a Paris, e eu a Londres.
Chloe era uma moça de 18 anos muito bonita, animada, mas bastante flexível e 
obediente. Ela adorava seu pai. Já fazia algum tempo que Mema e Janet estavam 
pensando que Chloe poderia se casar com Tony, o filho mais velho de Toby e Mema, 
que tinha a mesma idade e estava no último ano do colégio na Inglaterra. Esse 
casamento seria, segundo elas, da vontade de O. e de G. O jovem casal levaria a 
cabo a Obra quando chegasse o momento. Chloe não foi consultada a respeito, mas 
seria levada, aparentemente de maneira complacente, na direção de um eventual 
casamento com esse rapaz apresentável a agradável, quando fosse a hora.
Contudo, nos últimos meses, ela estava chamando a atenção dos rapazes do 
Colégio Americano da Cidade do México, que freqüentava em meio período. Eles 
queriam sair com ela. Lembro-me em particular de um belo jovem que se ofereceu 
para ensiná-la a dirigir. Todos os pedidos de Chloe para aceitar esse convite bastante 
inócuo foram vetados por Mema e por sua mãe, que a mantinham bastante ocupada 
em casa e na obra do Planetário, lembrando-lhe constantemente de que estava 
comprometida. Pensei um pouco nisso, mas não dei muita importância a esse 
casamento arranjado. Supus que Chloe se manifestaria e faria sua própria vontade na 
hora certa, se necessário.
Voltei para casa, tendo perdido todo o meu peso extra, confiante e com uma 
sensação renovada de propósitos, mas não mais num estado de excitação. Fui 
procurar Francis Roles e lhe perguntei se podia voltar a freqüentar os encontros 
londrinos. Após hesitar, concordou, desde que eu não distraísse seus seguidores 
contando-lhes algo sobre a Obra no México, pois "Rodney está seguindo um caminho 
completamente diferente".
Quando falei disso a Elsie Abercrombie, ela observou, na linguagem franca que 
empregava quando se exasperava com Roles:
\u2014 Que diabo isso importa, desde que siga um caminho! Francis está se 
fechando completamente numa caixa formada por suas próprias opiniões!
Algumas semanas depois, Rodney escreveu de Atenas pedindo que Derry e eu 
fôssemos encontrá-lo e a seu grupo em Roma numa certa data. Essa data seria um 
feriado para Derry. Por algum motivo, porém, Rodney escrevera na carta uma data 
completamente diferente para esse encontro, e por isso nos desencontramos, não 
conseguimos nos comunicar e o encontro planejado e os
Jessica
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